Os resultados das autarquias mais apetitosas do país para quem não quer esperar pelas eleições

Ficha Técnica:

Previsões obtidas com recurso às mais avançadas técnicas de divinação. Os adivinhos do Centro de Futurologia da Inépcia vestiram os seus andrajos mais místicos e sentaram-se em redor de uma salva de prata benzida contendo porções do intestino delgado de Luís Filipe Menezes, enquanto moviam galinhas pretas em padrões duplicando a órbita dos principais corpos celestes e entoavam o tema musical da série de animação clássica “As Aventuras de Tom Sawyer”.

Na realização deste processo, foi salvaguardada a integridade física de todas as galinhas.

(Margem de erro entre zero e cem por cento.)

Lisboa

LSBPedro Santana Lopes volta a ocupar o cargo que abandonou para iniciar uma prestação como primeiro-ministro que durou aproximadamente oito minutos e trinta e sete segundos (cinco minutos a mais do que deveria ter durado). De imediato, implementa o seu grande plano para a capital: empregar todas as quarentonas e cinquentonas da classe alta residentes na cidade e nos seus arredores que tenham bronzeados de solário e cabelos tingidos de louro. A segunda medida é de igual relevância. Frank Gehry, o célebre arquitecto, regressa a Lisboa e assina contrato para projectar um complexo que, em simultâneo, substitua a Feira Popular e o Parque Mayer e cumpra ainda as funções de túnel rodoviário, casino, salão de chá e estádio para realização de mundialitos de futebol de praia. O projecto é concluído em tempo recorde e o edifício é instalado nos terrenos do antigo Parque Eduardo VII, com a construção a ser acompanhada de perto pelo autarca. Um ano depois, o complexo de linhas ondulantes revestido a painéis de platina e decorado com centenas de palmeiras em plástico puro, está pronto a inaugurar e, só nesse momento, se nota a falta de Santana Lopes. Um gritinho abafado revela a verdade trágica. Por ser um visionário, Frank Gehry abdicou de incluir portas e janelas e o presidente da Câmara ficou preso no interior durante uma visita às obras, perdendo-se nas longas galerias quando se afastou da comitiva para verter águas. O seu sucessor inaugura o “Complexo Decorativo Pedro Santana Lopes” e negoceia a venda do Parque das Nações a um consórcio chinês para pagar os mil euros por cada dois minutos de trabalho cobrados por Gehry. Alguns meses depois, os gritos deixam de se ouvir.

Porto

PRTRui Rio é reeleito com uma maioria confortável. Os seus apoiantes rejubilam e os seus detractores temem que a cidade seja arrasada para construir um monumental circuito de corridas de automóveis clássicos que sirva apenas para cimentar a posição da Invicta no competitivo meio das provas de velocidade para ferro-velho. Receia-se ainda que a Torre dos Clérigos seja permanentemente coberta com uma grande garrafa de Super Bock insuflável, para deixar bem claro o amor do edil pelos monumentos históricos portuenses. Do outro lado da barricada, um dos apoiantes mais entusiastas de Rio é o encenador Filipe La Féria, que estreia uma nova revista em homenagem ao presidente da Câmara reeleito. Na estreia de “Rui Rio Douro, Tu Tens Coração d’Ouro”, dias depois das eleições, Rio é visto a sair apressadamente do Teatro Rivoli, depois de Carlos Quintas, interpretando-o a ele próprio, e Anabela, como Maria Francesinha Tripeira da Ribeira, iniciarem uma rapsódia musical com excertos das suas intervenções públicas. Testemunhas referem que o autarca cobria a boca com a mão, como se estivesse prestes a vomitar. Momentos depois, um avião da Red Bull Air Race levanta voo de um hangar secreto nos paços do concelho e desaparece nos ares. Rio não volta a ser visto. O cargo transita para Rui Sá, da CDU, o terceiro candidato mais votado, já que a segunda, Elisa Ferreira do PS, regressou ao Parlamento Europeu antes de os votos estarem todos contados.

Felgueiras

FLG1

Fátima Homónima vence com tranquilidade mais um acto eleitoral depois da morte inesperada dos seus principais opositores, vitimados por acidentes inexplicavelmente violentos. No discurso de vitória, a vencedora apresenta-se diante dos eleitores com as mãos, a roupa e a boca manchadas de sangue e volta a clamar inocência de todas as acusações que lhe foram feitas e que possam vir a ser feitas no futuro. O público presente entra num frenesim místico incontrolável e há roupas rasgadas, cabelos puxados, olhos arrancados à unhada e toda a sorte de actos sexuais contranatura dignos de um festim pagão. A autarca vai agradecendo com sorrisos e gestos vitoriosos, enquanto lança mãos-cheias de notas de elevado valor sobre os seus apoiantes, retirando-as de um saco que, por acaso, não é azul, mas sim amarelo.

Oeiras

Isaltino Morais vive um momento agridoce na sua longuíssima carreira política. Por um lado, a sua candidatura independente sai novamente vencedora, mas, pouco tempo após as eleições, vê rejeitado o recurso da  condenação a prisão efectiva por corrupção, branqueamento de capitais, fraude e abuso de poder. No acórdão do tribunal, o magistrado que avaliou o recurso aplica a cláusula “Deixa-te de Merdas”, prevista pelo artigo 49º, pontos 3 a 12, de um diploma legal perdido no fundo de uma gaveta e encontrado por mero acaso, que o proíbe de interpor novos recursos e determina a sua prisão imediata.  Na prisão, acaba por esquecer a política e descobre uma paixão pelos lavores, tornando-se um bordador de primeira. O célebre sobrinho taxista nunca o visita, por se encontrar a residir numa ilha privada no Pacífico Sul.

Viseu

Fernando Ruas, do PSD, é detido em plena celebração de mais uma vitória eleitoral numa aparatosa operação da CIA, envolvendo helicópteros invisíveis ao radar, armas de raios laser, ciborgues e dois texugos treinados para interpretar os sonetos de Camões. Vendo-se rodeado e percebendo não ter saída possível, o autarca rende-se e, passando a falar um árabe fluente, admite ser Saddam Hussein, o antigo ditador iraquiano, que foi construindo cuidadosamente a identidade de “Fernando Ruas” ao longo das décadas em viagens secretas a Portugal para sobreviver a uma eventual deposição. Confessou ainda ter acreditado estar seguro depois da execução em 2003 do mais convincente dos seus muitos sósias. Ruas/Saddam é levado para o Iraque e condenado à morte após breve julgamento. Como último desejo, é-lhe permitido inaugurar uma derradeira rotunda no pátio da prisão, tendo ao centro uma encantadora fonte luminosa e um monumento à milenar arte do fabrico de palmilhas.

Gondomar

Para comemorar a reeleição, Valentim Loureiro decide organizar a maior distribuição de electrodomésticos na história da humanidade e assim colocar o nome de Gondomar no Livro Guinness dos Recordes. Infelizmente, não foi tida em conta a avidez dos munícipes pelos modelos mais recentes de torradeira, microondas e ferro de engomar e a multidão enlouquecida pela cobiça avança sobre o generoso autarca, arrancando os electrodomésticos da grande pilha ao centro da praça principal de Gondomar e esmagando o antigo presidente do Boavista, da Liga de Clubes e cônsul honorário da Guiné-Bissau sob milhares de pés. Na autópsia, viria a descobrir-se que o major era hermafrodita.

8 Comentários

  1. António Nónimo diz:

    Isto está mesmo tudo na casa do Sr. Karalho. Está sim sr.

  2. Lamentavelmente, falta sempre alguem: e o mítico Avelino Ferreira Torres, pá?

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