
Acordei sem sentir as pernas. Doía-me o pescoço, a cabeça, os braços, mais o direito que o esquerdo. Doía-me tudo. Até a alma. Senti dedos frios forçarem pálpebras doridas a abrir. Uma cara de lua cheia com narinas peludas apontava-me um minúsculo ponto de luz. Gemi.
— Como se sente? — perguntou, movendo a cabeça para me olhar de um lado e do outro.
Respondi-lhe com palavras dolorosas.
— Mal.
Tentei mexer os dedos dos pés. Não consegui. Decidi partilhar a descoberta.
— Não sinto as pernas.
O médico deu quatro passos para o fundo da cama e apertou-me o dedo grande do pé direito.
— Não está famoso, não…
Havia formas mais delicadas de transmitir o diagnóstico.
— É permanente?
Olhou-me, sem perceber.
— Ainda não sabemos. Foi operado e continua sem acordar.
Então fora operado. Curioso. Não me sentia operado. Mas alguém que tivesse sido operado o sentiria? Logo a seguir, ocorreu-me que algo não fazia sentido.
— Continuo sem acordar? — perguntei.
O médico pareceu ainda mais confuso que antes, voltando a aproximar-se e apontando-me novamente a pequena lanterna semelhante a uma caneta.
— Lembra-se do que aconteceu?
Era uma pergunta muito válida. Pensei no assunto. Sim, lembrava-me do que acontecera. A passadeira à saída do bar, o cheiro a maresia trazido pela brisa, o Ferrari voando sobre o asfalto, rugindo, cada vez mais perto…
— Parece-me que fui atropelado — disse.
O médico voltou a guardar a lanterna e acenou com a cabeça.
— Sabe quem o atropelou?
Engoli, arrependendo-me ao perceber a total ausência de saliva.
— Um Ferrari a duzentos à hora?
A julgar pela expressão horrorizada, não seria aquela a resposta certa. Senti os olhos fecharem-se.
Quando voltei a acordar, uma enfermeira gorda debruçava-se sobre mim. Tinha a cabeça virada para a janela e vi que era noite. Fora dia antes? O Ferrari veio a meio da noite. Disso lembrava-me. Ouvia um barulho estranho.
— O que é isto? — tentei perguntar. Só a última palavra foi audível. A enfermeira espetava-me qualquer coisa no braço.
— É para lhe tirar as dores — respondeu.
— Não… Lá fora.
Eram vozes. Estavam a cantar? Mas porquê? A enfermeira disse mais alguma coisa, mas não a consegui perceber. Fechei os olhos por um segundo. Quando voltei a abri-los, era de dia outra vez e tinha uma fulana demasiado maquilhada aos pés da cama.
— Como se sente? — perguntou.
Continuavam a cantar lá fora.
— Já respondi a isso.
A mulher olhou-me, confusa. A seguir, voltou a cara para a porta, retirou qualquer coisa da mala e aproximou-se da cabeceira. Ofereceu-me o que tinha na mão. Ergui um braço para aceitar, mas as dores fizeram-me mudar de ideias. Logo a seguir, percebi o que me estendia. Um gravador.
— Sabe o que lhe aconteceu?
“Menina doce como mel, Quero ser o teu amor, Quero levar-te até ao céu, Quero dar-te o meu calor.”
— Não rima.
Voltou a olhar rapidamente a porta.
— Desculpe?
— Não rima. O que estão a cantar lá fora. Mel não rima com céu. Só no Brasil.
— Não se preocupe com isso. Conte-me o que aconteceu.
Recordei novamente o Ferrari. Um grito agudo quando ia a meio da passadeira. O impacto. Dor. Sentir-me lançado ao ar e embater no chão depois de um voo demasiado longo. O ruído dos travões. A inconsciência.
— Fui atropelado? — A interrogação surgiu sem querer.
A mulher acenou com a cabeça.
— Sabe por quem?
Abanei a minha.
— Sabe quem é Frederico Lawson?
Quem?
— Um cantor? Um gajo qualquer?
Não era bem aquilo que queria dizer, mas algo me impedia de filtrar as palavras.
— Cantor, antigo vocalista da boys-band “Teen Power” e um dos actores mais bem pagos no elenco da telenovela juvenil “Corações de Papel”. O que acha dele?
Não sabia sequer se achava alguma coisa, mas isso não me impediu de responder.
— Acho que é um merdas sem talento. Seduz miúdas de doze anos que deviam estar na escola em vez de atirarem os seus primeiros soutiens a um gajo em tronco nu no palco.
Um sorriso ainda maior que o anterior.
— Os seus amigos dizem que estava embriagado. Porque decidiu atravessar a rua naquele momento?
— É verdade que tinha bebido uns copos, mas estava numa passadeira. — Ouvi uma voz, mas não a vi mexer a boca. Não era sua. Havia mais alguém a falar. Uma enfermeira berrando junto à porta. Qualquer coisa sobre “autorização” e “horário de visitas”.
Pestanejei e tinha o médico segurando-me o pulso e pressionando-o com dois dedos. Outra vez de noite. Viu que o olhava.
— Agora é que a fez bonita — disse, pousando-me o pulso na cama e ajeitando um saco de soro.
— As minhas pernas? Continuo sem as sentir.
Ignorou a pergunta.
— A sua situação já era má. A entrevista piorou tudo.
— Qual entrevista?
Lembrei-me da mulher com o gravador enquanto o médico respondia algo que não consegui perceber. Vi-o dar aos lábios, mas não ouvi nada. Devo ter perdido os sentidos porque, logo a seguir, vi que passara para o lado oposto da cama.
— Antes, acusavam-no de homicídio involuntário — disse. — Havia a atenuante do excesso de velocidade, dos vestígios de cocaína no organismo da vítima e do facto de viajar com duas menores despidas. Além disso, as calças pelos tornozelos dificultavam o controlo dos pedais. Agora, depois de admitir que lhe desejava a morte e que estava bêbado…
Mais uma coisa que não fazia sentido.
— Mas eu é que fui atropelado. A vítima sou eu!
— Não se exalte — disse o médico.
Era impossível não me exaltar. Vi-o erguer novamente as mãos para o saco de soro. Continuei a manifestar-lhe a minha justa exaltação pela injustiça do que acontecia, mas era possível que já dormisse quando o fiz.
— ASSASSINO! ESTUPOR! CABRÃO DE MERDA! ASSASSINO!
A mulher tinha argolas douradas grossas nas orelhas, que se moviam com cada tentativa para escapar aos braços da enfermeira que tentava segurá-la. A maquilhagem escorria-lhe pela cara abaixo, levada pelas lágrimas. Cuspia-se com cada insulto. Uma mulher mais nova e igualmente chorosa tentava também restringi-la, mas com menos empenho. Parecia-me que já a teria visto na televisão. Havia menos ódio nos seus olhos, mas estava lá. A mulher histérica foi arrastada para fora sem parar de berrar (FILHO DA PUTA! ASSASSINO! PANELEIRO!) e fiquei sozinho. Voltei a adormecer.
Fui acordado por um clique. A primeira coisa que vi foi o tecto branco. A segunda foi o sujeito de bigode e tez arroxeada de quem bebia demais. Além de não sentir as pernas passara a não sentir também os braços. Não. Não era bem isso. Sentia os braços, mas não conseguia erguê-los por algum motivo. Havia mais alguma coisa a impedir-me além da dor. Voltei a cara e percebi o que era. Tinha a mão direita algemada à cama. Não precisei de olhar para perceber que se passava o mesmo com a esquerda. O sujeito de bigode espreitou-me e fez sinal a alguém.
— Está acordado? — perguntou um segundo sujeito, muito alto e com cicatrizes de acne na testa larga. Vendo que sim, dirigiu-se-me. — Cabe-me informar que foi formalmente acusado do homicídio premeditado de Frederico Gonçalo dos Santos Madeira Pinto Lawson. — Olhou a palma da mão como se tivesse o nome lá anotado. E teria, provavelmente. — Será transferido para um hospital prisional logo que os médicos lhe dêem alta.
— Mas porquê? — foi a única coisa que me ocorreu dizer.
Uma mão áspera apertou-me o pescoço e a cara do sujeito de bigode preencheu-me o campo visual por completo. Estava ainda mais roxo que antes. Gritava e sentia-lhe o hálito a bagaço e a podre.
— Tenho uma filha de catorze anos que não pára de chorar por tua culpa, cabrão! Se não se conseguir controlar, a médica diz que pode perder a criança!
— Rocha! — O outro homem puxou-o para trás. O aperto no pescoço não piorou muito as dores que já sentia. — Vamos embora. Não vale a pena sujar as mãos com merda desta.
Saíram. Continuava com a boca seca. Lá fora, voltavam a cantar. Era a mesma canção que ouvira antes. “Menina dos olhos cor de mar, Quero que sejas a minha princesa, Vem cá quero te amar, Vem sentir como a tenho tesa.” Fechei os olhos a meio e completei a letra já a dormir. Não seria exactamente assim, mas não andaria longe.
Vrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr.
O ruído começou de repente. Havia uma miúda caminhando à volta da cama, puxando uma cortina verde que nos tornava invisíveis do corredor. Seria alta para a idade, mas não passava de uma criança. Teria entrado na adolescência há muito pouco tempo e ainda não havia grandes vestígios de mudança física. Vestia uma espécie de faixa preta rodeando-lhe o peito liso e tinha um piercing no umbigo. O cabelo era louro com raízes escuras e a loucura visível nos olhos não tinha idade. Passou uns segundos a olhar-me fixamente. Tentei dizer alguma coisa, mas não consegui. Sentia a boca tão seca. Lá fora, vozes esganiçadas continuavam a cantar. A rapariga ergueu a almofada da cama vazia ao lado e aproximou-se.
A fronha cheirava a desinfectante. Ouvindo as vozes que cantavam, com as mãos imobilizadas e desistindo de tentar respirar, lembrei-me de uma pergunta da mulher com o gravador que ficara sem resposta. “Porque decidiu atravessar a rua naquele momento?”
“Menina jóia de rubi, Vem comigo para dançar, Quero cobrir-te com chantili, Quero sobre ti vomitar.”
Ocorreu-me a resposta perfeita. Porque decidi atravessar a rua naquele momento? Para chegar ao outro lado.
E ri-me.
Em que canal vai passar essa novela? SIC? TVI?
Penso que será no National Geographic.
Isto é tão bom que até dói.