Os gestos de José Sócrates explicados aos inocentes

Um povo que tão bem se deixou representar pelo manguito de Zé Povinho merece um líder que consiga expressar-se de forma competente pelo gesto. E temo-lo, na figura de um outro Zé, mais apresentável, menos rude e com menor propensão para gritar “Queres fiado? Toma!” por tudo e por nada. Tão rico é o arsenal de gestos do primeiro-ministro que muitos poderão perder-lhe as minúcias e é pena. Para evitar isso mesmo e para garantir que os portugueses se orgulham de serem governados por um homem que diz mais num gesto do que muitos num discurso inteiro, apresenta-se este guia sucinto. Depois de interiorizada a riqueza gestual, qualquer cidadão ficará habilitado a saudar o nosso esclarecido guia com gestos de reconhecimento, simbolizando a gratidão, o apreço e a confiança com cada uma das três falanges do dedo médio.

O gesto base

Mão abertas de quem não tem nada a esconder em movimento oscilante. Expressão serena de professor primário paciente explicando aos seus alunos uma matéria básica que as pueris cabecinhas não conseguem ainda compreender com facilidade. Os polegares formam trampolins gémeos capazes de projectar Portugal para um futuro dominado por computadores Magalhães e moinhos de energia eólica, onde Manuela Moura Guedes e Mário Crespo serão apenas, respectivamente, nome de centro de apoio a vítimas de excessos de cirurgia plastica e de mercado municipal especializado em hortaliça.

O gesto base 2.1

Quando a explicação levanta dúvidas entre os ouvintes, verifica-se uma nuance. Os dedos unem-se, formando um triângulo cujo vértice aponta a clareza almejada. A expressão também se altera. Os lábios perdem o indício de sorriso, as pálpebras estreitam-se ligeiramente. O discurso abunda em «aliás», «veja» e «gostaria de deixar isto bem claro».

O apelo às massas

Mais uma variante do gesto base, mas este destinando-se a utilização perante grandes audiências, constituídas sobretudo pelas massas populares que votam por instinto, não dando grande atenção ao conteúdo do que é dito. Confere-se especial importância ao tom cadenciado da voz, que se quererá adequadamente sonora e alternando com momentos de acalmia capazes de anular receios de autoritarismo. As mãos dançam numa coreografia hipnótica e os dedos espaçados procuram em simultâneo abranger a multidão e massajar o sentido de voto de cada ouvinte individual.

O combate contra a intempérie

Gestos ascendentes de movimentação generosa, como se as mãos arrancassem nacos ao problema e o lançassem para cima, para as forças superiores a quem pertence a única responsabilidade. Ele, mero humano empenhado no serviço à causa pública nacional, fará o que pode, cá por baixo, mas não se lhe exija mais do que aquilo que a sua natureza mortal permite.

O jovial adversário político

Gesto reservado ao combate parlamentar. O sorriso transmite fair-play e simpatia pelo natural desenrolar do processo democrático, assente na saudável troca de ideias. Mas a mão paira num voo ameaçador, ameaçando afáveis palmadinhas nas costas ou violentos bofetões, deixando os adversários confusos e fazendo-os esquecer por momentos as suas estratégias.

A bonança que precede a tempestade

A expressão revela que o primeiro-ministro conhece bem os procedimentos fundamentais que regem a democracia e acede a ouvir a resposta dos seus adversários. Uma mão apoia-se sobre a bancada, como se o que ouve fosse tão ridículo que pudesse provocar, a qualquer momento, um ataque incontrolável de riso que o lançasse ao chão. A outra mão repousa sobre a anca num ângulo que duplica o sinal matemático de menoridade, enquanto o polegar aponta os genitais, sugerindo sub-repticiamente o que realmente pensa da argumentação do interlocutor.

O contra-ataque

Sobrancelhas franzidas, boca aberta como se mordesse. Um braço estendido e a mão sobre a bancada, como se acabasse de esmagar um insecto insignificante, ainda que vagamente incómodo. A mão oposta ergue-se em garra, com o cotovelo assente, num convite a um ameaçador braço-de-ferro simbólico de derrota inevitável para quem se julgar à altura do desafio.

O «J’accuse»

Concluída a batalha argumentativa com todos os envolvidos a cantar vitória (como é hábito), um público favorável ouve uma enumeração exaustiva e feroz das falhas dos adversários e dos cheiros peçonhentos exalados pelas suas goelas fétidas. Cada movimento do indicador em gancho entra pelo olho dentro dos líderes da oposição, como deveria entrar por idêntico caminho a consciência dos seus erros em número infinito.

A carraça

Postura adoptada no encontro com líderes internacionais, mesmo com os de relevância mediana, tal como o primeiro-ministro luxemburguês aqui retratado. As mãos seguram os braços do interlocutor, em simultâneo numa sugestão de abraço e para impossibilitar a fuga. A expressão de símio transmite sinais inequívocos de submissão e apreciação exarcebada, destinados aos sectores mais remotos do cérebro humano e manifestando compreensão invejável dos primordiais impulsos que a todos regem.

O maior

Lábios cingidos e punhos erguidos para celebrar um triunfo, mas também preparados para tombar com violência implacável sobre as cabeças desprevenidas de quem tentar questionar uma vitória justa.

O popular

Sorriso “franco” cuidadosamente encenado e braço erecto numa saudação imaginária dirigida não a qualquer um dos muitos apoiantes presentes, mas sim ao próprio Portugal, cuja aprovação é percebida pelos olhos brilhantes dos grandes líderes. Note-se a confusão de Jaime Gama como prova de que assim é.

O jeitoso

Mão no nó da gravata que revela gosto pelo aprumo e cabelos rebeldes que asseguram não haver excessos de vaidade. Os lábios devoram-se a si próprios, revelando que nem o seu corpo consegue resistir ao próprio apelo erótico. Olhar que diz: «Parecido com o George Clooney? Bah! Nem me chega aos pés.»

5 Comentários

  1. Ele é giro que se farta. Da cabeça aos pés. Ainda poderá tornar-se um bom político.

  2. …e faltou aqui mais um que o ‘still’ das imagens não permite bem reproduzir: o ‘punheteiro’, em que reproduzindo o universal gesto da fecundarização a céu aberto reforça a pujança e vitalidade de um argumentário que só o satisfaz a ele

    http://www.youtube.com/watch?v=3l2QHIBl07I

    – ver 02:35 e outros momentos –

  3. Este está impecável! :)

  4. Muito bom, seu Renato.
    :)

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