Um dia a escutar Cavaco Silva

cavaco_silva[1]A Inépcia é o único órgão de comunicação em condições de esclarecer a dúvida que assola os portugueses em véspera de eleições. Os muitos que se esforçavam por perceber se é mesmo verdade que o primeiro-ministro tenha usado os serviços secretos para espiar o Presidente da República ou se, afinal, tudo não passará de um delírio paranóico de algum colaborador próximo de Cavaco Silva ou do próprio Presidente verão esclarecida a sua dúvida. Cá vai disto: Sim, é verdade. José Sócrates ordenou que o gabinete do Presidente da República fosse colocado sob escuta durante uma semana, mas acabou por cancelar a ordem depois de analisar os resultados, por motivos desconhecidos (mas fáceis de adivinhar). Basta ler a transcrição dos telefonemas feitos por Cavaco durante um dia de trabalho presidencial, facultada por um agente do SIS em troca de um favorzinho de natureza demasiado traumática para referir. Tudo para informar o público (as pessoas em geral e não o jornal do mesmo nome; esse terá fontes de informação mais sumarentas).

9:00

(Comunicação entre o gabinete do Presidente e a sua secretária)

Cavaco Silva: – Mande trazer-me o pequeno-almoço, por favor.

Secretária: – Com certeza, senhor Presidente. O costume?

Cavaco Silva: – Hmm… As duas torradas frias e sem manteiga e o copo de Água das Pedras com uma casca de limão, mas não a malga de Corn Flakes sem leite.  A minha mulher convenceu-me a começar uma dieta. Parece que os cereais têm muita gordura.

S: – Como entender, senhor Presidente. Deseja que traga também os jornais do dia?

CS: – Deixe estar. Ponha-os de parte juntamente com os outros. Leio-os no Natal.

S: – Muito bem, senhor Presidente. É tudo?

CS: – Por agora, sim. Obrigado, Marques Mendes.

S: – Como disse?

CS: – Disse que era tudo. Obrigado.

11:27

(Chamada de Cavaco Silva para Fernando Lima, responsável pela assessoria para a comunicação social)

Cavaco Silva:  – Está? Fernando?

Fernando Lima: – Senhor Presidente? Em que posso ser-lhe útil?

CS: – Estou a ligar para falarmos daquele assunto.

FL: – (…) Senhor Presidente, é melhor não o fazermos por telefone. É pouco seguro. Tínhamos combinado manter o contacto por email. O email é muito mais seguro. Ninguém consegue violar a segurança blindada de uma rede informática.

CS: – Pois sim. Mas sabe que não me sinto muito à vontade com estas tecnologias modernas. Até as calculadoras me deixam apreensivo.

FL: – Peço-lhe que faça um esforço, senhor Presidente. Se isto se soubesse, seria complicado. Ainda por cima, com as eleições tão próximas. Escreva-me para a minha morada de correio electrónico.

CS: – Se tiver mesmo de ser. Muito bem. Até já.

FL: – Fico a aguardar, senhor Presidente.

11:29

(idem)

Cavaco Silva: – Fernando? Sou eu outra vez.

Fernando Lima: – Há algum problema, senhor Presidente?

CS: – Tenho uma dúvida a respeito da sua morada de correio electrónico.

FL: – Queira dizer, senhor Presidente.

CS: – Ainda mora em Campo de Ourique, não é?

FL: – Senhor Presidente, a morada de correio electrónico é aquela que tem a arroba.

CS: – (…)

FL: – O A com rabinho.

CS: – Ah, claro. Vou então enviar o email. Obrigado.

FL: – Disponha sempre.

11:35

(Comunicação entre o gabinete do Presidente e a sua secretária)

Secretária: – Sim, senhor Presidente?

Cavaco Silva: – Ó Dias Loureiro, chame alguém da informática porque o meu computador está outra vez com problemas.

S: – Que tipo de problemas?

CS: – Estava a preparar-me para escrever um email e, de repente, o ecrã ficou cheio de peixes. Não sei de onde vieram.

S: – Peixes?

CS: – Sim. Peixes tropicais. Será grave?

S: – Já tentou mover o rato?

CS: – Também há um rato? O palácio está a precisar de uma desinfestação. Edifícios com uma certa idade, sabe?

S: – Aquele pedaço de plástico ligado ao computador por cima do tapete de borracha com a cara do Mário Soares.

CS: – Desapareceram. Cancele a chamada do técnico, mas aproveite para marcar a tal desinfestação, Durão Barroso. E diga ao Fernando Lima para passar por cá mais tarde.

S: – Com certeza, senhor Presidente.

14:21

(Chamada de Maria Cavaco Silva)

Cavaco Silva: – Está?

Maria Cavaco Silva: – Aníbal?

CS: – Ah. És tu.

MCS: – Estou a pensar alcatifar a casa de banho. A decoradora diz-me que é má ideia porque a alcatifa não se dá bem com a água, mas eu pu-la na ordem. Achas que fica melhor alcatifa azul ou salmão? E quanto ao piaçaba? Não há maneira de contornar a proibição de importar marfim? O catálogo também traz uns de platina com rubis muito engraçados. Com cerdas de porco selvagem guatemalteco. Muito raro. E outra coisa…

CS: – Está? Maria?… Não te ouço bem. Acho que estou a ficar sem rede.

MCS: – Sem rede? Mas eu estou a ligar-te para o fixo. Ó Aníbal, que conversa é ess…

16:42

(Chamada do gabinete presidencial para Paulo Portas, com a ocultação de número activada)

Paulo Portas: – Sim?

Cavaco Silva: (com voz nasal) – Paulinho?

PP: – Quem fala?

CS: – Paulinhoooooooooooooooo?

PP: – Está a falar com Paulo Portas, sim. O que deseja?

CS: – Paulinhoooooooooooooooooooooooooo? Cu-cu.

PP: – Não tenho tempo nem paciência para brincadeiras de mau gosto.

CS: – Ai não? Cu-cu. Bilu bilu. O Paulinho não quer brincar? (risos)

PP: – Ouça, eu sei muito bem quem fala. Se continuar com esta infantilidade, juro que mando apagá-lo de vez dos registos do partido. Espero que leve a ameaça a sério, Freitas!

(fim abrupto da chamada)

17:08

(Telefonema do gabinete do primeiro-ministro para o gabinete presidencial)

Cavaco Silva: – Está?

José Sócrates: – Senhor Presidente, como tem passado?

CS: – Quem fala?

JS: – O primeiro-ministro.

CS: – Que disparate. O primeiro-ministro sou eu.

JS: – Não, senhor Presidente. O senhor Presidente é o Presidente da República.

CS: – (…) Tem razão. Que posso fazer por si?

JS: – Nada de mais. Estava só a ligar para saber se estava tudo bem.

CS: – Há algum motivo para não estar?

JS: – Claro que não. Um dois… experiência. Um dois… Sssom… Sssom…

CS: – Como?

JS: – Não é nada. Estava a pensar alto. Sendo assim, não lhe tomo mais tempo. Ah. Já agora. Vou jantar com a Fernanda amanhã e não me posso esquecer de lhe levar um ramo de flores.

CS: – Porque me está a dizer isso a mim?

JS: – É para me lembrar quando ler a transcrição. Boa tarde, senhor Presidente.

CS: – Boa tarde.

17:21

(Chamada de Cavaco Silva para o atendedor automático de Fernando Lima)

CS: – Olá, Fernando. Sou eu outra vez. Temos de falar com urgência acerca daquele assunto que referi. Ando com um pressentimento de que me andam a espiar. Pode não ter fundamento, mas acho que devíamos debater a possibilidade. Ligue-me logo que possa.

(Última gravação do dia)

4 Comentários

  1. Do que vocês não sabem é da câmara que foi encastrada na caixa da telepizza (no ponto do i). Nem imaginam quem andou a limpar o palácio de Belém.

  2. O que é assustador é que os diálogos do Sr. Presidente não se afastam muito deste registo. Boliqueime no seu melhor!

  3. E eu a pensar que o portas andava obsecado era com o Manuel Monteiro

  4. Fiquei a matutar no favorzinho de natureza traumática…

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