O ciclope do Barreiro

José Polifemo de Almeida tinha um sonho de criança e ninguém o conseguia convencer a desistir da ideia, para muitos despropositada, de se juntar aos Comandos. A paixão militarista fora despertada durante visita de estudo ao campo de batalha do conflito entre o Irão e o Iraque em meados dos anos 80. Fascinou-o tudo aquilo. As fardas, o armamento, o derrame constante de sangue e a coragem exigida aos soldados. E não valia a pena recordarem-lhe que, com uma altura de 3,42m, quase uma tonelada de peso e um único olho gigantesco colocado a meio da testa, dificilmente passaria nas exigentes provas militares de selecção física.

A determinação de “Zé” (como lhe chamavam) não esmoreceu e, mal chegou à idade mínima exigida, prontificou-se a oferecer os seus préstimos ao mais exigente corpo militar do país, os afamados Comandos, tão célebres pelas boinas rubras como pela disposição em arrancar cabeças de galinhas vivas à dentada ou pela roupa interior de palha de aço que habitualmente usam.
Como muitos, quase todos, esperavam, foi rejeitado. Não tanto pelo excesso de altura nem de peso, nem sequer pelo único olho tão bizarramente posicionado mas porque, sem o saber, era daltónico. E os Comando não querem correr o risco de que um dos seus operacionais não saiba distinguir se uma galinha é branca ou castanha antes de lhe arrancar a cabeça.

Zé ficou desolado e regressou ao seu Barreiro natal. Mas não lhe arrancariam a desistência com facilidade. A inflamar-lhe ainda mais as ganas, havia a convicção de que a tropa faria dele um homem e, sem que isso quisesse dizer alguma coisa, via-se forçado a admitir que já tinha olhado para um ou outro traseiro masculino com atenção exagerada.
Encheu-se de coragem e pensamento positivo e deu-se como voluntário a todos os ramos das Forças Armadas. Chegou mesmo a oferecer-se em desespero de causa aos Bombeiros, às forças policiais e a uma unidade paramilitar que descobriu por acaso e que, mais tarde, viria a compreender ser apenas uma convenção de porteiros de hotel. Por todos foi rejeitado (mesmo os porteiros de hotel só deixavam entrar quem estivesse vinculado ao sindicato com farda trazida de casa e, de preferência, passada a ferro e vincada como mandam as regras).

Sentiu que era o fim. Como conseguiria ultrapassar esta destruição do seu maior e único sonho, a inutilização da sua vocação provocada pelos únicos factores que não poderia nunca alterar: os da sua invulgar e mitológica compleição física.
Foram dias terríveis. Andou perdido sem saber o que fazer, rodeou-se de más companhias, arremessou penedos para o mar do alto de uma colina, afundando uma frota de galés gregas que por ali passava.

Os tempos foram passando e o desgosto militar também. Hoje, já foi quase esquecido. Justificando medos antigos, Zé dedica-se agora de corpo e alma (mas sobretudo de corpo) ao paneleirismo, já sem complexos e integrando mesmo o núcleo dirigente de um grupo activista.

O mundo poderá ter perdido aquele que seria literalmente o maior Comando da história. Mas de uma coisa não haverá dúvida. Quando a marcha “Pride” desce a avenida, é impossível não reparar na colossal loura com o penacho de plumas de faisão indiano.

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