Telefobia: Como o último episódio do Lost me fez perder a fé na humanidade

É só uma série de televisão. É verdade que teve muito sucesso e foi acompanhada (ainda é) por muita gente no mundo todo, mas é apenas uma série de televisão. Houve, há e haverá outras igualmente populares e motivando idêntica fidelidade entre os espectadores. Nem sequer foi a primeira série (nem será a última) a depender de mistérios para manter o público fiel e interessado, ansiando pelas respostas do episódio seguinte. Mas aí está a diferença. Em Lost, em vez de respostas, cada episódio trazia mais mistérios, sobrepondo-se uns aos outros numa torre  de dúvidas cada vez mais alta e alicerçada pelas inevitáveis e múltiplas teorias com que os fãs iam tentando encontrar sentido no mundo fictício da ilha e nas vidas dos seus desafortunados e/ou sinistros residentes.

Os episódios foram-se sucedendo nestes moldes até que, lá pelo quarto ano, o público começou a espumar da boca e a barafustar que não podia ser, que algumas respostas teria de haver (nem que fosse para mistérios menores) ou não haveria remédio senão desistir de esperar por um desfecho e começar a ver o Dr. House, onde cada episódio garante diagnóstico conclusivo. Os autores fizeram-lhe a vontade, atirando esclarecimentos menores como quem lança migalhas de tosta a um pombo faminto, e mantendo basicamente no mesmo rumo que antes tinham seguido. Até o fim ser anunciado. E, sabendo que haveria um fim relativamente próximo, os espectadores suspiraram de alívio. Finalmente, pensaram, acaba a tortura.  Finalmente, tudo ficará esclarecido e sentiremos que valeu a pena, que há coisas no mundo que fazem sentido e que quem espera acaba  sempre por alcançar.

O último episódio, por fim. Com duração dupla e tudo para deixar os fiéis com água na boca. Seria desta. Deuses da televisão, seria desta! Finalmente!

Começa, como muitas coisas começarão, com um caixote. Este caixote em particular sai do porão de um avião de uma companhia aérea tão célebre que, se decidisse passar da ficção para a realidade, seria sem dúvida líder de mercado a nível mundial. E mesmo tendo como seu momento mais alto um desastre trágico e inexplicável.

E com Jesus Cristo, claro. Muito boa gente no mundo acredita que Jesus Cristo também é um bom começo (e um bom fim). Mas é só um elemento decorativo. Porque o Lost não é nenhum instrumento de propaganda religiosa. Depois de tanto tempo, seria ridícula uma guinagem brusca para um simbolismo místico-religioso forçado. Mas estou a divagar. Sigamos com o episódio.

Excelente! Viram? O Hurley acaba de dizer: “I got a bad feeling about this…” Claro que tens um “bad feeling”, Hugo, é o fim da série. Depois, vais ficar desempregado, mesmo que sejas um dos actores mais carismáticos do elenco. Não há grandes saídas profissionais para actores obesos em Hollywood. Mas nós só temos “good feelings”. Vem aí um final de arromba e, finalmente, as explicações que merecemos. Viva!

E vocês os dois já resolviam isso, não? Nada contra a tensão sexual, mas seis anos é demais. Vai acabar por provocar brotoeja. É assim tão difícil encontrar uma moita recôndita numa ilha coberta por vegetação tropical? A rapariga até nem se faz de difícil. Todos a vimos com o Sawyer no episódio 55. E não estavam a jogar à bisca.

Por falar em Sawyer e em moitas recônditas, cá está ele, surpreendido durante uma muito pouco eficiente prestação como mirone. É por isso que devemos manter-nos sempre atentos à retaguarda. Isto é válido para personagens de séries televisivas em missão de espionagem e também para rapazinhos que ajudem à missa.

Sim, Desmond. Essas personagens não apareciam há muito tempo e parece um bocado arbitrário que reapareçam no último episódio. Mas deixa lá. Parecem ser pessoas simpáticas e talvez houvesse um bónus monetário para quem participasse na conclusão. Não faças essa cara. Até parece que nunca aconteceram coisas muito mais estranhas. Lembras-te dos ursos polares? E da estátua? Felizmente, já falta pouco para ficarmos todos perfeitamente esclarecidos. Tu também. (Nós sabemos que nunca tens paciência para ler o guião todo e te limitas a decorar as tuas falas. Isso explica a expressão de “onde estou? o que faço aqui? para onde vou?” que fazes sempre tão bem.)

Este é o Richard. O Richard parece ser imortal e o mistério já foi desvendado num episódio anterior. Mistério maior é saber onde arranja eyeliner numa ilha perdida. Talvez descubramos no fim do episódio o seu armazém secreto de cosméticos deixados por uma galé naufragada de esteticistas cartagineses.

E este é o Miles. Além de reforçar as quotas de asiáticos no elenco da série (não era preciso… não havia tantos asiáticos numa série americana desde aquele episódio do Sexo e a Cidade em que a Carrie é seviciada numa prisão birmanesa), o Miles também comunica com os mortos. Porque as pessoas com capacidade mediúnica também mereciam uma representação.

Aqui vão eles. Duas personagens de relevância questionável numa canoa. Quase consegue ser poético.

Eu avisei. Tensão sexual. Depois dá nisto. Violência extemporânea.

O episódio vai a meio e a trama adensa-se. Já não era sem tempo. Isto, por exemplo, é muito importante. Pode parecer uma banheira de hidromassagem com decoração rochosa em gesso pintado, mas não. O busílis da história passa por aqui. Basta ver o enquadramento. Os equipamentos de casa de banho não costumam ter direito a planos tão demorados. E é pena.

Ui. Primeiro a banheira de hidromassagem e agora iluminação criativa. Começa a aquecer.

É agora! É agora! A grande revelação deve vir já a seguir!

Não veio. Mas pelo menos há acção. Acção também é bom. E podemos esperar um pouco mais. Só vai tornar o esclarecimento final ainda mais saboroso.

Outra vez? Bolas, Kate. Começa a tornar-se desagradável.

Isso mesmo. Contacto físico. Mas não estava a chover torrencialmente quando a cena começou?

O Sawyer também dá o devido valor ao contacto. E tem consciência de que o momento mais comovente do episódio está a segundos de começar. Olhos aguados e… já!

Está bem. Antes da conclusão esclarecedora, pode haver um bocadinho de sentimentalismo generalizado. Nós aguentamos. Mas depressinha, sim?  Tenta chorar com os dois olhos ao mesmo tempo, Hurley. Não há tempo a perder.

Quinze minutos para o fim e ainda não se explicou nada. A apreensão começa a instalar-se entre as hostes. Algumas personagens também não conseguem escapar-lhe. Aqui, o actor Josh Holloway pensa: “E se tiver passado seis anos no elenco da maior desilusão televisiva de todos os tempos?” Calma, Josh. Nada de alarmismos.

Calma, já disse! Vai correr tudo bem!

Eu não disse? Tudo se compôs. Como se pode constatar pelo choro de alívio e alegria e pela iluminação esperançosa. Agora que já tratámos da banheira de hidromassagem, vamos à explicação. Está na hora.

Não! Nem pensem. Não se ponham com climas vocês os dois. Tiveram muito tempo durante os seis anos anteriores. Falta pouco para acabar e há muitas explicações a enfiar em dez minutos. Talvez se voltem a encontrar numa comédia romântica qualquer dia.

É agora! Tem de ser agora! Chegou finalmente o momento! Vamos ficar todos a saber que raio se passou na maldita série durante este tempo todo! Vai ser fantástico! Vai ser inesquecível! Vai ser…

Hã?

Estão a brincar, não estão?

… Por favor, não. Assim não. Um sonho, uma alucinação colectiva provocada por marisco estragado, uma experiência de realidade virtual organizada por extraterrestres, mas uma explicação qualquer, por favor. Pode ser estúpida, mas que seja uma explicação a sério e não um remate absurdo inventado à última hora só porque não conseguiram desatar todos os nós cegos do argumento. Vamos. Ainda restam alguns segundos, ainda há tempo para…

… merda.

17 Comentários

  1. Fartei-me de rir da tua apreciação. Curiosamente (devo ser mesmo lerdaaaaaaaaa) como era uma coisa falada e cheia de “quês” tentei ver algumas vezes. Não consegui ir além dos 5 minutos. E sempre me interroguei o que viam as pessoas naquilo. Mas eu aceito que sou lerda. Até hoje com a tua apreciação… brilhante mesmo!!!!!!
    beijokinhas

  2. Gajo… gajo… gajo…

    Já vi, já acabou, já não há mais… Depois de ver duas vezes o duplo episódio (podia ser que não tivesse lá chegado da primeira vez…) a minha conclusão é a seguinte… UMA MERDA!!!!

    Como disseste e muito bem, eu sou da mesma opinião há já muitas temporadas atrás, eles não conseguiram desatar os nós que deram ao longo do argumento!!! E para concluir fizeram-nos esquecer da dicotomia BEM vs. MAL (porque aliás o Jacob está lá para proteger o mundo do homem de negro) de toda a razão do porquê daquela ilha existir, mostraram-nos que afinal, afinal é apenas uma experiência de vida comum e que todos depois de morrerem quiseram passar a eternidade todos juntos menos o Linus!!!! Mas que coisa tão esfarrapada!!! Uma série com potencialidade mas ao fim de contas tornou-se no maior faux pas da televisão!!!

    • R. Carreira diz:

      Acho que o Linus teve de ficar a expiar pecados durante mais uns tempos. É possível que os argumentistas se tenham convertido a meio da série.

  3. Gajo… gajo… gajo…

    Eu ainda não vi o último episódio, só amanhã… por isso não vou ler o post, nem os comentários. Depois volta cá outro dia para ajudar nas postas!!!

    • R. Carreira diz:

      Fica-se à espera.

      • Deixei de ver quando apareceram os números da lotaria gravados na escotilha (ou whatever era aquela coisa). Confesso que não sei se o avião já teria caído por essa altura; ou até se “aquilo” seria um avião.

        PS: Ammm! Não será melhor verificar se não terá acontecido algo ao(à) Cpt. Xilema??

        [ ]
        david

  4. É por isso, que prefiro pagar mais pela tv cabo, mas ter o pacote completo de canais para adultos. Os filmes que passam lá são ainda mais excitantes e menos burocraticos.

  5. António Nónimo diz:

    Brilhante descrição. ;)

    Quanto ao resto… Com uma série chamada “Perdido(s)” estavas à espera de quê?

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