Ser dirigente desportivo

A Inépcia inaugura uma rubrica de puro civismo cujo objectivo primordial será contribuir para o pleno emprego.

Muitos dirão que a carreira de dirigente desportivo não é uma opção profissional válida. Nada mais falso. Basta olhar para o sucesso alcançado pela maioria dos dirigentes desportivos da nossa praça para perceber que, sem o seu contributo, o futebol não seria como é e como aprendemos a amá-lo (mais ou menos como há pais que aprendem a amar uma criança nascida com cascos de bode, cauda e três olhos). Além disso, um dirigente desportivo habilidoso pode, com um esforço mínimo, subir vários lanços da escada social de um só salto.

-Como noutras carreiras, a formação é essencial. Neste caso, não pelo uso que se possa fazer dela mas pela urgência em esquecê-la o mais depressa possível. Tirou um curso de filologia e tem uma paixão pela literatura? Deixe-se disso. Apenas com o regresso aos instintos mais primários e selvagens será possível singrar na selva da dirigência política. Deite os livros fora. Se precisa de algo para passar o tempo livre (que não deve ser muito entre a contratação de treinador para a época seguinte, prospecção de jogadores e aliciamento de árbitros), vá a uma casa de meninas. Mais tarde, quando já for um consagrado, então pode publicar um livro de poesia mas só para provar que não é o burgesso em que se tornou irremediavelmente.

-Um dirigente desportivo de corpo e alma precisa de uma “ocupação principal.” Tal como acontece na política, nesta actividade é preciso dar a entender que nela se está sem qualquer tipo de interesse e que a “ocupação principal” até é outra. Quanto mais inócua for essa “ocupação principal”, melhor será. Alguns excelentes exemplos: empresário do ramo da padaria industrial, proprietário de uma fábrica de soutiens ortopédicos, bispo da Igreja Anglicana.

-A retórica é também muito importante. Mas não se trata aqui de retórica na acepção tradicional do termo. Dispensam-se as locuções inspiradas, o vocabulário rico e cuidado, os ditos perspicazes, as palavras que vão direitas ao alvo e ferem como metal aguçado. Necessita-se de algo completamente diferente. Imagine-se o ladrar feroz de um cão. Agora tente-se substituir os latidos por palavras. Não importa quais. É mais ou menos isso que se pretende. Também ajuda salivar da boca. Ou salivar do nariz e das orelhas se possível for, acompanhando cada frase com uma explosão de cuspo e ranho. Não pode haver medo de se parecer louco furioso. Ser louco furioso neste ramo é uma grande qualidade. Digam-se as maiores barbaridades. Desde que se digam alto e com convicção. Se achar que está a dizer uma grande estupidez é provável que esteja mesmo mas isso não interessa. Use e abuse da participação em programas de debate desportivo e assembleias-gerais e destrave a língua e o bom-senso.

-Finalmente, é preciso não esquecer a aparência. Porque, afinal, os olhos também comem e a um bom dirigente desportivo não basta sê-lo. É também necessário que o pareça. Ande sempre de fato. Mesmo na praia. Durma de fato, prevendo a eventualidade de ser preso a meio da noite por suspeitas de corrupção. É necessário ter olho para evitar fatos que assentem bem. Escolha-se o número imediatamente acima (no caso dos dirigentes magros) ou abaixo (no caso dos gordos). Combine cores impossíveis (casaco cinzento com uma camisa laranja de colarinhos brancos e uma gravata com padrão de azulejo tradicional português, por exemplo).

Seguindo estas orientações básicas, o resto dependerá do afinco de cada um e da vontade de progredir. Como em tudo, é preciso controlar a ambição e não ter vergonha de começar por baixo e ir progredindo gradualmente. Procure-se um clube de bairro e tente-se levá-lo ao topo da divisão distrital em que está inserido. Depois, esqueça-se essa primeira paixão clubista “do coração” e passe-se a um clube ligeiramente maior, até chegar finalmente a um almejado clube de topo. E depois, quem sabe, presidente da Federação, da Liga, da FIFA ou gerente de uma casa de alterne em Penafiel. Os dados estão lançados e o céu é o limite.

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