O Lobijovem (ou: O sucesso da primeira barba depende do timing)

193232.1020.AGrande ano o de 1985. E não só porque a selecção brilhava no apuramento para o Mundial do ano seguinte e porque ninguém fazia ideia da figura muito triste que os nossos rapazes fariam pelos relvados mexicanos. Havia também um rico filme em exibição.
Além de ser um marco cinematográfico, O Lobijovem foi um momento alto da tradução portuguesa de títulos. Podia partir-se do Teen Wolf original e ter-lhe chamado outra coisa qualquer muito menos adequada. Por exemplo: Agarrem-me Este Lobo, Que Paródia de Canídeo ou mesmo Auuuuuuuuuuuuuunde Pára o Lobisomem? Mas não. Num momento de inspiração divina, o anónimo tradutor de serviço lembrou-se do neologismo “lobijovem” e o resultado do seu labor ficará na mente de uma geração inteira até aos primeiros sintomas de Alzheimer. Obrigado, onde quer que estejas.
A verdade é que não existem filmes sobre lobisomens em número suficiente. E mais raros são os que conseguem abordar uma temática tão relevante (hoje como na década de 80) de uma forma tão astuta e carregada de sentimento como o filme de Rod Daniel (génio que assinou outras fitas marcantes de inspiração canina como K-9 e Beethoven 2).
Scott é um adolescente parecido com todos os outros. Anseia por ser popular na escola e espera dar um contributo válido para melhorar os resultados da equipa de basquetebol do liceu. Além disso, descobre que é um lobisomem. Não é tão traumático como se possa pensar. Claro que a primeira transformação vista no espelho da casa de banho o deixa vagamente incomodado, mas tem o conforto de saber que o pai padece do mesmo problema e que vem de uma longa linhagem de lobisomens. Na escola, depois do choque da primeira transformação em público, ninguém parece incomodar-se com a presença de um colega que é uma criatura sobrenatural. Pelo contrário, Scott-Lobo torna-se popular como sempre quis ser e a sua equipa acumula vitórias. Além disso, consegue catrapiscar a rapariga dos seus sonhos. Perfeito.
Além de ser um filme mítico, “Lobijovem” era a alcunha de um colega de escola. Não jogava basquetebol (que todos sabíamos ser um jogo de maricas) e era medíocre no futebol, mas, tal como a personagem de Michael J. Fox, também tinha o corpo coberto de pêlo, o que lhe valia algum escárnio nos balneários. Afinal, não é comum ver um miúdo de treze anos que faz a barba todos os dias. Menos ainda se a dita barba lhe chegar quase aos olhos. Chamava-se Amílcar. Amílcar Manuel Aires Rodrigues. O nome já era suficientemente infeliz sem as iniciais soletrarem um verbo no infinitivo. Ainda por cima, um verbo relacionado com coisas de sentimento. Muita bolachada levou ele naquela cara cabeluda depois das aulas de Português. E só se perderam as que caíram no chão. Tenho para mim que, graças à violência pedagógica dos colegas, o Amílcar se tornou um homem melhor. E acredito que concordaria comigo (se o escárnio constante o tivesse deixado alfabetizar-se e pudesse ler estas palavras). Ao ponto de também educar assim os seus filhos (ou crias), presumindo que conseguiu encontrar mulher que não sentisse repulsa de praticar o coito com uma bola de cotão humana.

4 Comentários

  1. Em 85, eu conseguia suportar os filmes com o Tom Hanks.

  2. A “bola de cotão humana” é aquele apetrecho que os homens costumam ter no umbigo, mas pra grande, certo? É que essa não é nojenta, até tem cotton touch.

    P.S.: Socorro, Apaixonei-me por um Lobisomem!!!! teria dado um bom título, e original nos dias que correm ;)

  3. mais-uma-catarina diz:

    Como comentadora oficial, faz parte da coisa avisar que te ENGANASTE a escrever cineclube.
    Sendo a unica a ter reparado no erro, faz de mim a grande vencedora do desafio (quero mais um doutor bayard com aloé vera).

  4. mais-uma-catarina diz:

    Grande ano o de 1985!
    Tenho dito.

    P.S. – Estou solidária com o Sr. Amílcar, teria dado um jeitão a limpar as portadas das janelas que nem te conto.

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