Francisco Louçã: Atrás de um radical venenoso, pode esconder-se um devoto religioso

PORTUGAL FRANCISCO LOUÇÃEm Novembro de 1956, nascia em Lisboa uma criança especial. Quem admirasse aquele anjinho louro no seu berço, não veria nele qualquer traço que o diferenciasse de outro rebento. E com razão. A diferença teria de ser procurada noutra parte. Porque o pequeno Francisco Louçã nascia da improvável união entre o bispo de Aveiro e o arcebispo de Évora, numa noite fria em que o fervor de uma reza conjunta do terço acabou por conduzir a algo mais. Embaraçada pelo sucedido (sendo este o verdadeiro motivo para a oposição da Igreja às relações homossexuais, por saber quais poderão ser as consequências), a hierarquia eclesiástica retirou a criança aos seus pais e entregou-a aos cuidados das freiras Socorristas de São Rabiló de Genebra, ordem religiosa fundada por decreto papal de Gregório XVI, redigido por brincadeira num Carnaval e nunca anulado por esquecimento.

O pequeno Francisco (ou “Chico”, como então lhe chamavam, havendo uma ou duas irmãs mais idosas que não hesitavam em chamar-lhe “Armando” ou “Felismina”) foi educado num cumprimento zeloso dos preceitos da fé católica, manifestando desde muito cedo uma devoção especial ao Espírito Santo e um gosto inequívoco por todo o ritual da eucaristia. Não surpreendeu ninguém quando, poucos anos mais tarde, declarou a sua intenção de enveredar pelo sacerdócio (apenas a irmã senil que lhe chamava “Felismina” protestou, acreditando que as mulheres não podiam celebrar missa por serem “umas grandessíssimas porcas”). A sua passagem pelo seminário fez-se com velocidade atordoante e Chico chegou ao último ano com um conhecimento ímpar de todas as matérias leccionadas, superando mesmo os seus mestres, e conseguindo espantar quem o rodeava com números como a declamação a pedido de qualquer versículo da Bíblia em grego, latim, português ou num dialecto pouco conhecido falado pelos ilhéus de Vanuatu apenas quando bebem demais.

Mas nem tudo era perfeito. De Roma, veio ordem para travar a formação sacerdotal do jovem. Considerou-se que a sua devoção era tamanha que poderia levantar suspeitas de que um rapaz tão beato só poderia ter sido gerado por dois bispos e o escândalo acabaria por abalar as fundações milenares da Igreja de Roma. O papa ordenou que Francisco fosse imediatamente expulso do seminário por falsos pretextos e entregue a uma família laica, que se encarregaria de lhe esbater o fervor religioso. Para esse fim, recorreu-se às cinco filhas  adolescentes do casal, sendo o recém-chegado instalado no quarto de dormir onde estas passaram a partilhar consigo a única cama. Todas as noites, enquanto Francisco tentava fazer as suas orações, as raparigas passeavam-se diante dele em graus variados de nudez, assumindo posturas sugestivas e tentando aliciá-lo com palavras. Sem efeito. Conseguiram apenas que as orações passassem a incluir uma palavra adicional pela salvação das suas almas pecadoras.

Parecia não haver solução. A literatura proibida pela ditadura, a única que lhe era permitida, era lida por obrigação, mas sem deixar marcas. Às escondidas, o rapaz começou a ler biografias de santos e relatos inspiradores de missionários, que recortava de jornais e revistas, para libertar a mente das ideias que era forçado a deglutir em tratados marxistas e romances libertinos. Os seus tutores perdiam a esperança e não lhes restava forma de afastar Francisco de um caminho que insistia em traçar e que acabaria por conduzi-lo à inevitável santidade.

Foi então que a revolução de Abril de 74 veio abrir novas possibilidades e renovar a esperança de ocultação do escândalo. Francisco foi exposto desde o início ao clima esquerdista que tomou de assalto vários sectores da sociedade portuguesa, acabando por ser inscrito à força na Liga Comunista Internacionalista, organização política constituída por gente convicta de que o nome folclórico disfarçaria o facto de não fazerem ideia da corrente política que, supostamente, integrariam. De início, o jovem resistiu e tinha de ser arrastado até aos comícios (que, na realidade, eram serões dançantes disfarçados), mas depressa mudou de ideias. Os ideais comunistas professados pelos seus camaradas da LCI (em aparência) continuavam a provocar-lhe nojo, mas viu na provação uma oportunidade para evangelizar os ímpios e para sofrer como Cristo pela religião.

Os seus esforços foram em vão. A LCI estava demasiado ocupada com os seus serões dançantes e, nas horas de pés mais doridos, tentava perceber o que significava, afinal, o tal “trotskismo”, que tinham escolhido seguir porque o nome lhes pareceu engraçado. Em 1978, enquanto Francisco fazia um inspirado sermão sobre o poder da oração, a LCI unia-se ao Partido Revolucionário dos Trabalhadores, outro movimento que correra sem sucesso enciclopédias e dicionários políticos à procura de uma definição compreensível do trotskismo, fundando ambos o Partido Socialista Revolucionário e unindo esforços para sustentar as aparências até poderem, finalmente, professar uma ideologia sem fingimentos.

Os esforços evangelizadores de Francisco começaram a ser confundidos com dedicação política e a cúpula do PSR acabou por escolhê-lo como líder, acreditando que seria o único militante que sabia do que falava.  A sua reputação de revolucionário cresceu de tal forma que, em 1999, o partido atraiu outras forças políticas à procura de quem explicasse as suas ideologias crípticas, unindo-se num Bloco de Esquerda fadado para o sucesso.  Louçã acabou por ser eleito deputado e as suas palavras de fé continuaram a ser mal interpretadas ao ponto de, sempre que refere a necessidade de dedicação integral a Cristo, se lhe atribuir a defesa dos direitos dos homossexuais ou o incentivo à legalização da marijuana. Mesmo assim, recusa-se a desistir e mantém a fé. Ocasionalmente, enquanto caminha à frente de um grupo de convicções radicais, de bandeira vermelha ao ombro e distribuindo panfletos sobre os males do milho transgénico, deixa correr uma lágrima e solta um desolado: “Deus me valha.”

5 Comentários

  1. ahahaha já entendi a essência deste blog… mais na lista negra xD

  2. lol lol
    As coisas que tu sabes…até fico aqui paralisada de espanto! :)
    beijinhos (esses) nada espantados.

  3. Sempre me pareceu que haveria algo estranho com este Sr., mas apontava mais para ele ser um híbrido de extra-terrestre com uma garrafa de Vodka.
    Depois de ler esta história abandonei a minha teoria, que até me parece um pouco lunática.

  4. Fiz mais uma investida.
    Continuo em choque.

    Valha-nos Deus e as freiras Socorristas de São Rabiló de Genebra.

  5. Ainda estou em choque…

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