Aníbal Cavaco Silva: A verdadeira história do Pinóquio de Boliqueime

cavacosorrisoBoliqueime, 1939

Estamos no Portugal profundo de Salazar. A Segunda Grande Guerra está prestes a começar. As tropas de Hitler dirigem-se para a fronteira com a Polónia e o Algarve está muito longe de ser o popular destino balnear que hoje é. Com efeito, a região teve o primeiro turista estrangeiro da sua história no Verão anterior, em Agosto de 1938. Hans Frenkel, alfaiate visionário de Leipzig, visita Albufeira movido por um plano mirabolante para usar viveiros de amêijoa para produzir uma nova fibra de origem animal que substituísse a lã. O plano falha redondamente e Frenkel acaba incorporado no exército nazi, encarregado do armazenamento e distribuição de meias e ceroulas arianas. De qualquer maneira, à chegada a Leipzig, confessa aos amigos e familiares que “o Sul de Espanha tem grande potencial turístico.”

Na pequena aldeia de Boliqueime, numa abafada noite de Julho, o carpinteiro José Maria Gepeto Silva está debruçado sobre a sua mesa de trabalho, limando as arestas mais rudes da sua última criação. É que, para além dos trabalhos de carpintaria e marcenaria convencionais com que se ocupa durante o dia, Gepeto tem uma paixão antiga pelo fabrico de marionetas e, desde pequeno e de forma absolutamente autodidacta, veio a tornar-se num exímio artífice, capaz de transformar um tosco tronco de pinheiro numa figura de perfeição quase humana. Quase. Olhando para elas, não seria necessário grande esforço para as imaginar a falar e a mover-se sem necessidade de puxar os arames que as prendiam. Mas, mesmo com toda a perfeição, não deixavam de ser marionetas e, lá no fundo, isso deixava o criador desgostoso e consciente de que, por mais que se aplicasse, nunca conseguiria mais do que criar bonecos de pau inertes.

Ao que agora acabava, uma marioneta carrancuda e de nariz aguçado, chamou Aníbal, por sempre ter gostado do nome, e Cavaco por ser feito de madeira. Não lhe passava pela cabeça que aquela figura inerte viria a governar o país durante uma década.

Aconteceu durante a noite. José Maria Gepeto foi acordado por um brilho vindo da oficina e que, inicialmente, julgou ser um incêndio. Em vez de chamas, encontrou Satanás confortavelmente instalado numa cadeira de braços que tinha acabado por encomenda do senhor cura. “Vim para satisfazer o teu mais ardente desejo,” disse o mafarrico. “Que queres de mim em troca?” perguntou Gepeto. “Uma ninharia,” explicou Satanás, “a tua alma.” O carpinteiro era um homem prático e consciente de que a alma era um estorvo que só servia para o fazer sentir remorsos depois de se rebolar na lama, sob o luar, besuntado com sangue de coelha virgem num frenesim de misticismo pagão. Até agradecia se alguém o livrasse dela e, se lhe ofereciam alguma coisa em troca, melhor. “Está bem,” concordou, “a minha alma em troca de um desejo. Negócio fechado.” Os olhos do príncipe das trevas cintilaram de contentamento. Gepeto encheu o peito de ar e pôs cá fora o que há muito desejava. “Quero uma pila de trinta centímetros,” disse com os olhos fechados, preparado para a metamorfose que se operaria no seu baixo-ventre. Nada aconteceu. Tornou a abrir os olhos e viu um demónio confuso à sua frente. “É isso que queres? Não preferes que dê vida a esta marioneta que aqui está?” perguntou, apontando para o imóvel Aníbal Cavaco. “Quero lá saber do boneco. Eu quero é ter um cacete de meter respeito,” foi a resposta. Mas não podia ser. O inesperado pedido não se enquadrava nos desígnios demoníacos e o órgão de José Maria Gepeto, que uma ou outra rameira de Loulé sabia ser curto e delgado, teria de permanecer com as dimensões naturais. Desconsolado, Gepeto pediu então uma arca de ouro sem fundo, um par de botas aladas, um barrete que tornasse invisível quem o usasse e a vitória do Louletano no campeonato nacional. Nada feito. Ou a humanidade para o pequeno Cavaco ou nada. Não havia alternativa senão aceitar.

E assim foi. Satanás desapareceu numa nuvem enxofrada e Aníbal Cavaco moveu os braços pela primeira vez sem que lhe puxassem pelos arames. Aliás, os arames tinham desaparecido e a madeira fora substituída pela mais humana das carnes. Lamentando a sorte e a nova boca para alimentar, o velho Gepeto retirou-se para o quarto, fechando a porta atrás de si. Adormeceu a pensar na construção de uma prótese fálica em madeira de freixo.

Cavaco cresceu depressa e revelou-se um rapaz ajuizado e inteligente. Fez questão de adoptar o apelido Silva ao velho que lhe dera corpo e revelou um talento precoce para os números. Em breve, era já ele a gerir a oficina e, por volta de 1947, vendeu-a a uma multinacional japonesa de cavalos de baloiço e pôs Gepeto a render no circuito da marcenaria erótica, que então começava a despontar. Veio para Lisboa e matriculou-se na Faculdade de Economia antes do tempo. Fez-se homem primeiro e economista depois (uma destas metamorfoses terá acontecido numa noite de descoberta de prazeres lúbricos com uma matrona espanhola da Praça do Chile e a outra numa sala de exames da faculdade, mas não se sabe ao certo a qual delas corresponde cada localização).

Quando a economia deixou de ter segredos, enveredou pela política e chegou a ministro das Finanças. Convenceu Satanás a dar vida a mais duas marionetas de Gepeto, a quem se tinha afeiçoado, em troca de um abatimento na carga fiscal (ao contrário do que muita gente pensa, as entidades sobrenaturais também pagam impostos e não pagam pouco). Uma delas, um magricelas barbudo com o apelido Nogueira, lembrando a madeira de que era feito, o outro era um pigmeu de óculos chamado Peidinhas, nome que mudaria depois de alcançada a humanidade. Feito primeiro-ministro, levou os dois companheiros para o governo e fez deles colaboradores importantes. Ganhou confiança. Descobriu o poder de uma frase bem aplicada. Pediu que o deixassem trabalhar. Percebeu que nunca se enganava e que raramente tinha dúvidas. Criou tabus. Deixou o governo. Candidatou-se à presidência. Foi derrotado. Abandonou a política. Afastou-se da esfera pública. Regressou. Pode ainda subir ao mais elevado patamar da magistratura nacional. E, se lá chegar, lembrar-se-á sem dúvida de que tudo começou com um valente pau.

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