Rocky IV (ou: A Guerra Fria é um prato que se serve com batata a murro)

rocky 4Outra vez 1985. (ver isto)  Foi também o ano em que escolhi o meu lado na Guerra Fria. Era uma coisa que as pessoas tinham de fazer nesse tempo. Porque, quando a Guerra Fria aquecesse finalmente, lutaríamos pelo proletariado ou pelo capital? Não haveria tempo a perder com hesitações como aquela que então me atormentava. Apelava-me a divisão da riqueza e a maior justiça social, mas desagradava-me que a escolha de refrigerantes se restringisse a um de cada sabor. Foi graças ao quarto filme da saga Rocky que consegui decidir quem eram os bons e quem eram os maus (o Obama tornou tudo mais fácil). Depois de assistir, horrorizado, à forma brutal como o soviético Ivan Drago esmurrou até à morte o jovial Apollo Creed, rival de Rocky nos primeiros dois filmes e convertido em seu compincha (estive para escrever “camarada”, mas achei que não seria adequado) e de ver como o bravo Balboa aceitou deslocar-se ao covil do urso na gélida União Soviética para vingar o amigo, ficou tudo claro. Estava de pedra e cal com o capitalismo internacional na luta contra a ameaça bolchevique. Qualquer pessoa sensível e sensata teria tomado a mesma decisão. Olhe-se para os dois protagonistas e veja-se neles a personificação perfeita dos ideais em disputa. Drago é um gigante musculado de rosto fechado. É, basicamente, uma máquina de esmurrar enfiada em calções vermelhos. Treina-se com maquinaria topo de gama  e é injectado com esteróides que lhe dão uma musculatura desleal e um olhar rancoroso que parece dizer “esta porcaria reduz-me os testículos ao tamanho de reles berlindes”. Note-se que falei em “reles berlindes”, o que exclui automaticamente a possibilidade de serem abafadores. Já Rocky é outra cantiga. O homem treina-se arduamente a trazer troncos de árvore inteiros do alto de montanhas cobertas de neve e a rachá-los com as próprias mãos. Aqui poderei estar a ser traído pela memória. É possível que haja uma serra no filme ou outro tipo de artefacto cortante, mas o que interessa é o princípio. Além disso, passando das personagens para os actores, Sylvester Stallone era já uma estrela do cinema amada em todo o mundo, enquanto Dolph Lundgren não passava de um poliglota bicampeão europeu de karaté, especialista em variadas artes marciais, com mestrado em Engenharia Química e uma bolsa para o MIT.  Isso ajudou-o? Claro que não. Ninguém o mandou defender o comunismo. Mesmo que fosse num filme. Todos deveremos ser responsabilizados pelas nossas opções. É a lei da vida. Quase consigo ouvir as vozes da discórdia a berrar que afirmar isto não é justo porque Lundgren nem sequer é russo, mas sim sueco. E daí? Estocolmo ficava muito mais perto da URSS do que a Nova Iorque natal de Stallone. Os ventos de leste que sopravam sobre a capital sueca deviam trazer aquele aroma pútrido a nacionalizações e a desfiles militares grandiosos. Um último argumento. A única vantagem de Drago sobre Rocky é a sua companheira, a estrondosa Ludmilla, interpretada pela bomba escandinava Brigitte Nielsen (a Adrian sempre foi um bocadinho insípida). Mas, na vida real, quem é que a andava a comer, quem era? Ah pois.

Uma última nota. Não vi este filme realmente em 1985, mas sim alguns anos depois. Porque a cooperativa agrária onde cresci tinha um projector Tamarov-300 que só passava filmes a preto e branco.

7 Comentários

  1. Talento crescente, que fazia crescer….

  2. António Nónimo diz:

    Para quando um crossover Rocky-Rambo?

    • R. Carreira diz:

      Para muito breve. Há só um problemazito de incompatibilidade de agenda dos dois protagonistas.

      • António Nónimo diz:

        Não deve ser assim tão complicado. Se vias o Justiceiro ainda te deves lembrar dos episódios em que o Michael Knight enfrentava o seu gémeo maligno (ou seja, o David Hasselhoof com bigode à Clark Gable).

        • R. Carreira diz:

          Muito bem lembrado. E também havia um KITT mau com luzes amarelas à frente. O KARR. (Passaram muito tempo a pensar nisto.)

  3. A família Drago nunca me enganou…

    A Brigitte Nielsen era aquela que de filme para filme enchia mais o ecrã, não era?

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