Feriados nacionais e outros que tais

É sobejamente conhecida a aversão dos portugueses à produtividade. As décadas passam-se, as ajudas e os incentivos chegam e partem e o país não passa da cepa torta. De quem é a culpa? É nossa, claro. De quem haveria de ser?  Os nossos governantes bem se esforçam para conduzir Portugal à prosperidade, mas nunca conseguirão alcançar o objectivo se o português comum continuar a não imitar a classe política nos sacrifícios constantes que faz para garantir uma viabilidade económica duradoura. Vejam-se os feriados, por exemplo. Simpaticamente, é-nos permitido festejar acontecimentos relevantes de índole religiosa, histórica e cívica com feriados em número generoso e que fazemos nós com eles? Aproveitamo-los para não trabalhar! Que cambada de inúteis. Depois, já sabe. O calendário (é gregoriano, não se esperava outra coisa) arma  das suas e um feriado acaba por calhar à quinta ou à terça. Vá de pedir ao Estado que permita também que a sexta e a segunda sejam incineradas na devastadora fogueira da preguiça. E o Estado, entidade benévola como uma mãe extremosa, não consegue dizer que não e lá se vão quatro dias para o galheiro. É preciso cortar o mal pela raiz, com a consciência inabalável de que, se o país está mal, devemos culpar o Corpo de Deus e a Restauração da Independência.

Em seguida, um calendário renovado dos feriados portugueses, elaborado com os olhos postos no défice e com a produtividade no coração. Passamos de 14 feriados para apenas 6. Um recorde na União Europeia, que nos permitirá lançar olhares de reprovação aos estados-membros com o mesmo número aproximado de feriados que nós tínhamos (e que são quase todos).

1 de Janeiro: Dia Nacional da Ressaca

Substitui-se a repetitiva comemoração do início de mais um ano por um feriado pragmático, oficializando-se a sua utilização prática, há muitos anos, como dia para recuperação dos excessos alcoólicos da noite anterior. A celebração alternativa e obscura da Solenidade de Maria Mãe de Jesus poderá substituir-se por uma jornada de arrependimento por aquilo que se fez no calor da festa e com a desinibição alimentada pelo álcool e que atormentará os arrependidos durante o ano que se inicia (até fazerem pior na passagem de ano seguinte).

25 de Abril: Dia das Ocorrências Históricas Recentes

Além da revolução de 74, passará a celebrar-se também neste dia a entrada de Portugal na CEE, a realização da Expo 98 e do Euro 2004 e os feitos ocorridos nos 50 anos anteriores que mais orgulhem o partido que estiver no governo. Quando uma efeméride ultrapassar os 50 anos, passará automaticamente a ser celebrada em feriado específico (ver 5 de Outubro).

1 de Maio: Dia do Sindicalista

Porque há muito que o Primeiro de Maio deixou de servir para celebrar o trabalho e passou a ser preenchido com proclamações efusivas dos méritos da actividade sindical, o feriado é alterado em consonância. Continuarão a realizar-se os habituais piqueniques, comícios, passeatas políticas em contra-relógio e recitais de discursos à desgarrada. Nota: Por ocorrer apenas um punhado de dias após o 25 de Abril, o feriado do 1 de Maio manterá a designação, mas passará a celebrar-se, por conveniência, em Setembro, mês até aqui desprovido de feriados.

15 de Agosto: Assunção da Imaculada Conceição do Corpo de Deus, de Maria e de Todos os Santos

Feriado menos lesivo para a produtividade por ocorrer no mês em que a maioria dos portugueses opta por gozar as suas férias. Destinado à celebração pelos católicos das festividades religiosas anteriormente dispersas por todo o ano e ocupando desnecessariamente vários feriados.

5 de Outubro: Dia das Ocorrências Históricas Remotas

Celebração de todas as datas históricas ocorridas há mais de 50 anos, incluindo as que eram anteriormente celebradas em feriados próprios (Restauração da Independência e Implantação da República) e outras que a adequada preservação da memória histórica justifique (como, por exemplo, aquele dia muito relevante da nossa história em que um rei/príncipe/navegador qualquer tomou aos mouros/dobrou um cabo/proclamou/fez qualquer outra coisa relevante e merecedora de ser lembrada).

25 de Dezembro: Natal

É quando um homem quiser. E, como tal, passará a realizar-se em data móvel discutida e votada em sede parlamentar no último dia útil da segunda semana do terceiro trimestre de cada ano (bissexto ou não).

Feriados extintos

Carnaval

Diz-se que a vida são dois dias e o Carnaval são três. Ou seja, estamos perante o desperdício de um dia de trabalho que camufla o desperdício de três. É inaceitável.

Páscoa

Seja como for, calha sempre ao domingo e não valerá a pena que continue a ser feriado. Poupa-se um item nas listas de feriados oficiais. O défice agradece.

Sexta-feira Santa

Um dia para recordar a crucificação de Cristo e outro para recordar a ressurreição? Não querem mais um feriado para celebrar aquele dia em que Cristo decidiu sair de casa para espalhar a Palavra, mas acabou por voltar para trás porque estava a chover? Nem pensar.

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

E das sobremesas à base de claras de ovo, do calçado confortável, dos moinhos de vento e das árvores de folha caduca, já agora? A extinção de um feriado tão forçado nem sequer precisa de explicação. Não precisamos de um dia dedicado à entrega de medalhas a uns quantos gatos-pingados. E os emigrantes podem ouvir o Tony Carreira e o Quim Barreiros nos feriados dos países respectivos. Além disso, o Camões já tem estátuas e praças com o seu nome. Não se pode querer tudo.

12 Comentários

  1. Primeiro a parte engraçada (é engraçado porque é verdade…) é que as tolerâncias de ponto são apenas para a função pública!!!

    Mas o pior de tudo isto é que, há muita gente que ainda se interroga porque raio não se muda o feriado de 15 de Agosto!!! “- Um feriado nas férias?!? Isso é pior que um feriado ao Domingo!!! Preciso de um feriado na férias como preciso de um segundo olho do cu!!!”

    • “Um segundo olho do cú”
      Com tanta gente talentosa neste país e entregaram o nobel ao Saramago

      • Sim, olho do cu!!! E não olho do cú!!! Quando mandares “postas de pescada” fá-lo com o português adequado!!!

        Para ti pode ser “Preciso de um feriado na férias como preciso de um tiro no pé!!!” percebeste o estilo de escrita que utilizei?!?! Espectáculo!!!

  2. E agora aqueles que o negaram e que agora o exaltam vão escrever um livro: o evangelho segundo Saramago.
    E vais ter de te conformar com o novo feriado: o dia de Saramago.
    :P

  3. está bem pensado. Eu penso até que como o nosso querido (des)governo tanto faz devíamos acabar com essas coisas de feriados. Assim éramos um exemplo para o mundo!
    :)))))) beijokas

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