O espírito 12 de Março

Deolinda-a-Velha, 16 de Março de 2021

Sentado nesta varanda da resplandecente capital do Portugal novo, do Portugal saído do 12 de Março de 2011, é difícil acreditar que passou já uma década desde o momento mais marcante da história portuguesa neste segundo milénio. Mais difícil se torna quando, no horizonte próximo, se avista a secular cidade de Lisboa, capital do Portugal precário, totalmente arrasada em 2014 e reconstruída em Legos inabitáveis depois da fuga dos últimos arquitectos para mercados mais lucrativos. Erguendo-se sobre as coloridas e lúdicas construções, os dois monumentos que celebram a nossa viragem: a colossal estátua irónica de Quim Barreiros segurando a Constituição da República como se fosse um acordeão e o grandioso Arco de LOL, construído com pedra dos escombros do Aqueduto das Águas Livres depois de fracassar a relocalização do monumento como terceira ponte sobre o Tejo.

Confesso que não fui dos primeiros a aderir ao movimento. Senti alguma relutância em aderir à “Geração à Rasca”, que começou com jovens licenciados e acabou por englobar toda a população do país. Mas, logo que percebi que o movimento sairia vencedor e porque gosto de ficar do lado de quem ganha, rendi-me às evidências e fui acolhido de braços abertos entre os meus novos camaradas de luta.

Em boa hora o fiz. Ainda em 2011, uma das reivindicações que evoluiu a partir do protesto inicial (o afastamento de toda a classe política) foi atendida após muitas horas de vigília. E nem a constatação de que não havia quem substituísse os políticos desanimou as hostes. Sem perder tempo, desenvolveu-se um modelo único de democracia directa alicerçado no Facebook, com os titulares de cargos públicos a serem escolhidos por número de “likes”.

Qualquer possibilidade de regresso ao passado ficou definitivamente posta de parte quando, em 2012, os políticos foram reconhecidos como espécie à parte e encerrados no arquipélago das Berlengas, juntamente com a totalidade das reservas nacionais de ouro, condição que juraram imprescindível à subsistência sadia do seu modo de vida. Apenas dois meses se passaram e, na primeira visita de um biopolitólogo às ilhas, verificou-se que se tinham devorado uns aos outros e que nenhum deles estava vivo. O ouro desaparecera misteriosamente. Apenas se encontrou um carro de alta cilindrada com motorista, que garantia estar “à espera do senhor secretário de Estado e de uma amiga” enquanto lia o Correio da Manhã. Mais estranho se torna o caso com a constatação de que não existia sequer um metro de estrada no arquipélago.

O primeiro líder eleito pelo novo método foi Jel, vencedor do Festival da Canção e um dos grandes teóricos do movimento, que assumiu a chefia dos destinos do país no final do ano, abandonando o nome artístico e passando a assinar com o de baptismo, Jesuíno Charalhoca. Sob a liderança esclarecida do presidente Charalhoca (autoproclamado imperador Jesuíno I duas semanas depois), assistiu-se à aplicação do método Farmville à produção agrícola e nem a crise que se seguiu à compreensão súbita de que as batatas levam um pouco mais de três dias a desenvolver-se e a fome desesperada abalaram a solidez das nossas convicções. Esta primeira crise culminou na deposição violenta do líder, depois de este ter usado o que restava dos fundos públicos para nivelar a Serra da Estrela, substituindo-a por uma montanha de misterioso pó branco com altura idêntica e trocando as responsabilidades de Estado pela prática pitoresca do esqui nasal.

Seguiu-se um breve período de seis anos de guerra civil entre os partidários da democracia directa pelo Facebook e uma corrente retrógrada e reaccionária que advogava os méritos de uma democracia parlamentar assente no Hi5, vencida pelos primeiros após prolongamento e desempate por pontapés na gramática (dois “faze-mos” contra um “percário”).

Restaurada a paz, veio nova medida revolucionária: a obrigatoriedade de empregar todos os licenciados de forma a aproveitar as suas competências académicas, bastando para isso, no estado apocalíptico a que a nossa economia se vira reduzida, alterar ligeiramente os currículos de cada curso. Assim, os cursos de Sociologia passaram a formar especialistas em recolha de lixo comestível, os cursos de Ciências da Comunicação oficializaram a sua vertente de prostituição e apenas os cursos de Direito não se alteraram, continuando a formar caixas de supermercado capazes de debitar máximas em latim.

Hoje, uma década após a grande viragem, continuamos firmes nos nossos ideais. Olhamos para a nossa líder, a jovem Lyonce Viiktórya, filha de Yannick Djaló, um dos maiores futebolistas na história do extinto Banco Espírito Santo FC, e de Luciana Abreu, uma conhecida pessoa (ambos tragicamente falecidos enquanto tentavam fazer torradas na banheira), convictos de que saberá conduzir-nos a um futuro glorioso e de que a imbecilidade congénita não impedirá ninguém de alcançar a grandeza.

7 Comentários

  1. devem ter cheirado a Serra da Estrela e andam a procura de gente parva

  2. Parece um surto psicótico.

  3. Já sei !!

    Os Deolinda, foram com o pai natal e o palhaço no comboio ao circo?

  4. António Nónimo diz:

    Como diria o Ray Charles: “vejo tudo negro”.

  5. O futuro é tão brilhante que tenho de usar óculos escuros. Ou como respondia a minha queridissima avó quando eu, catraia cheia de ilusões e bons propósitos, lhe perguntava “ó avó, como achas que vai ser o futuro?”, “ó neta, o futuro está cagado.”

  6. E os Deolinda? que lhes acontece?

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