Jerónimo de Sousa: De marquês a proletário, num percurso extraordinário

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Jerónimo João José Francisco Maria Rafael Gabriel de Souza e Pum nasceu em 1947 num faustoso solar nos arredores de Lisboa, pertencente à sua família, os Souza e Pum, marqueses de Azóia e condes de Xai-Xai. Cedo começou o pequeno a revelar um comportamento pouco condizente com o sangue azul que lhe fluía nas veias. O primeiro indício foi a recusa em jogar bowling com camponeses a fazer de pinos, jogo tão popular entre os seus irmãos e primos e que animou gerações de pequenos Souzas. Dizia sentir pena dos camponeses e usava palavras como “dignidade” ou “igualdade” que, para os seus, tinham tanto significado como “zerlhebu” ou “barrafinesca”, palavras que não existiam até as inventar mesmo agora. Nem o argumento perfeitamente racional e justo de que, enquanto faziam de pinos humanos, os camponeses podiam repousar das suas árduas tarefas quotidianas nas plantações de salsa que garantiam os rendimentos milionários da família serviu para o demover da sua atitude. Aos catorze anos, depois de uma infância repleta de plenários feitos às escondidas, o jovem Jerónimo foge de casa para trabalhar como afinador de máquinas. Foi denunciado quando começou a dividir o parco salário pelos colegas em partes iguais. Só a compra da fábrica pela família e sua conversão em gaveta das meias de uma tia idosa e particularmente friorenta o fez regressar. Mas era tarde demais. Jerónimo traçara o seu próprio destino. Atingida a maioridade, teve passagem marcante pela Guerra Colonial como único elemento mentalmente são da célebre Companhia 14 dos comandos, constituída apenas por militares que poderiam ter escapado ao recrutamento com facilidade e fizeram questão de ir na mesma. Regressando à metrópole, abdicou de seis dos seus sete nomes próprios e transformou o aristocrático “de Souza e Pum” num Sousa perfeitamente operário e facilmente enquadrável no Portugal revolucionário saído de Abril de 74. Depois disso, renegou por completo o seu passado aristocrático e, vivendo como um operário, a sua vida foi mudada pela literatura deixada na casa de banho fabril num dia em que se sentiu particularmente activo a nível intestinal. Sentado no trono de cerâmica do homem comum, pegou na revista Sentinela das Testemunhas de Jeová, com uma chamativa ilustração de capa e o título “Jesus Não Tinha Dedos dos Pés”. Usou as páginas absorventes para o fim que Deus lhes destinou e viu que, por baixo, se encontrava um exemplar do Avante. Inscreveu-se no PCP no dia seguinte. Ascendeu a posição de relevo no partido e foi eleito deputado nas primeiras eleições do novo regime. Conta-se que, quando entrou no parlamento pela primeira vez, um funcionário lhe chamou doutor. Disse que não era doutor e o funcionário chamou-lhe engenheiro. Depois de explicar que também não era professor, arquitecto ou comendador, o crânio do funcionário explodiu, salpicando-lhe a cara com miolos quentes. Foi candidato às eleições presidenciais de 1996, liderando as sondagens até ser filmado a dançar como uma tainha acabada de arrancar ao rio. O número valeu-lhe a derrota e levou-o a desistir a favor de Jorge Sampaio, mas conseguiu a distinção de protagonizar o segundo momento mais castiço da campanha (a seguir à inspirada mastigação de uma fatia de bolo-rei com a boca aberta  por Cavaco Silva) e foi convidado para um festival de dança interpretativa na Eslováquia. Em 2004, substituiu Carlos Carvalhas como secretário-geral do partido, escolhendo o nome Álvaro III e sendo coroado com pompa e circunstância em cerimónia privada com a cabeleira alva do líder histórico. Voltou a candidatar-se à presidência em 2006 e, mesmo depois de frequentar aulas de dança, não conseguiu evitar a vitória de Cavaco (que aprendera a mastigar de boca fechada). Já não sonha com a ditadura do proletariado, mas, por vezes, ainda acorda de punho erguido.

8 Comentários

  1. Lourenço Almada diz:

    Nada me surpreende … o Conde de Saint-Simon, Claude-Henri de Rouvroy, foi um dos fundadores dos ideais comunistas –
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_de_Saint-Simon – e não será caso único.. E, por exemplo, quem fundou os princípios do Anarquismo eram quase todos da nobreza pelas mesmas razoes, o de querer usar os seus princípios nobres de eram educados a bem de uma sociedade melhor daquela que assistiam e condenavam fundada na burguesia materialista, tal como a de hoje.

  2. António Nónimo diz:

    Será que este elemento perdido da aristocracia também se vai apaixonar por um preto?

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