Paulo Portas: Com arrojo e pundonor, se constrói um político sabedor

Paulo Portas-Debate QuinzenalPaulo de Sacadura Cabral Portas nasceu em Lisboa a tempo de ver acabar o Verão de 1962, no seio de uma família marcada por uma inultrapassável clivagem de convicções. Tudo porque a mãe era partidária de comer os pêssegos com casca e o pai apenas os comia descascados, não podendo nem um nem o outro suportar que fossem comidos de outra forma em sua presença, o que levava os Portas a comerem em mesas separadas sempre que havia fruta na mesa. Foi precisamente a fruta a fazer germinar a rivalidade feroz que, desde muito cedo, existiu entre Paulo e o seu irmão mais velho, Miguel. A rivalidade fraterna tinha tradições no clã. Um tio-avô célebre de Paulo, Artur de Sacadura Cabral, o companheiro de Gago Coutinho na sua épica travessia aérea do Atlântico Sul em 1922, tinha um irmão mais velho, Maurício, que sempre se mostrou contrário a viagens e explorações e acreditava que cada um devia ficar onde estava, sem se afastar mais do que o necessário para comprar pão ou para mandar pôr meias-solas num par de sapatos confortável.

Influenciado pelo antepassado ilustre, o jovem Paulo decidiu-se a ser também um herói explorador e rumou à selva amazónica onde, depois de uma viagem cheia de perigos, conseguiu alcançar um vale lendário nunca antes visitado pelo homem branco. Aí, entre saguis e anacondas, encontrou uma tribo de selvagens de orelhas gigantescas, os tafambicos, que então se encontravam em conflito aguerrido com os seus rivais de sempre, os pérfidos xererés de joelhos suados. Não querendo intrometer-se no delicado equilíbrio de forças, Paulo decidiu voltar ao seu país, depois de negociar com o chefe dos xererés a libertação de um xamã orelhudo dos tafambicos prestes a ser sacrificado ao seu deus, um espírito cruel que a sua mente obscurantista baptizou com o nome “Sónia Pires”. Grato por escapar às garras de Sónia Pires, o xamã tafambico, converteu-se ao cristianismo do seu salvador e adoptou a sua língua e costumes, passando a vestir roupas e a responder pelo nome Miguel Esteves Cardoso, inventado num repente. A dupla tornou-se inseparável e, em 1988, decidiram fundar um jornal, a que chamaram “O Independente”.

Nos primeiros anos, de fraco sucesso, o novo periódico dedicou-se a comentar a remexida actualidade filatélica nacional, mas, depois de protestos dos accionistas, optou-se pela conversão ao jornalismo generalista, com especial incidência em assuntos polémicos e contrários ao governo social-democrata de Cavaco Silva e à sua marquise. Gradualmente, troca o jornalismo pela política e aproxima-se do CDS e do seu líder, Manuel Monteiro, protagonizando com ele uma renovação partidária que passou pela junção de duas letras e um hífen à sigla (CDS-PP) e por uma pintura da sede do partido em aprazíveis tons de salmão. Em 1998, depois de uma visita inspiradora ao pavilhão da Zâmbia na exposição mundial de Lisboa, onde pôde apreciar uma colecção completa das espécies de barata que existem naquele país africano, tomou conta do partido depois de Manuel Monteiro bater com a porta e entalar um dedo, derrotando Maria José Nogueira Pinto nas eleições internas por três dentadas a duas.

Coligou o CDS com o PSD, unindo os partidos com uma cola acrílica poderosa quando não estava ninguém a ver, e chegou ao governo em 2002, assumindo as pastas da Defesa e dos Assuntos do Mar (Dos Assuntos do Mar? Sim, dos Assuntos do Mar.) A prestação governativa termina com a queda do governo de Santana Lopes em 2004 e Portas demite-se da liderança do partido para ir à casa de banho, sendo substituído durante os oito minutos da sua ausência por um prestável Ribeiro e Castro. Actualmente, continua o seu percurso político e vai sonhando com um governo só do CDS, que mandasse forrar o país inteiro com papel de parede do bom. Gosta de ir ao cinema incógnito e ainda sente palpitações quando lhe falam na Universidade Moderna.

9 Comentários

  1. Esquecimento lamentável: OS SUBMARINOS que vamos pagar nos próximos anos…

  2. António Nónimo diz:

    Isso significa peidar-se com honra?

  3. Este título dava um excelente lema de campanha para Paulo Portas!

    (Mas pouco democrático: muitos eleitores questionar-se-iam “pundoquê???”)

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