A górgone de Sacavém

Muitos se cruzaram com a górgone de Sacavém. Mas poucos foram os que perceberam a angústia e a solidão que marcaram a vida de tão horrenda e nefasta criatura. Bem vistas as coisas, e mesmo com a capacidade incontrolável de transformar em pedra todos aqueles que se confrontassem com o seu olhar, não era má pessoa. Tinha lá os seus achaques ocasionais, é verdade, mas quem de entre nós não os tem também?

Por mais que se esforçasse por se integrar, e fazia-o com um afinco desesperado, era difícil não reparar nela. No alto dos seus dois metros e oitenta, coroando uma cabeça escamosa de penetrantes olhos amarelos, um emaranhado de serpentes venenosas agitava-se constantemente numa fúria assassina, tentando morder tudo o que se aproximasse. A bem da verdade, diga-se que uma das serpentes era inofensiva (e até bonacheirona, tanto quanto a natureza de ofídio lho permitia) mas, visto que era exactamente igual a todas as outras, não lhe servia de muito a simpatia e acabava a apanhar por tabela.

Como se não bastasse ter a cabeça coberta por víboras, a górgone não podia dar largas à sua natural vaidade feminina visto que ninguém se atrevia a penteá-la. Houve quem tentasse. Um cabeleireiro brasileiro de renome nos Olivais usou um complexo sistema de pinças e escovas de cabo alongado para tentar levar a cabo uma mudança de visual arrojada, acabando mordido por uma das serpentes e sendo levado de urgência para o hospital mais próximo. Felizmente, teve a sorte de ser mordido pela única que não era venenosa mas, como era um grande mariquinhas, comportou-se como se estivesse às portas da morte, guinchando como um porco na matança. Teve alta meia hora depois da chegada ao hospital. À serpente que o mordeu coube pior sorte porque, desde esse dia, e não se sabendo muito bem porquê, começou a ter tiques estranhos e pavoneava-se dando muito às ancas (o que é bastante difícil para uma cobra).

Também sofria muito de amores. Qualquer rapazola que se atrevesse a deitar-lhe o olho acabava feito numa estátua de mármore. Ora isso podia ser muito proveitoso para o negócio de decoração de jardins que acabou por montar mas tornava-lhe a vida sentimental num inferno. E nem sequer tinha tempo de avaliar o potencial de cada interessado porque, no momento em que lhes retribuía o olhar (e nunca conseguia evitar fazê-lo), já era tarde demais. Acabou triste e amargurada, negando os impulsos do coração e resignando-se ao seu triste fado de monstro com coração delicado.

Como tantas vezes acontece, foi quando perdeu as esperanças que encontrou o que mais desejava. Enamorou-se por um jovem rapaz de Moscavide, moço valente que engendrou um modo de nunca lhe olhar directamente para a cara através de um engenhoso sistema de espelhos. Usando-o, encontraram-se por várias vezes, foram ao cinema, passearam à beira-mar, andaram de carrossel na Feira Popular, alheios aos que, à volta, iam ficando petrificados.

Finalmente, após um par de semanas de namoro, chegou o grande dia. A górgone aceitou recebê-lo em casa, perfumando-se e envolvendo as víboras capilares numa rede protectora. Escolheu a sua melhor lingerie, aparou as garras e esperou por ele. Chegou com um ramo de rosas numa mão (que ela levou ao nariz, enquanto ele entrava, piscando-lhe o olho por um dos espelhos) e com uma faca de talhante afiada na outra (que usou para a decapitar de um só golpe). Colocando a desiludida cabeça num saco de lona, dedicou-se a fazer nome como mestre do crime, planeando usá-la (como sempre fora sua intenção) para levar a cabo crimes grandiosos e transformar em pedra os que se lhe opusessem. Acreditava estar destinado a dominar o mundo.

Não conseguiu.

Foi atingido na cabeça por dois tiros disparados por um agente da PSP e faleceu durante o seu primeiro assalto a um banco de Loures. Jaz em campa rasa no talhão dos génios do mal do Cemitério dos Prazeres. Da cabeça da górgone não há rasto. Mas há quem diga que foi comprada a preço de ouro por um empresário de Felgueiras.

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