Telefobia

Quando se soube que a TVI preparava uma série de vampiros, muita gente terá desejado que o resultado não fosse patético. Depois, percebendo o disparate, terão corrigido. Claro que seria patético. Afinal, tratava-se de uma produção da TVI. Se saísse daquela fábrica de horrores televisivos algum projecto de ficção que não fosse patético, o mundo era bem capaz de implodir. Que fosse, então, patético, mas de uma forma que provocasse o riso e não de forma dolorosa. Visionado o primeiro episódio com grande atenção para não escapar nenhum dos inúmeros pormenores apetitosos, não se percebe bem que tipo de patético temos diante dos olhos. Imagine-se uma telenovela da TVI igual a todas as outras.  Agora, imagine-se que uma parte considerável do elenco está morta. Não, calma. Nada de tão feliz. Quero dizer que estão mortos a fingir porque são vampiros. É mais ou menos assim. Uma telenovela da TVI com cadáveres animados (mas muito pouco). Um “Morangos com Açúcar no Cemitério”, se quiserem. E, por falar nisso…

História de vampiros digna não pode demorar muito a mostrar-nos um cemitério. É de praxe. Talvez por alguma dificuldade na obtenção das autorizações adequadas para filmar num cemitério real ou porque a produção não achou nenhum que fosse suficientemente realista e carismático, decidiu-se construir um propositadamente para o efeito. Temos de ser justos. Saíram-se muito bem. Uma dúzia de cruzes de ripa branca semeadas à volta de um sobreiro. Tal e qual. Melhor só se acrescentassem um anjo recortado em cartão ou talvez um jazigo construído com paus de fósforo.

Falemos do elenco. Este senhor integra-o, fazendo de amigalhaço do galã juvenil de serviço, mas está aqui só pelo felpudo texugo morto com que adorna a cabeça. Porque aquilo não pode ser cabelo. Quem não o sabe é a jovem de olhar rancoroso lá atrás, lamentando a fortuna gasta com produtos para conferir volume à gadelha quando alguns têm volume a mais. Ela tenta suicidar-se com uma sobredosagem de vitamina C, mas ele não se importa e é feliz na mesma, ainda que o peso do arsenal capilar lhe faça pender a cabeça para a direita.

Cá está ele, o dampiro. Nome demasiado idiota? Nada disso. Há muito que os dampiros, híbrido de vampiro com humano (como nos é explicado), povoam as lendas. Há também outras variantes.  Por exemplo, uma criatura metade vampiro e metade lobisomem, a que, por esta natureza dupla, se chama “duospiro” ou os esquivos vampiros subaquáticos conhecidos como “subspiros”.

E o inevitável interesse romântico do rapaz, uma vampira capaz de suportar a luz solar sem irromper em chamas. Dá muito jeito. Sobretudo aos argumentistas. Porque seria menos eficaz pôr uma vampira adolescente a frequentar uma escola nocturna. De onde veio esta mania de enfiar vampiros na escola? Estão vivos (mais coisa menos coisa) há centenas de anos e continuam interessados em obter aproveitamento escolar? A persistência é louvável, mas, depois dos primeiros 170 anos de chumbos, o melhor será mesmo desistir. (O rapaz de vermelho lá atrás é deficiente profundo e não será correcto troçar da sua condição.)

Apesar de ser muito fácil desancar as prestações destes jovens prodígios da representação, a singular Catarina Wallenstein não merece igual tratamento, por ser capaz da amplitude emocional extrema que a imagem acima demonstra. Bravo, Catarina.

Também há vampiros a sério, daqueles que dormem em caixões e vivem num castelo iluminado por bidons em chamas, como manda a tradição (a tal que já não é o que era) e que se divertem pairando magicamente no ar em danças pitorescas vagamente semelhantes aos movimentos oscilatórios de pessoas penduradas por cabos. Para lhes dar corpo, um par de actores sérios e competentes q.b. a fazer pela vida (sempre é melhor do que trabalhar no hipermercado). Rogério Samora e Maria João Luís, aqui representados a duplicar a expressão motivada pela primeira leitura do guião. Além destes, merece destaque Jorge Corrula, não por se incluir também no lote de actores sérios e competentes q.b,, mas pela nostalgia de rever o protagonista de “O Crime do Padre Amaro”, quase irreconhecível com barba e sem as mamas de Soraia Chaves espalmadas contra o nariz.

Há ainda a professora compreensiva que aprecia monólogos sobre temas profundos, como a vida depois da morte, e que não se cansa de repetir “fáraós”. Tudo porque alguém colocou um acento a mais enquanto passava o texto a limpo. A culpa não é sua.

E Evelina Pereira, antiga manequim e recém-actriz, expressiva como uma malga de açorda (mas com pior dicção), aqui retratada antes da aplicação de maquilhagem.

Muito mais haveria para dizer sobre “Destino Imortal”. Mas, lamentavelmente, encontro-me a meio de um tratamento para reduzir a utilização de palavrões e já gastei uma boa parte da minha quota mensal em duas horas à espera de ser atendido nos Correios. E queria guardar alguns para o próximo debate parlamentar. Seja como for, não conseguiria exprimir-me melhor do que este senhor fardado de GNR, cuja participação no primeiro episódio se resumiu, basicamente, a vomitar duas vezes. Pode parecer deficiência do enredo, mas não será antes um pedido de ajuda camuflado de toda a produção? Sejamos solidários.

14 Comentários

  1. oh…
    acabou

  2. isto está a tornar-se num valha-me Deus cruz credo, mas não há ninguém que ponha mão na produção da tvi?
    o SocrÁÁtes(é assim o seu verdadeiro nome) anda todo preocupado com os jornalistas que dizem mal dele, e com isto não se preocupa? estou indignado, não acho correcto! na minha opinião em vez de se contruir um novo museu dos coches, reabilitava-se o forte de peniche, ou mesmo o tarrafal, que apesar de não ficar em portugal funcionaria como o guantanamo portugués, ao contrário do americano este iria albregar verdadeiros terroristas. Com séries deste calibre não há FMI ou OCDE que nos leve a sério….
    valha-nos a inepcia….

  3. Meu… arranjaste-a bonita…

    Nunca me teria passado pela cabeça ver esta coisa… até ler a review!

    Dampiros te levem!!

  4. não vi a novela, mas adorei a review! xD

  5. Está excelente! Falta agora fazeres a crónica da SIC…sim, que isto espalha-se!!

    • R. Carreira diz:

      É melhor deixar estrear primeiro. Para evitar acusações de parcialidade. :)

  6. o gnr que esta de ressaca, não é o gordinho da publicidade do pingo doce e que fala muito bem do bacalhau?

    • R. Carreira diz:

      Não consegui perceber. Se é, o Pingo Doce deve-nos uma explicação.

      • é mesmo o gajo!
        perdeu toda a minha confiança agora quando voltar a fazer publicidade do pingo doce… como se pode confiar num GNR que vomita e faz anuncios ao mesmo tempo e em canais diferentes.

        A telenovela da SIC sobre vampiros está ao nível da da TVI.
        Para quando guerras de canais mas com pornografia?

        • R. Carreira diz:

          A lei não deixa. Pornografia em canais abertos só a dos “castings” de selecção de actores e apresentadores.

  7. Já percebi porque nunca gostei de diospiros.

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