O Polvo – Contribuição cronográfica para uma compreensão da manipulação mediática

Julho de 1932

Surpreendido por um aglomerado de jornalistas à porta da sua residência quando partia para a tomada de posse como Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar pede encarecidamente a um fotógrafo que faça o favor de apenas o fotografar do lado oposto, pois amanhecera com uma medonha borbulha na bochecha daquele lado. Os jornalistas insurgem-se contra o pedido e clamam censura. Desagradado pela reacção injustificada, Salazar aproveita a ideia e decide-se a não ter a fama sem o proveito.

Verão de 1975

Um repórter indiscreto do jornal República ouve pelos corredores de São Bento o primeiro-ministro Vasco Gonçalves queixar-se a um camarada dos problemas de obstipação provocados pela tensão política que então se vivia. O amigo admite ter padecido do mesmo e recomenda-lhe que, como ele, faça “força, companheiro Vasco”. Pouco depois, Vasco Gonçalves descobre que a frase se tornou refrão de uma composição musical de escárnio. A redacção socialista do República é ocupada pela comissão de trabalhadores comunista e, como represália, os jogadores passam horas sem poder ir à casa de banho.

Dezembro de 1980

De partida para o Porto, Francisco Sá Carneiro é alertado por um colaborador de longa data para os rumores de que se prepararia naquela noite uma manchete explosiva. Preferindo concentrar-se na eleição de Soares Carneiro para a Presidência e recusando interferir na linha editorial de um jornal, o primeiro-ministro embarca na aeronave que o esperava e percebe, tarde demais, que o seu associado, um fanhoso  sem remédio, não dissera “manchete”, mas sim “avionete”.

Março de 1982

Pinto Balsemão perde noites de sono por culpa de um torpe colunista anónimo que, semana após semana, lhe vai chamando “queque inveterado”. Em desespero, recorre aos seus conhecimentos na comunicação social e acaba por descobrir a identidade do patife. Por intermédio de terceiros, consegue aliciá-lo com um salário chorudo e contrata-o para dirigir uma nova publicação. Só depois de assinado o contrato, o pobre homem descobrirá tratar-se do diário O Queque Inveterado, periódico de 80 páginas totalmente dedicado à pastelaria e com redacção composta apenas por si próprio. Morre, vitimado pela exaustão, pouco depois. O Queque Inveterado passou a chamar-se Revista Caras e a sua publicação continua nos nossos dias.

Outubro de 1985

Na corrida às presidenciais de 1986, a candidatura de Freitas do Amaral confia nas qualidades do seu homem e no chamativo slogan “Freitas é Fixe” para assegurar a vitória. Não contendo o orgulho, um dos responsáveis pela propaganda partilha o slogan com um amigo antes de serem impressos os primeiros cartazes e foi um pequeno passo até chegar aos ouvidos da candidatura de Mário Soares. O slogan foi cruelmente roubado e, depois de adaptado a Soares, passou a ser repetido pelos apoiantes soaristas e difundido pela comunicação social por recomendação do lobby socialista. Esgotada pelo rasgo de génio, a equipa de Freitas do Amaral vê-se forçada a adoptar como slogan um pouco inspirado: “Freitas é uma pessoa idónea e não há motivo nenhum para não dar um Presidente da República assaz competente.”

Julho de 1993

Cansado de ver o seu governo ferozmente perseguido pelas manchetes truculentas do semanário O Independente, Cavaco Silva recorre aos conhecimentos na máfia de Boliqueime para iniciar uma operação de sabotagem. Até ao fim da sua longa prestação como primeiro-ministro, os jornalistas do Independente são forçados a suportar um pestilento e inexplicável cheiro a esgoto que se instala na redacção e muito dificulta a concentração. Perante tamanha violação do seu olfacto erudito, o director do jornal, Paulo Portas, acaba por se habituar ao fedor e assim caía o únco obstáculo à troca do jornalismo por uma carreira na política.

Maio de 2000

Sem nunca ter conseguido “fazer a conta”, António Guterres diz a um dos seus ministros mais promissores: “Troque-me aí o cálculo do PIB por miúdos.” O pedido é tragicamente mal interpretado e pode ter motivado o envolvimento da jovem promessa socialista num escândalo de pedofilia. Um jornal tentou expor a culpa do primeiro-ministro, mas foi impedido de o fazer por pressões das mais altas instâncias. Falou-se em ameaças de colar a testa do director do jornal em questão às virilhas de João Cravinho.

Março de 2003

Durão Barroso disponibiliza-se para receber George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar nos Açores para discutir a invasão do Iraque. Apesar da simpatia do gesto, os líderes das três potências não aceitam que o primeiro-ministro português participe nos trabalhos. Inconsolável, Durão Barroso dá instruções à RTP para incluir digitalmente a sua pessoa nas imagens da chegada dos três líderes e a brincadeira acaba por pegar, com as restantes estações televisivas, jornais e revistas a difundirem as imagens manipuladas. No entanto, a gracinha não pega a nível internacional e, por motivos ainda sem explicação, o quarto elemento representado nas imagens internacionais da cimeira açoriana foi o ursinho Misha, mascote das Olimpíadas de 1980, em Moscovo.

Novembro de 2004

Antes da sua chegada recente ao mercado nacional, a revista masculina Playboy já em 2004 tinha tentado trazer até nós as mamas e cus postiços em papel lustroso que são a sua imagem de marca. Mas encontraram um obstáculo inesperado. Quando se ocupavam da burocracia exigida pela legislação portuguesa, uma circular de última hora exigiu que fosse também instalada uma delegação da famosa Mansão Playboy na residência oficial do primeiro-ministro, no Palácio de São Bento. O pedido foi inaugurado e a reacção não se fez esperar. Uma mensagem manuscrita pelo próprio Pedro Santana Lopes vaticinava: “Nunca haverá uma Playboy portuguesa nos 16 anos que pretendo passar como primeiro-ministro.”

Fevereiro de 2010

Uma série de notícias desprovidas de fundamento é publicada por jornais tendenciosos movidos por sentimentos de inveja e ódio para com o melhor primeiro-ministro português desde o Paleolítico Superior, o homem capaz de orientar Portugal até ao prestígio mundial e ao estatuto de superpotência que lhe escapam desde a era áurea dos Descobrimentos. As acusações feitas são risíveis e o alegado “plano” do governo para controlar a comunicação social nunca passou de um delírio. Simultaneamente, o tom demasiado elogioso de alguns sites satíricos parece sugerir que algo de estranho se passa. Mas nada poderia ser mais falso. (É favor ignorar o senhor parecido com o ministro Augusto Santos Silva sentado ali ao canto desta página. Não tem o açaime posto.)

Um comentário

  1. Muito bom!!!
    Nunca pensaste escrever um guião?
    (tens jeito para a coisa…)

    ;)

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