Guia de pânico para melhor enfrentar a gripe

influenza-panicNovo flagelo sanitário se abate sobre o mundo e, com o primeiro caso de gripe suína (também conhecida como gripe A ou gripe da televisão) confirmado no nosso país, urge tomar medidas para evitar o pior. A Inépcia sempre teve como seu primeiro objectivo a prestação de serviço público e, como tal, não poderia limitar-se a ver os vírus passar. Por mais que se diga que não há motivo para alarmes, todos sabemos que não é bem assim. Metade da população mundial contrairá o vírus e, desses, é provável que todos morram. É o fim da civilização tal como a conhecemos. Os que conseguirem escapar à pandemia poderão não escapar ao caos que se seguirá, com o desabar de países e instituições, num festim de violência selvática que colocará irmão contra irmão, cego contra cão-guia e canário contra peixinho dourado. Talvez haja esperança para quem conseguir orientar da melhor forma o seu pânico (seguindo as indicações deste guia, por exemplo), mas nem assim será garantido. É o fim.

1 – Os aspectos coreográficos são a base de qualquer pânico bem-sucedido. Corra pela rua fora de braços no ar, em pelota e com as cuecas enfiadas na cabeça. Não se limite a gritar. Uive, chore, brade. Faça as três coisas em simultâneo se conseguir. Quando passar por outro cidadão em pânico, junte-se a ele. Procure exercer a histeria em grupos numerosos para melhor passar a mensagem de que não há salvação possível.

2 – Suspenda o bom-senso. É um elemento incompatível com o pânico qualificado. Esqueça que, apesar de tudo, a gripe A continua a ser uma gripe. Alheie-se da escassez de baixas e da facilidade de tratamento, com doentes em quarentena a entreterem-se com animadas entrevistas. Esqueça que a gripe comum reclama centenas de milhar de vidas por ano sem que isso provoque idênticas ondas de histeria.  Ignore tudo isso e concentre-se no que importa: vamos morrer de uma morte atroz!

3 – Comece já a adaptar o seu guarda-roupa à pandemia. Nada obrigará à limitação a entediantes máscaras cirúrgicas de eficácia duvidosa. Porque não ir mais longe? Comece a sair à rua com um balde enfiado pela cabeça abaixo (os furos para respiração e visão ficam ao critério de cada um). Compre uma máscara de oxigénio da Primeira Guerra Mundial numa loja de antiguidades militares (certifique-se antes de que o seu proprietário original não foi vitimado pela gripe espanhola). Se quiser ser verdadeiramente arrojado, adopte as máscaras com bico de pássaro usadas durante as epidemias de peste negra.

4 – Seja cauteloso no contacto com os animais. Primeiro foram as aves e agora são os porcos. Os animais foram já responsáveis por duas variantes mortíferas do vírus da gripe e não podemos prever que outra gripe animal nos esperará no futuro. Gripe anfíbia? Gripe dos moluscos? Gripe das iguanas? Seja como for, será aconselhável que deixe de cumprimentar o seu chinchila de estimação com calorosos beijos na boca.

5 – Por fim, não se esqueça de planear uma possível (ainda que pouco provável) sobrevivência. No mundo pós-gripe poderá ver-se obrigado a travar duelos mortais para garantir posição de domínio numa sociedade em que a riqueza será determinada pelo número de rolhas de cortiça que se possua. Invista tudo o que tem na compra de rolhas e não se esqueça de adquirir pelo menos algum armamento medieval. Esteja preparado. Se esta previsão não se concretizar e acabar arruinado num mundo sem mudanças visíveis, nada de choramingar e aceite a miséria de queixo erguido! (Nota: Diz-se que a cortiça é comestível se for cozinhada durante tempo suficiente.)

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2 Comentários

  1. Boas

    Excelente. Estamos a precisar de pessoas com visão para tempos de crise.

    Na minha forma de cortar a pescada, perdeu-se uma boa oportunidade de se fazer uma referência aos medicamentos milagrosos e ajudar os senhores do TAMIFLU, que a esta hora estão fartos de perder dinheiro a vendê-lo a países de terceiro mundo.

    Eu ainda tenho espaço no congelador para umas embalagens. E você?

    Vou passar no site mais vezes.

    Abraço

    Eduardo

    ps. o meu “sitio” está parado, mas ao “ler o teu” decidi perder mais algumas horas de sono para o ir actualizando, com novas descobertas…

    • R. Carreira diz:

      Nada de referências ao medicamento milagroso, porque não quero que usem isso contra mim quando precisar de umas embalagens. Umas 300, para começar.

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