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Do escombro à barraca

10 pontos para não tornar o terramoto haitiano ainda mais trágico

1 - Por mais que apeteça a algumas pessoas comentar algo como “pobres africanos; não lhes bastava tudo o que já sofreram ao longo dos séculos e ainda precisavam de mais esta” e, apesar de a afirmação ser verdadeira em quase tudo, o Haiti situa-se nas Caraíbas.

(As Caraíbas, por sua vez, são ilhas situadas entre a América do Norte e a América do Sul num mar que se chama, surpreendentemente, Mar das Caraíbas.)

(Já agora, as Américas situam-se do lado oposto do Atlântico, para quem nadar no sentido Lisboa – Pernambuco.)

(E, nunca fiando, o Atlântico é a coisa molhada e grande onde molhamos os pés quando vamos à praia.)

(Se frequentar praias fluviais, o que acima é dito não se aplica. Por favor, não tente comprar fruta tropical e rum aos habitantes da margem oposta. É escusado.)

2 - Quando uma catástrofe provoca dezenas de milhar de mortes ou mais, torna-se difícil recolher e sepultar com brevidade todos os cadáveres. Como consequência, os corpos entram em decomposição e cheiram mal. A maior parte das pessoas está a par do fenómeno e não precisa de ser informada a esse respeito (quem não estiver informado, por motivos vários – distracção, ingenuidade extrema, infância, etc. – talvez deva continuar assim). De certeza que haverá muitos outros factos relevantes a referir em peças jornalísticas além do “odor nauseabundo que paira no ar”. Normalmente (segue-se metáfora zoológica), são os abutres e outros bichos necrófagos a sentir fascínio por carne putrefacta. A diferença é que os abutres raramente acompanham os seus festins com música de violinos e narração melosa.

3 - É um esforço nobre participar na remoção de escombros para tentar alcançar vítimas soterradas vivas. Subir para cima dos destroços (sob os quais há gente) para aparecer na televisão ou para recolher imagens televisivas de ângulo mais favorável é contraproducente e ligeiramente menos nobre. Não andará muito longe de apagar fogos com gasolina, conter inundações com diques de açúcar ou combater o analfabetismo com romances de Júlia Pinheiro.

4 - Se viajar para o local com intuito de ajudar no que puder e descobrir à saída do avião que, afinal, as coisas não estão tão más como esperava e que a ilha relativamente intacta é paradisíaca e povoada por gente aparentemente feliz, é provável que esteja no Taiti.

5 - Evite dizer que o Haiti precisa da ajuda da comunidade internacional neste momento de grande necessidade e que todos devemos ajudar a reconstruir o país. Antes do terramoto, o Haiti era o país mais pobre do continente americano, um dos mais pobres do mundo, com 80% dos habitantes (metade dos quais é analfabeta) a viver em condições miseráveis, subsistindo, em média, com um euro e meio por dia e com o auxílio internacional a ser a principal fonte de receita estatal. Reconstruir o quê?

6 – Esqueceu-se da gripe A? Tanto esforço para construir um clima de histeria global tão sólido e abandonamo-lo assim, à primeira catástrofe, apenas porque se percebeu que a terrível pandemia não é lá muito terrível? É profundamente injusto.

7 - François “Papa Doc” Duvalier governou o Haiti entre 1957 e 1971. Era um ditador muito pouco simpático e  era bastante criativo nas maldades que fazia. Quando morreu, foi substituído no cargo pelo filho, Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, também ele uma pessoa nada aprazível. Apesar de ambos merecerem levar com algumas toneladas de betão na cabeça, foi só em 2010 que o palácio presidencial onde habitaram se desmoronou. Deus ou não existe ou não sabe o que faz.

8 - Feliz por só passar férias em destinos tropicais seguros onde nunca acontecem calamidades? De certeza? Adivinhe que país fica entre a República Dominicana e Cuba, os destinos que lideram as suas preferências para as férias descontraídas onde pretendia esquecer todas as preocupações. Pista: Começa por H e não é a República de Hongabonga. Divirta-se.

9 - Em 1974, a selecção de futebol do Haiti qualificou-se para o Mundial da RFA. Perderam os três jogos da primeira fase por muitos golos, mas entraram a ganhar no desafio inaugural contra a Itália. Aos 46 minutos, o talentoso avançado Emmanuel Sanon violou as redes do guarda-redes Dino Zoff, pondo fim a um recorde de 1142 minutos sem sofrer golos em jogos internacionais. (Este é o único facto não deprimente sobre o Haiti que lerão nos próximos meses. Aproveitem.)

10 - Por fim, se é daquelas pessoas que padecem de activismo e decidiu aplicar-se a fundo na ajuda ao Haiti, tente continuar a fazê-lo quando o Haiti for ultrapassado pelo assunto mediático seguinte e até os problemas do país se resolverem. Prepare-se para uma espera longa.

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12 Postas de pescada »

  1. A piada da Júlia Pinheiro não é propriamente original deste artigo certo? Costumo andar sempre a bisbilhotar por aqui (eu e muitos) e sinto realmente este artigo bem mais fraco do que o habitual mas calculo que também esteja sensibilizado com a situação e dai poupar um pouco a causa, espero daqui a um ou dois meses ver outro artigo qualquer acerca do tema. Mas para que não seja tudo mau tenho de confessar que me ri com a parte da gripe A! Continua que muita gente vai lendo :)

    • Dizia uma personagem do Herman José: “As opiniões são como as vaginas. Quem quiser dá-la, dá-la.” Neste espírito, muito obrigado por dares a tua. A respeito da Júlia Pinheiro, tanto quanto sei, a piada é “original deste artigo”. Por isso, até me mostrares a mesma piada noutro sítio qualquer, reservo-me o direito de considerar que esse comentário (que agradeço e respeito de qualquer forma) não é propriamente o mais propositado. Volta sempre. :D

    • acreditando que a Júlia Pinheiro não passa de uma falsificação, não creio que estejam reunidas as condições para adjectivar de “original” qualquer piada ou juízo de valor sobre a senhora, ainda que pensadas e elaboradas exclusivamente pelo original Renato Carreira.

      originalmente vossa,
      e enviando beijinhos extremamente originais,

      Lady oh my Dog

  2. Só falta comentar a intervenção quase exclusivamente militar dos states e o facto de a França unicamente servir para mandar umas postas relativamente ao assunto…

    É com gosto que li a tua introspecção sobre o assunto, já há muito que não lia algo tão bem feito… satiricamente falando! Tenho pena de apenas ter conhecido hoje o teu site!!! Mas prometo que vou recuperar os nove anos rapidamente!!!

    Cpt. Xilema

    FUPAMP – O privilégio de ser um anexo de Portugal!
    http://www.fupamp.blogspot.com

  3. Triste, triste é saber que foi preciso um cataclismo natural para a população mundial se lembrar que existia algures um país de pretos de miséria extrema.

    Só falta agora um tsunami na Somália ou um vulcão na Serra Leoa.

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