Dossier África do Sul 2010: As cinco alcunhas e os quatro cenários possíveis

bosnia-portugal-2009Como era expectável para os adeptos que começaram a acompanhar a selecção nacional nos últimos dez anos e continuando a surpreender quem se habituou durante décadas a sofrer em cada fase de apuramento por um inevitável “quase”, a equipa de todos nós* qualifica-se mais uma vez para um Mundial de futebol, conseguindo o pleno das competições internacionais dos últimos dez anos. Os “quases” do apuramento foram substituídos por muito mais ambiciosos “quases” em fases finais, com os nossos rapazes a serem (sempre) injustamente eliminados quando estavam muito próximos de conquistar a merecida taça. Mesmo quando ficaram pela fase de grupos. Porque a proximidade está no coração e não na razão. Sábias palavras de Confúcio. Ou de outro chinês qualquer.

(* Menos do Sr. Rui José de Silva Machado, residente em São Pedro de Moel, que enviou um email cordato a solicitar ser deixado de fora destas trapalhadas até porque sempre apoiou a selecção da Costa Rica por tradição familiar: já o seu pai era mete-nojo.)

Agora que já cravámos firmemente a nossa lança em África, podemos começar a conjecturar. Comecemos pelas alcunhas. É tradição atribuir-se uma alcunha à equipa nacional para cada competição em que participa e 2010 não será excepção. É verdade que era muito mais fácil ser original quando Portugal ia a um Mundial ou a um Europeu com intervalos de vinte anos, conseguindo-se designações inspiradoras como “Magriços”, “Patrícios” ou “Infantes”. Com a vulgarização, veio a decadência. Culminando nesse momento negro da imaginação lusa que foi chamar à selecção que “brilhou” no Mundial de 2002: “Tugas”. A Inépcia sabe que a Federação Portuguesa de Futebol tem já cinco alcunhas em estudo e que sairá deste lote o nome que todos usaremos com carinho para referir os nossos bravos rapazes. A saber:

1 – Os Falhiços

Homenagem aos saudosos Magriços de Eusébio, Torres e companhia no Mundial de 66, mas sem esquecer que o valor da equipa actual não se compara ao de então e aceitando que outro “quase” já será muito bom.

2 – Os Virgens

A passagem de Scolari pela selecção deixou marcas. Sobretudo marcas de fanatismo religioso. Nem durante o Estado Novo houve quem tentasse juntar Fátima ao Futebol (o Fado ficava como suplente no banco) e foi preciso chegar ao século XXI para a fronteira entre desporto e religião se esbater, ao ponto de as Nossas Senhoras de Caravaggio, de Fátima ou da Brandoa terem direito a tanto protagonismo mediático como os jogadores. Esta alcunha é, ao mesmo tempo, uma alusão ao fenómeno e um pedido de intervenção divina.

3 – Os Cristianoronaldos

De selecção de muitas estrelas, Portugal passou a ser uma selecção de estrela única. Como poucos fora do país conhecerão os restantes jogadores, mais vale facilitar-lhes a vida.

4 – Os Raulmeireles

Esta alcunha foi acrescentada à lista por um dos jogadores ao saber da anterior, mas a FPF desconhece qual terá sido.

5 – Os Únicos

Não tanto pelo seu talento, mas por serem realmente os únicos jogadores que temos e terem de servir, para o bem e para o mal. Figo, Rui Costa e Abel Xavier, onde estão vocês?

Quanto ao que acontecerá durante a competição propriamente dita, há quatro cenários possíveis. Havia um quinto, mas foi deixado ao sol e acabou por ficar demasiado pegajoso.

Cenário 1:

Grupo: África do Sul, Portugal, Coreia do Norte e Chile

Anunciado como repetição de um clássico, o Portugal x Coreia do Norte teve diferenças e semelhanças em relação ao mesmo jogo no Inglaterra 66. Desta vez, Portugal perde, mas marcam-se de igual forma oito golos (todos para os norte-coreanos). Segue-se um empate com o Chile e nova derrota com os anfitriões, o que termina a competição para os nossos. África aprecia ver os portugueses a perder e a selecção deprimida inicia uma digressão pelo continente, perdendo com outras equipas africanas, mas dando grande contributo para melhorar a auto-estima africana através da humilhação constante de um dos pioneiros do colonialismo europeu e lançando, finalmente, os estados africanos na senda do progresso. Na final, a Coreia do Norte derrota o Brasil por 3-0 e, enquanto se fala em doping (levantou suspeitas o facto de a selecção oriental ter uma média de alturas rondando os três metros e meio e a  semelhança de alguns jogadores com leopardos bípedes), as comemorações do título em Pyongyang dão para o torto quando o botão que activava o fogo-de-artifício é confundido com o gatilho do arsenal nuclear. O mundo termina vinte minutos depois.

Cenário 2:

Grupo: Brasil, Portugal, Honduras e Argélia

Depois de vencer o Brasil por 2-1 no jogo inaugural do grupo (os jogadores brasileiros mostraram-se desconcentrados e não pararam de passar a bola a Deco, Pepe e Liedson; alguns foram completamente anulados pelo paradoxo de ver alguém com a aparência tropical de Bruno Alves exprimir-se com uma perfeita pronúncia portuense), Portugal vence a Argélia com um penalty apontado por Simão Sabrosa e o empate a um golo com as Honduras é suficiente para assegurar passagem à fase seguinte. O adversário que calha em sorte é a Inglaterra. A história volta a repetir-se e, após partida muito emotiva, é necessário recorrer ao desempate por pontapés da marca de grande penalidade. Subitamente, o guarda-redes Eduardo começa a falar com uma voz muito fininha, descalça as luvas e posiciona-se entre postes com olhar desvairado. No banco, percebe-se que está possuído pelo espírito de Ricardo, mesmo que este não esteja tecnicamente morto. Eduardo não defende um único penalty e a Inglaterra obtém a sua vingança pelos desgostos passados. Enquanto os jogadores nacionais choram a eliminação, Eduardo é visto a menear-se pelo relvado, possivelmente possuído pelo espírito de Luciana Abreu.

Cenário 3:

Grupo: Argentina, Portugal, Nova Zelândia e Paraguai

Antes do primeiro jogo, Carlos Queiroz incompatibiliza-se com a organização do torneio por esta se recusar a reconhecê-lo como um dos dois únicos treinadores negros presentes no primeiro Mundial africano, a par do seleccionador nigeriano. Demite-se, explicando o gesto pela ofensa à sua naturalidade moçambicana e ao bronzeado que levou tantos anos a conseguir e, numa operação relâmpago, a FPF assegura os serviços de Luiz Felipe Scolari por acordo com o seu clube, o Bunyodkor do Uzbequistão. No entanto, Gilberto Madail não leu as letras miúdas do contrato, ignorando a cláusula que estipulava a cedência à selecção uzbeque da vaga portuguesa no Mundial. Os portugueses voltam para casa e Scolari leva o Uzbequistão até à final, perdendo por 1-0 com a Grécia.

Cenário 4:

Grupo: França, Portugal, México e Camarões

Os portugueses apresentam-se no relvado do Coca-Cola Park de Joanesburgo com grande confiança numa vitória frente aos seus primeiros adversários na competição, a aguerrida selecção camaronesa. Quando todos esperavam o apito inicial, o árbitro e os seus assistentes, bem como os jogadores e equipa técnica dos Camarões começam a bater palmas, de imediato acompanhados por todos o público não português presente no estádio, que aplaude de pé. Perante o assombro dos portugueses, Michel Platini, o presidente da FIFA, entra em campo trazendo nos braços o troféu de campeão mundial e, após um abraço caloroso a Gilberto Madail entrega-lhe a taça, explicando ao mundo que o presente Mundial não passou de uma colossal festa surpresa para premiar a equipa das quinas com um título mundial honorário pelo contributo ao futebol internacional durante os anos. Os portugueses choram de alegria, abraçando-se. É o dia mais feliz da existência quase milenar do país. Platini explica que deviam ter desconfiado da brincadeira quando se anunciou que o Mundial seria em África, mas ninguém o ouve, entre o júbilo generalizado.

7 Comentários

  1. Se me for permitido acrescentar uma:

    Os Madailistas
    Na operação face oculta, Madail é apanhado numa escuta ao seu telemóvel com Armando Vara, em que este informa a Madail que Manuel Godinho deu um carro topo de gama ao guarda-redes bosnio para deixar entrar todas as bolas que fossem chutadas a sua baliza

  2. Dos 4 cenários apenas o último é possível. Todos os outros são pura fantasia, porque não pode haver 2 equipas americanas no mesmo grupo e a Coreia do Norte acabou com o futebol no país em 1967.

    • R. Carreira diz:

      O que não pode haver é duas equipas sul-americanas no mesmo grupo (acho eu). Foi uma falha. Quanto a equipas americanas, basta ver os grupos do mundial anterior (por exemplo, o grupo A com o Equador e a Costa Rica ou o grupo B com o Paraguai e Trindade e Tobago), para ver que não.

      Quanto ao comentário da Coreia do Norte, se acabaram com o futebol em 1967, estou em pulgas para ver o que vão mandar ao Mundial da África do Sul, para o qual se apuraram já há algum tempo.

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