Carta aberta a Bento XVI

Caro senhor papa,

Em primeiro lugar, gostaria de explicar que o tratamento por “senhor papa” e não pelo habitual “santidade” não pretende ser desrespeito. Não sei muito bem como funcionam as coisas na Alemanha e no Vaticano, mas, em Portugal, chamar “senhor” a alguém sempre foi uma forma de trato educada (ainda que, nos últimos tempos, com a avalanche de doutores, professores e engenheiros, se tenha tornado quase equivalente a “filho de uma valente rameira”, mas não é essa a minha postura). Decerto compreenderá. Também gosto que me chamem “tigre”, mas apenas quando é sentido. Se achar que não há sinceridade na comparação entre o meu vigor e o do nobre felino asiático, prefiro que não a façam.

É esta a lógica. Como ateu, custa-me um bocado compreender o conceito de santidade reconhecida em vida (aliás, acho que até a doutrina católica a rejeita, mas posso estar enganado). E peço desculpa por invocar a lógica. Não quis atribuir-lhe qualquer predominância sobre a fé. Os dois conceitos têm bastante mérito e acredito que sejam perfeitamente conciliáveis. Prefiro que seja a lógica e não a fé a reger coisas como a engenharia e a farmacologia, mas é uma opção pessoal.

Agora que estamos entendidos, sigamos em frente. Escrevo-lhe porque tenho umas sugestões a fazer. Faço-o em português porque confio no seu domínio do idioma de Joel Branco e Badaró e, ao contrário de muitos, não acredito que se limite a ler coisas que lhe escrevem num papel. Podia tentar exprimir-me noutra língua que partilhássemos, mas os resultados seriam catastróficos, por culpa minha. De alemão sei sobretudo nomes de tipos de salsicha, de italiano os meus conhecimentos também não andam  muito longe do capítulo gastronómico e do latim da escola apenas recordo expressões brejeiras que não se adequam porque o assunto é sério. (Se quiser, partilho-as consigo em missiva posterior. Há algumas bastante espirituosas.)

Espero que não veja estas sugestões como críticas. São feitas de bom coração e espero que lhe possam ser úteis, mesmo sabendo que, por definição, o papa é infalível. O que nos remete para a primeira sugestão, a que gostaria de chamar “sugestão nº1”.

Sugestão nº 1: É muito difícil simpatizar com alguém infalível. Tem a ver com aquela antipatia natural por pessoas que sabem tudo e que gostam de nos esfregar os seus conhecimentos na cara. Em Portugal, chamamos-lhes “chicos espertos” e não gostamos muito deles. A infalibilidade é apenas “chico esperteza” elevada à milésima potência. Mesmo que a infalibilidade papal seja justificada (afinal, não existe apenas por decreto de pessoas vestindo trajes absurdos e agindo em nome de uma entidade invisível, pois não?), será melhor que se livre dela.

Sugestão nº 2: Não digo que deixe de se vestir tantas vezes de branco. É verdade que o faz parecer um pouco mais gordo, mas, se é assim que se sente bem, nada contra. Muita gente se veste completamente de branco e apenas alguns são vilões do James Bond, noivas ou o Roberto Leal. Se conseguir, tente abster-se de vermelhos e dourados. E de golas de arminho. Também muito importante é esvaziar o armário de tudo o que seja vagamente medieval. Está bem que sejam peças com valor histórico e que façam parte do guarda-roupa tradicional dos papas, mas o seu antecessor tinha razão quando optou por nunca as usar. (Não lhe vou dizer que simpatizava mais com ele porque é desagradável e deve estar farto de ouvir gente a dizer o mesmo.) Pelos mesmos motivos, nunca se sente numa cadeira transportada em ombros, por mais que lhe apeteça restaurar também essa tradição pontifícia. Não quer que as pessoas comecem a chamar-lhe Cleópatra, pois não?

Sugestão nº3: É bom viajar para conhecer novos países e revisitar os que já conhecemos. Mas, quando o faz, tente limitar ao máximo o incómodo provocado aos naturais desse país que não sejam católicos. Paralisar cidades durante dias inteiros não é boa política. Alguma vez andou num autocarro conduzido por um motorista irritado pelas demoras e desvios provocados pela sua visita e que exterioriza a frustração com acelerações e curvas apertadas? Não recomendo a experiência.

Sugestão nº 4: Pedofilia, casamento homossexual e contraceptivos. Sei que os padres pedófilos são a excepção que arruina a regra de sacerdotes conscienciosos e preocupados com o bem-estar dos seus fiéis e que a Igreja tem tomado medidas para combater o triste fenómeno, mas será bom pensar um pouco mais na hierarquia das ameaças. Talvez fosse boa ideia deixar claro que a pedofilia é um mal mais grave do que o casamento homossexual e a contracepção. Porque, assim, ficamos confusos. Ficamos a pensar que, para a Igreja, é igualmente grave que sacerdotes molestem crianças ou que pessoas do mesmo sexo se unam matrimonialmente para usufruir das colecções respectivas de discos da Liza Minelli e da Lara Li. E que o mundo corre sérios riscos de implodir por culpa de um balãozinho de látex.

Sugestão nº 5: A última sugestão é facultativa. Pode continuar a exercer a papice como os seus antecessores, mas ficaria muito bem visto se começasse a sair mais e a conviver com pessoas comuns. Se o fizesse, ficaria muito mais habilitado para gerir o conforto espiritual dos crentes. Saia com os cardeais amigos para beber uma cerveja. Vá à bola (ainda vai a tempo de assistir à final da Liga dos Campeões com o Bayern de Munique da sua Baviera natal). A metáfora do pastor e das ovelhas é tão apreciada pela Igreja Católica que é pena não ser levada mais a peito. Se um pastor real visse as ovelhas uma vez por semana, acenando-lhes de uma janela e lendo-lhes a mesma mensagem em oito línguas, ninguém o respeitaria no sindicato da pastorícia.

E pronto. Era só isto. Espero não lhe ter tomado demasiado tempo (sei que tem uma agenda apertada) e espero que corra bem a visita a Portugal, sobretudo àquele santuário mítico onde milhões de almas vão dar largas à sua fé inabalável (ou a Fátima, se optar à última hora por não visitar o Estádio da Luz).

Atenciosamente,

Renato Carreira (baptizado contrariado número 342861/77)

Tags:

15 Comentários

  1. Pelo que aqui constato ele não respondeu à carta, o que não é de admirar se a carta foi enviada sem a proverbial nota de 100€ e o selo para resposta.
    O Vaticano tem as suas despesas e o dinheiro não lhes cai do céu, portanto quem quer dialética tem de a pagar.

  2. Uma carta que anda ali entre o fútil e o bonzinho… Algumas coisas não têm assim tanta pertinência quanto isso, nem sequer eram precisas…
    Outras, eu estou completamente de acordo, como por exemplo a sua 4ª sugestão!

    E caro capitão Xilema, um dia apresento-lhe um batalhão de Católicos Baptizados por convicção… um dia.

  3. João Peneda diz:

    Eu sei que pode ser efeito da perspectiva, mas ia jurar que o Cavaco se prepara para mexer no rabo do Ratzinger

    • Carlos Santos diz:

      É mesmo verdade, uma gravação secreta do evento apanhou o Cavaco a dizer: “Sua Santidade tem aqui um rabinho que faz favor”

  4. Brilhante!!!

    Caro R. Carreira tens toda a razão, e devias seguir o conselho da Dona Mariazinha, o papa só iria beneficiar dos teus “inputs”!!!

    É verdade que a disparidade entre o papa e seus militantes é tremenda, (ele vem de Mercedes e os peregrinos andam de joelhos), mas esfregar a opulência do vaticano na cara dos portugueses ostentando uma riqueza que faz inveja um país do terceiro mundo e trazer e uma comitiva que nunca mais acaba e uma lista de requisitos à lá rockstar, é demais!!!

    Também eu sou um baptizado por imposição e sem qualquer hipótese de escolha mas se não for assim deixam de haver católicos!!!

  5. R. Carreira diz:

    Todos para o inferno… Todos…

  6. Quando vi a foto do artigo, a primeira idéia que me ocorreu foi tratar-se de um par de noivos no altar de um casamento homossexual, sendo que um deles estaria de branco por ser a “noiva”. O noivo parece estar a pedir a mão à noiva e ela não lhe dá Cavaco, o que revela uma enorme capacidade de resistir à tentação(se eu fosse mulher não resistiria a um homem que acumula várias pensões de reforma com um salário generoso). Assim se entende como chegou àquela idade solteira e virgem(presumo eu,por lhe chamarem “santidade”). Só depois li o título e percebi que se tratava de outro assunto.

  7. Dona Mariazinha do Brasil diz:

    Sr. Renato Carreira,

    Tente uma audiência com o papa.
    Consiga a audiência.
    Compareça à audiência e entregue a carta em mãos.
    Imprescindível comparecer à audiência calçando sapatos Prada.

    • O homem já vai com as malas cheias de bordados, vinho do porto, camisolas de futebol e mais 10 kilos de bujigangas… acham que ele vai levar uma carta ainda por cima escrita em português para o Vaticano?
      Ainda se fosse em italiano ou em alemão, poderia ser que ele passasse os olhos antes de passar pelo outro olho…
      Manda-lhe mas é a carta por mail

  8. Genial! Só faltou mesmo lembrar que andar de saia já não faz parte da moda masculina desde que o Império Romano foi à vida. E isso já foi há uns anitos…

  9. António Nónimo diz:

    Mete-te com o gajo, que não tarda tens o diácono Mário Machado a bater-te à porta.

    Afinal, ambos partilharam, em tempos, a mesma fé.

Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *