Democracia

votingA democracia foi inventada pelos antigos gregos num dia em que não tinham nada melhor para fazer. As primeiras democracias eram muito diferentes das que hoje temos. Resumidamente, as democracias da Grécia Clássica aspiravam a permitir que as cidades fossem governadas em igualdade pelos seus habitantes, desde que os mesmos não fossem mulheres, escravos, pessoas que discordassem muito das opiniões impostas pelos cidadãos de maior relevo ou gente que usasse sandálias com meias, hábito atroz que nem na Antiguidade era tolerado. Arquivada para utilização posterior durante séculos, a democracia volta a surgir com o Iluminismo, manifestando-se em 1776 na forma de governo dos recém-nascidos Estados Unidos da América. A primeira opção dos fundadores do novo país foi o governo por bola branca e bola preta enfiadas num saco de pano escuro e tiradas à sorte, mas, por uma questão de dignidade, as bolas teriam de ser fabricadas em grandes quantidades com marfim e ébano  e o custo da importação dos dois materiais era proibitivo para a economia frágil de um país a dar os primeiros passos.

Em comum com a democracia original grega, a democracia americana tinha a exclusão de mulheres e escravos. No entanto, os partidários do uso de sandálias com meias podiam votar, o que é absolutamente asqueroso. Existem três tipos básicos de democracia. A saber: 1) A democracia que não o é, um sistema cujos governantes gostam de apregoar os seus méritos democráticos inexistentes, chegando mesmo a incluir palavras derivadas de democracia na designação oficial dos países que governam e esperando que isso chegue para convencer os cidadãos e a comunidade internacional. Não chega. 2) A democracia musculada, na qual os benefícios que os governantes supostamente perdem na transição das ditaduras continuam a existir, mas manifestando-se apenas quando todos estão a olhar para o lado. 3) E as democracias modernas, geridas por centros de sondagem e jornalistas, podendo estes delegar ocasionalmente algum poder nos políticos.

Portugal nem sempre foi a democracia perfeita que hoje é. Foi só em 1974 que os portugueses passaram a viver num sistema democrático e as mudanças foram radicais. Deixou de ser necessário tirar uma licença para possuir um isqueiro e beber uma Coca-Cola deixou de exigir dispendiosas viagens ao estrangeiro. Além disso, a DGS ditatorial (Direcçao Geral de Segurança) cedeu lugar à DGS democrática (Direcção-Geral da Saúde). Os programas de vacinação são/eram comuns às duas, mas, no caso da primeira, tratava-se de vacinas contra o comunismo e a subversão e eram aplicadas a golpes de matraca. Passou-se para as vacinas contra a tuberculose, a difteria e o sarampo, aplicadas com agulhas dolorosas. Verifica-se assim que, no Portugal democrático, deixou de ser necessário um organismo estatal específico para mandar calar quem não aprecia o governo (era desumano) e essa responsabilidade passou a ser partilhada.

O funcionamento da democracia é complexo e envolve várias fases. Começa por haver uma apresentação de candidaturas e a recusa de uma boa parte das que são demasiado ridículas (escapam algumas para percebermos o que estamos a perder). Depois, há uma campanha eleitoral, destinada a assegurar o reabastecimento periódico dos stocks de sacos de plástico, esferográficas, aventais, bonés e crachás. Segue-se a eleição propriamente dita, sem grande interesse, e o posterior anúncio dos resultados. A seguir, contam-se os votos, confirmam-se os resultados anunciados (ou não) e fazem-se discursos de vitória. É costume haver vencedores e vencidos, mas, no caso específico português, considera-se que um partido apenas perde as eleições se obtiver número de votos negativo.

Acerca da democracia, Winston Churchill, um famoso democrata, disse um dia que era o pior sistema de todos, com a excepção dos restantes que foram testados. Os especialistas concordam que não se referia ao governo por bolas coloridas retiradas de sacos, que volta a ganhar popularidade, considerando-se agora que serão necessárias bolas de outras cores para responder às necessidades do mundo em que vivemos.

Por vezes, a democracia pode asfixiar, mas não é nada que não se cure com papas de linhaça, chá de tília e um murro no focinho.

3 Comentários

  1. este ano vou votar na nesquik e na empresa de materiais de construção Abel Carrasquinho, por serem os únicos a oferecerem-me réguas, canetas e calendários com raparigas mal vestidas.
    Mas sou facilmente corruptível, quem me oferecer mais , terá o meu voto.

  2. E para “extrair” as bolinhas: a saudosa amiga Olga ou a Serenella Andrade?

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