O Império dos Sentidos (ou: Com ovos, não se fazem apenas omeletas)

Há mesmo quem diga “omeleta” (a forma oficial) em vez de “omelete”? E porque havemos de nos submeter à tirania do dicionário? Não estará na altura de nos revoltarmos e começarmos a escrever “omelete” e a enfiar “prontos” e “é assim” onde nos apeteça? Lanço este assunto para discussão posterior. Falando em enfiar coisas onde nos apeteça, não há melhor maneira de recordar um momento mágico da nossa história recente, um verdadeiro rito de passagem que assinalou a transição da nossa democracia da adolescência para a idade adulta.

Corria o ano de 1991 e, não se sabe se por arrojo dos programadores ou por uma infeliz troca de cassetes, o segundo canal da RTP decidiu exibir numa inocente noite de semana, o filme japonês “O Império dos Sentidos”. No dia seguinte, a população viu-se dividida nas seguintes categorias: os que tinham visto e achado repelente, os que tinham visto sem se deixar escandalizar, os que não tinham visto mas gostariam, os que não tinham visto e não queriam ver e os que não tinham visto mas conheciam pormenores suficientes para fazer uma recensão pormenorizada do filme do início ao fim, sem deixar qualquer cena de fora, categoria na qual se incluíam figuras destacadas do clero e da moral pública.

Anos depois, o filme voltou a ser exibido e ninguém deu por isso. Estava perdida a inocência.

Mas, naquele momento glorioso, no início da promissora década de 90, foi especial. Pela primeira vez, a única estação de televisão que tínhamos (e que continuaria única durante mais um ano) mostrava sem pudor aquilo que, até então, apenas acontecia nos gabinetes da soturna sede da Avenida 5 de Outubro quando era necessário seleccionar estagiárias. Para quem não viveu essa época, percebam que a RTP não era o que é hoje. Havia programas. Rubricas. Temáticas. Pessoas que falavam sobre assuntos. Não era uma “Praça da Alegria” (com títulos e apresentadores variados) de manhã à noite, entrecortada por  jornalistas a tentarem parecer relevantes e seguida por uma gala de aves de capoeira dançantes apresentada por Catarina Furtado. Na RTP de outros tempos, mostrar uma penetração, mesmo uma penetração entre longínquos japoneses, abalava os alicerces da nossa civilização. Na RTP presente não. Com tantas penetrações metafóricas da nossa inteligência e da nossa paciência, muitas vezes à bruta, ninguém repararia em mais uma.

Na minha escola, havia um jovem chamado Valter que seria aquilo a que hoje se chamaria um bully, se o conceito já tivesse chegado até nós em tempo tão remoto. Nas semanas que se seguiram à exibição do filme maldito, Valter decidiu pendurar a soqueira e tornou-se uma espécie de repositório ambulante de conhecimentos sobre O Império dos Sentidos, que tinha conseguido ver até ao fim sem que alguma entidade paternal o mandasse dormir. Foram dias de glória. Para o Valter, que compensava a falta de carinho que o fazia torturar-nos, e também para nós, que assistíamos, maravilhados, atrás do ginásio, às récitas pormenorizadas de cenas escabrosamente nipónicas, sonhando com os dias de fartura que esperávamos se seguissem à interminável fome. “Conta a cena do ovo”, pedia um. E o Valter fazia-lhe a vontade, muito cheio de si. “Agora a do pássaro de madeira.” Durante muitos anos, até ver o filme, pensei que o “pássaro de madeira” fosse um eufemismo para designar um apetrecho mais orgânico e menos voador. Nunca me ocorreu que pudesse ser apenas um pássaro esculpido em madeira e pintado com cores garridas. Como são ingénuas e puras as crianças…

Mas nunca nos contou o fim. É verdade que ninguém lhe pedia que narrasse o desfecho do épico (estávamos demasiado interessados em pormenores de composição cénica e coreográfica), mas podia tê-lo feito. Esperar-se-ia que o fizesse. Afinal, que sentido faz narrar um filme inteiro a quem não o pôde ver e esquecer o final?

Acho que o fez  por caridade. Algures naquele coração de rufia, algo o fez perceber que ficaríamos destroçados na nossa virilidade nascente se conhecêssemos o triste fim do “pássaro de madeira” do protagonista. Preferiu guardar para si o fardo do desfecho sangrento. Talvez o tenha traumatizado. Talvez tenha sido por isso que se disse , mais tarde, que apenas perdeu a virgindade aos 32 anos. Seja como for, aqui fica o meu agradecimento. Onde quer que estejas, Valter, que o teu “pássaro de madeira” nunca seja afectado pelo caruncho.

3 Comentários

  1. Alexandre diz:

    Simplesmente Brutal :D:D:D

  2. Fabulosas analogias, e um momento com especial carinho na minha vida, muito bem retratado!

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