O abominável homem de Chelas

Cândido Barradas era uma criança quando lhe chamaram “abominável” pela primeira vez. A réplica da Torre de Belém que levou à mostra de talentos da Escola Primária nº3 de Chelas era perfeita até ao último torreão e rendilhado manuelino, mas o professor foi implacável ao considerar que comida mastigada não era um material digno. Seguiu-se o epíteto, ouvido pela primeira de muitas vezes na sua vida. Chegou a casa e correu ao dicionário da pequena biblioteca familiar para descobrir o significado. Não o encontrou. O dicionário fora comprado em fascículos pelo pai e o modesto salário de domador de varejeiras não lhe permitiu completar a colecção, faltando-lhe os fascículos de A a CAD e o correspondente às letras W, X e Y (que não comprou propositadamente por achar que seria dispensável). O pequeno teve de esperar o fim das obras na biblioteca escolar para consultar um dicionário a sério e constatar que o que achava ter sido um elogio dificilmente o seria.

Foram tempos difíceis. Acabada de descobrir uma vocação para a expressão artística e já o pequeno se via forçado a aceitar opiniões  violentamente contrárias. Tornou-se assíduo na mesma biblioteca onde tanto chorara sobre o dicionário (a página 14 continua encarquilhada até hoje) e leu sobre génios incompreendidos cuja peculiaridade lhes demorou o reconhecimento: Picasso, Van Gogh, Kafka. Tinha também um exemplo mais próximo, o do seu tio Guilherme, encadernador profissional e muito hábil na construção de pequenas bonecas de pano com a cara de políticos famosos, que fazia questão de guarnecer com alfinetes de cabeça garrida e enviar aos retratados até uma visita da polícia e uma viagem dolorosa à esquadra o tornarem menos generoso.

Aos 14 anos, construiu um busto do pai inteiramente com fiambre e mortadela. A semelhança era inquestionável, mas o progenitor odiou e, num momento de embriaguez, chamou-lhe também “abominável” (a alcunha difundira-se de tal forma que Cândido passou a responder quando o chamavam assim). Nem o apreço do cão familiar pela sua obra conseguiu consolá-lo e o rapaz acabou por fugir de casa, vivendo durante seis meses na caixa de correio de uma vizinha, até ser desalojado pela chegada de uma encomenda postal de grandes dimensões.

O dinheiro amealhado durante esse período (não se sabe bem como, mas é verdade que a vizinha passou seis meses sem receber o cheque generoso da sua reforma de ex-prostituta de alto-mar) foi aplicado para pagar a inscrição numa escola de Belas-Artes, onde passou apenas quatro meses. O seu primeiro trabalho avaliado assemelhava-se em demasia, na opinião do júri docente, a uma pilha de torradas frias sobre a qual tivesse sido vertida quantidade copiosa de entranhas de peixe. O título (“Os Professores de Belas-Artes Cheiram Todos Mal da Boca”) também não ajudou. Na pauta de avaliação, a habitual nota de zero a dez foi substituída pela palavra “ABOMINÁVEL” escrita com maiúsculas vermelhas.

Depois de abandonar os estudos, Cândido sentiu-se traído pelo mundo da expressão plástica e decidiu voltar-se para a literatura. Regressou a Chelas, instalando-se na residência da família depois de uma comovente reconciliação com o pai (abundantemente regada com uma bebida artesanal fabricada no autoclismo lá de casa pela mistura de lixívia com vinho tinto e sopa de ervilhas enlatada) e pagou do próprio bolso a publicação do romance de estreia, prosa magistral e que seria, sem dúvida, candidata ao Nobel, não fosse pela temática escolhida: o romance tórrido e explícito entre um canalizador hemiplégico e o seu canário de estimação (aumentando a  polémica pelo facto de o canário ser macho – na altura, Portugal ainda não era o paraíso de liberalismo sexual que hoje conhecemos). A crítica poderia ter-lhe chamado muita coisa, mas a escolha do qualificativo voltou a recair no já esperado “abominável” e o autor foi expulso de casa quando o pai recuperou de uma bebedeira de três semanas e entrou em estágio para a seguinte.

A mágoa fê-lo endoidecer e tornar-se selvagem. Fê-lo tornar-se verdadeiramente abominável.

Acabou por se instalar numa caverna perto da Zona J, deixou crescer cabelo e barba, não voltou a lavar-se e passou a  exprimir-se apenas com urros e grunhidos, tentando morder quem lhe passava por perto. E tudo por querer partilhar o seu génio com um mundo que não o soube apreciar. A vida pode ser cruel para as almas generosas.

8 Comentários

  1. Até que um dia será promovido a primeiro ministro… :) beijokas

  2. Suspeito que ele neste momento está alojado no ISEL! Obrigado por me ajudar a descobrir a identidade daquele misterioso indivìduo.. se realmente for ele antevejo uma revolução na engenharia civil! a substituição do cimento por bolo alimentar à base de chocapic parece-me genial! Rectifico uns dados: este distinto senhor não corta o cabelo e barba apenas porque fez uma promessa, assim que conclua a licenciatura irá se desfazer da rasta gigante que o acompanha.

  3. O quê???
    O Malato é gay???

    • R. Carreira diz:

      Claro que não. Apenas foi a uma festa gay em Madrid, onde os convivas festejavam sem camisa.

  4. Como sempre: só terá o reconhecimento do grande público depois de morrer.
    A excepção a regra foi o Eusébio

    • R. Carreira diz:

      O Malato também foi reconhecido pelo grande público antes de morrer. Naquela festa gay em Madrid.

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