Ser sindicalista

A primeira reacção de muitos leitores será, sem dúvida, considerar que ser sindicalista não é uma carreira profissional mas apenas um serviço prestado aos trabalhadores por gente altruísta que abdica do seu tempo em prol de uma causa e sem receber nada em troca. A resposta mais indicada para quem assim pensa resume-se em três palavras: Carvalho da Silva. Se ser sindicalista não é profissão, como se explica que o último emprego do eterno secretário-geral da CGTP tenha sido como afinador de consoantes numa fábrica de máquinas de escrever em 1973? Não só é uma profissão como é uma profissão de futuro (basta olhar para o descontentamento social que não pára de aumentar) e qualquer pessoa poderá tornar-se um sindicalista de sucesso, bastando apenas seguir estas indicações simples.

– O sucesso no sindicalismo passa, antes de mais, por uma questão de lata. É preciso ter uma quantidade considerável da dita para conseguir fazer discursos e declarações inflamadas sobre o valor do trabalho, a necessidade de valorizar e proteger quem trabalha, a defesa dos operários, dos agricultores, dos pescadores e de todas as categorias profissionais com piores rendimentos e maior carga de esforço quando esse é precisamente o único trabalho que se tem e se vive sustentado por uma subvenção que resulta das quotas sindicais pagas por quem se pretende defender. A lata pode ser um dom inato mas também se adquire pela prática. Vá fazendo pequenos exercícios para aumentar a sua como, por exemplo, passar à frente de toda a gente na fila (quanto maior a fila, mais proveitoso o exercício) ou instalar-se no lugar que alguém disponibilizou no autocarro para a septuagenária grávida invisual com uma criança ao colo.

– É também muito importante ter ideais políticos. E têm de ser os ideais políticos adequados, ou seja, de esquerda. Também há sindicalistas de direita mas estes acabam por ter o mesmo destino dos padres comunistas ou dos neonazis articulados: ninguém os leva a sério. Trate de se filiar num partido de esquerda, de preferência num que tenha uma sigla complicada e reminiscente do PREC e um símbolo com muitas ferramentas cruzadas, sejam foices, martelos, rodas dentadas, pás, enxadas, picaretas, colheres de pedreiro ou vibradores (porque o sindicalismo deve estar aberto a todas as profissões, mesmo às que ainda não foram legalizadas). Depois, comporte-se como se a sua militância política fosse inteiramente independente do trabalho sindical. E, se alguém sugerir o contrário, ponha-se muito vermelho, fale alto e comece a espumar da boca.

– O sindicalismo tem algumas semelhanças com a política. Uma delas é a importância que a retórica tem em ambas as actividades. Mas com uma nuance. Enquanto que, na política, o importante é dizer a coisa certa na altura certa, no sindicalismo interessa encontrar as alturas certas para dizer sempre a mesma coisa. Não se preocupe com a falta de coerência nem com a desadequação do que é dito à conjuntura actual. O mais provável é que o seu público esteja pré-programado para reagir a palavras-chave como “desemprego, salários, reformas, pensões de miséria, exploração ou grande capital” e não ligue muito ao conteúdo.

-Finalmente, não se esqueça de que é também muito importante ser um bom negociador. A negociação sindical reveste-se de características muito específicas mas que, felizmente para os iniciados, são fáceis de reproduzir. Comece por fazer exigências absurdas e, sempre que lhe oferecerem alguma coisa, recuse e peça o exacto oposto. Peça a Lua. Se lhe oferecerem um pequeno asteróide, faça muito barulho e explique que a Lua é essencial. Quando aumentarem o asteróide oferecido para um tamanho generoso e o embelezarem com um anel de gelo, recue para não dizerem que é irredutível e aceite o asteróide MAS SÓ se vier banhado a ouro e com um núcleo de gelatina de morango. Pode parecer que esta atitude não vai conseguir grandes benefícios para os trabalhadores que lhe caberá representar. E até é verdade. Mas isso não é assim tão importante, pois não?

E pronto. Agora, basta haver empenho e lutar para subir na carreira. Quando discursar no seu primeiro jantar-comício, não se esqueça de convidar familiares e amigos para se orgulharem de si e perceberem que, afinal, não era tão imprestável como sempre pensaram.

4 Comentários

  1. Boa noite.
    Sou Técnico em Segurança do Trabalho de uma empresa aqui no rio de janeiro, sou totalmente de esquerda e por isso sou visto com maus olhos pelos gerente e etc da empresa na qual faço parte, conquistei inumeras melhorias a ponto de quererem me mandar embora várias vezes, mas com o reconhecimento da imensa parte dos funcionários me elegi a CIPA duas vezes na qual gozo ultimamente, pois, se não fosse isso já teriam me mandado embora.
    Apergunta é: como faço para me sindicalizar, e me sindicalizando vou conseguir fazer mais pelos meus companheiros ?
    No aguardo…
    Atenciosamente
    RJB

  2. Olha amei td e acredite vou tentar pois existem injustiças e pessoas insatisfeitas politicas incorretas devemos mostrar isso e lutar.

  3. Excelente texto.
    Foi a primeira vez que por aqui passei, via Candilhes.
    Descobri a minha vocação.
    Afinador de consoantes.

    (ficou a fazer parte do roteiro)

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