Carta aberta a José Sócrates

troiasocratesCaro senhor primeiro-ministro,

Ainda que não nos conheçamos pessoalmente, percebo pela sua postura e discurso que é uma pessoa afável e de bom grado dispensará formalismos com amigos, admiradores e pessoas que consigo simpatizam. É por isso que, se não se importar, continuarei a tratá-lo por “senhor primeiro-ministro.”

Esclarecido este ponto inicial, espero que encontre algum tempo na sua agenda preenchida para ler nestas linhas algumas coisas que, como cidadão, gostaria de lhe dizer.

Recordar-se-á, certamente, dos primeiros meses do seu mandato e da campanha que antecedeu a sua eleição. Lembra-se do político jovem e atrevido, sem papas na língua nem medo de fazer o que era necessário para pôr o país nos eixos em que há tantos anos precisa de ser posto? Não se lembra? É normal. Poucos  se lembrarão. Sei que seria esperar muito desejar que a maioria absoluta não lhe tivesse subido à cabeça. Era inevitável e a culpa nem é sua, mas sim da natureza humana. Afinal, é sabido que, depois do Estado Novo, do PREC e do governo de Santana Lopes, as maiorias absolutas que tivemos foram os momentos políticos mais deprimentes deste país no século passado e no início deste em que nos encontramos. Mas poderia, por exemplo, ter deixado sobreviver durante mais algum tempo aquele primeiro-ministro que tomava medidas impopulares porque tinha de ser e que não receava explicar isso mesmo, que se despediam funcionários públicos porque, mesmo após os despedimentos, continuaríamos a ter muitos mais do que os necessários, que se aboliam privilégios porque eram injustos para quem não os tinha e por aí fora. Mesmo que as medidas fossem desagradáveis, até alguns dos portugueses que por elas foram vitimados teriam certamente compreendido, lá no fundo, que o motivo era nobre e que o sacrifício se destinava ao bem comum. Quando substituiu esta postura didáctica por uma de “é assim porque eu quero que seja e, como ninguém pode fazer nada, encerra-se já aqui o assunto”, se me permite que lho diga recorrendo a vocabulário corrente, lixou tudo.

No fundo, tornou-se muito parecido com o titular de outra maioria absoluta. Lembra-se dele? Um sujeito alto, seco de carnes e algarvio? Esse mesmo. Calma, não se apoquente. Não leve isto tão a peito. Esse é outro problema. Faria melhor figura se deixasse de reagir a todas as críticas como se resultassem de conspirações contra a sua pessoa movidas pela oposição, pela imprensa ou por núcleos columbófilos anarquistas. Não digo que algumas não o sejam (quem não tem motivos de queixa dos columbófilos?), mas outras, poucas, terão razão de ser e podia dar-lhes ouvidos e aproveitá-las não apenas para garantir a reeleição, mas também (porque não?) para corrigir eventuais erros governativos. Porque também comete erros. Ou não? Sim, bem sei que o partido da outra bancada também cometeu erros e, às vezes, até erros maiores. Mas guarde lá os gráficos e as estatísticas que não são para aqui chamados.  Já agora, deixe-os guardados na sua próxima participação num debate parlamentar. Vai ver que as pessoas passam a gostar mais de si se promover a discussão das questões pertinentes da actualidade durante metade do tempo, guardando a outra metade para a inevitável comparação das asneiras actuais com as asneiras passadas. Até poderia sugerir-lhe que abdicasse por completo desta segunda metade, mas talvez seja pedir demais. Sim, eles quando estavam no poder também o faziam, é verdade. Mas lá voltamos nós ao mesmo.

Não pense que só lhe ponho defeitos. Nada disso. Aprecio, por exemplo, que tenha transformado a inovação e o acesso às novas tecnologias numa espécie de grande desígnio nacional. Mas há um senão. É muito simpático distribuir computadores pelas crianças e ligar as salas de aula à banda larga, mas vivemos num país onde muita gente não sabe ler e onde mais ainda, sabendo ler, opta por não praticar. Algumas destas pessoas vivem em lugarejos perdidos no interior do país, sem estradas decentes e sem saneamento básico. Alguns, cada vez menos, felizmente, vivem sem água canalizada ou electricidade. Não seria mais racional, sem desistir do tal desígnio tecnológico (sim, chamemos-lhe “choque”), manifestar igual empenho na resolução pronta destes problemas? Porque, sem isso, parecerá que se constrói uma mansão futurista sobre alicerces de bosta bovina. E não precisarei de lhe explicar, como trasmontano que é e como engenheiro civil, que a consistência da bosta não se presta a grandes edificações. Depois também há o Magalhães, senhor primeiro-ministro. É um brinquedo simpático. E até tem uma pega, é resistente ao choque e continua a funcionar se lhe urinarem em cima. Mas daí a erigi-lo em grande produção nacional quando foi concebido, de uma ponta à outra, no estrangeiro e quando até é fabricado com designações menos náuticas noutros países, vai um grande passo. E não, não autorizo que retire a expressão “um grande passo” do seu contexto e a aplique em material promocional. Lembro-me de o ver em várias instâncias a louvar as qualidades do Magalhães e até a assegurar que os membros do seu governo o usavam para as suas necessidades informáticas. Sei que, por mais que se esforce, não é grande entendido nas tecnologias que tanto apregoa. Para o perceber, bastou-me vê-lo, certa vez, enquanto lhe mostravam um iphone com a página do congresso do seu partido no pequeno ecrã, segurar no aparelho com a mesma falta de jeito e receio com que seguraria numa mama da rainha de Inglaterra. É natural que acredite que o Magalhães é a maior invenção desde a roda. Mas isso dos seus ministros e restantes colaboradores é mesmo verdade? Que idade têm eles, afinal?

Para terminar, um último reparo. Aprecio que nunca tenha chegado ao ponto de contar os primeiros-ministros estrangeiros que trata por tu, como fez um dos seus antecessores, mas, lá porque determinado governante europeu de relevo lhe sorri, isso não quer dizer que seja seu amigalhaço. Está apenas a ser cordial. Devia percebê-lo e seguir o seu caminho. Em vez de tentar abraçá-lo quando este já se prepara para cumprimentar o ministro das finanças cipriota. Não seja peganhento, senhor primeiro-ministro. Não percebe que está a representar o país e que, quando se riem de si, também se estão a rir de nós? Porque se riem de si. Não se riem consigo. Sucede o mesmo quando se deixa filmar a falar espanhol ou quando tenta fazer discursos inflamados em inglês. A propósito, não sei bem o que se aprende na cadeira de Inglês Técnico que frequentou na sua licenciatura (não, senhor primeiro-ministro, não estou a duvidar… tenha calma), mas parece-me que não fariam parte do currículo elementos essenciais como pronúncia, conjugação de verbos ou a importância de não inventar palavras quando se desconhece o termo adequado. Se pudesse tirar um curso, mesmo que por correspondência, ficar-lhe-íamos todos muito gratos. O espanhol ficará para outra altura.

E pronto, senhor primeiro-ministro. Era tudo o que tinha para lhe dizer. Se levar em consideração estas minhas recomendações, verá que tudo lhe correrá melhor. Não digo que  lhe permitirão ficar para a posteridade como o grande primeiro-ministro que ambiciona ser. Mas, na secção dedicada à caracterização dos governantes medíocres que Portugal  teve ao longo de décadas (mais século, menos século), poderá assegurar que as duas linhas a si dedicadas serão adequadamente olvidáveis e não causarão grandes embaraços à sua descendência.

Com os melhores cumprimentos,

Renato Carreira

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11 Comentários

  1. Será que ele vai ouvir?… :)
    Gosto do teu humor sempre presente no que escreves. Sinal de inteligência, sem dúvida! E assino também.
    Gostei das remodelações cá por casa e de ter a posta de pescada mais acessível. :)
    beijokas

  2. Estou comovido…
    Só não sei se esse texto será uma boa maneira para fazer marketing das t-shirts “Odeio-te, Sócrates”
    E fiquei agora com dúvidas em quem vou votar nas próximas eleições, se acrescento o Manuel João Vieira e faço a cruz nele , se ponho Renato Carreira, ou se os dois (neste caso o voto seria anulado)

    • R. Carreira diz:

      Aproveito o ensejo para anunciar a minha candidatura às próximas eleições. Conto contigo, cidadão.

      • Podes contar também com esta cidadã, caro candidato.

      • Se o Santana Lopes , um dia chegou a ser primeiro ministro, não vejo porquê o Renato Carreira não ser um grande primeiro ministro!
        Podes mandar fazer isqueiros, canetas e aventais Vota Carreira, que eu começo a distribuir nas praças do peixe daqui da zona.

      • Carreira a presidente!!!

  3. Cátia Soraia diz:

    Parabéns, Renato.
    Gostei muito.

  4. Ó senhor primeiro-ministro, não, não pertenço a nenhum núcleo columbófilo anarquista, mas quero assinar por baixo.
    E olhe que são só duas linhas… mantenha-as assim, para ler na diagonal.
    Preze a sua prole, vá lá.

  5. António Nónimo diz:

    Foste demasiado simpático.
    Mas, assino por baixo.

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