História do Mundo – Director’s Cut: Lava borbulhante, salamandras afoitas e estrume de diplodoco

Segundo James Ussher, arcebispo da Igreja Anglicana Irlandesa e grande apreciador de tostas, a Terra foi criada na noite de 22 para 23 de Outubro do ano 4004 a.C., com a data precisa resultando de cálculos matemáticos rigorosos feitos a partir de informações constantes na Bíblia. Isto é, obviamente, um grandessíssimo disparate. O planeta em que vivemos não foi criado na noite que antecedeu o dia 23 de Outubro de 4004 a.C., um domingo, mas sim na quarta-feira seguinte, pelas dezassete horas e vinte e sete minutos, a tempo de ver o sol pôr-se sobre um imenso lago de lava incandescente. O dia estava muito aprazível. Temperaturas na ordem dos oitocentos graus centígrados, com algumas nuvens de sulfeto de hidrogénio no céu permanentemente arroxeado e uma brisa constante e prazenteira com um aroma pungente a ovos podres.

O que significa que os defensores do criacionismo estão certos. O mundo foi realmente criado por Deus e foi também o dedo divino a comandar tanto o arrefecimento da crosta terrestre como, ao longo de milhões de anos, a origem das primeiras formas arcaicas de vida. Começaram por ser simples células, aglomerando-se em jovial folia e, por isso mesmo, demorando outros milhões de anos a evoluir para bactérias e insignificantes aglomerados de gosma, nossos antepassados remotos, sendo possível encontrar semelhanças em termos de personalidade, carisma e inteligência entre alguns humanos actuais e estas primordiais ranhocas.

Muito mais tarde, já com a superfície terrestre coberta com plantas e fungos de todos os feitios e com graus de apetibilidade muito variados, com peixes e moluscos nadando nos oceanos, com crustáceos crustaceando inocentemente sem qualquer preocupação com marisqueiras futuras, com répteis arrastando-se pelo solo, anfíbios mantendo-se indecisos entre o seco e o molhado e insectos zumbindo um pouco por toda a parte e aprendendo formas criativas de se tornarem incómodos, o Criador entediou-se. A Terra fora divertida de criar, moldar e povoar (exceptuando a parte da separação entre luz e trevas, que fora uma valente estopada), mas o seu potencial lúdico estava esgotado. Chegara a altura de partir para outro passatempo qualquer e deixar o planeta entregue a si próprio.

Com um último toque para sair em grande.

Impelido por um sentido de humor cósmico e indecifrável, o Criador decidiu que seria hilariante voltar-se uma última vez para a Terra e para as suas frágeis criaturas e deixar-lhes cair em cima duas mãos cheias de lagartos gigantes.

Assim, há aproximadamente duzentos e trinta milhões de anos, após um intervalo no período Triássico para decidir o que fazer a tantos fetos gigantes e com os continentes ocupados no seu moroso processo de separação litigiosa, surgiram na terra os dinossauros, criaturas portentosas e com grande variedade de formas, dimensões e hábitos que, ao longo dos cento e sessenta milhões de anos seguintes, seriam a forma de vida dominante do planeta, esmagando, trucidando ou engolindo qualquer animalejo, planta ou fungo que se atrevesse a discordar.

As coisas foram correndo de feição aos dinossauros durante o que restava do Triássico, mas foi apenas no período Jurássico que pela primeira vez se verificaram as condições ideais para pensar numa adaptação ao cinema. Infelizmente, os cérebros do tamanho de nozes, avelãs e outros frutos secos com que os dinossauros tinham sido dotados eram incapazes de conceber um projecto cinematográfico com cabeça, tronco e membros (e cauda; e garras; e fileiras de dentes afiados como punhais). Poderá mesmo atribuir-se a esta ambição irrealista uma parte da culpa pela distração generalizada no período seguinte, o Cretácico, que impediu a maior parte dos dinossauros de se desviarem de um enorme asteróide. Como resultado, a vida na Terra perdeu interesse até que, há seis milhões e meio de anos, um macaco insignificante desceu da árvore para apanhar um saboroso pedaço de gosma que deixara cair (sem desconfiar que era seu primo distante), percebendo então que a savana tinha grande potencial para condomínios de férias, centros comerciais e um ou outro parque aquático.

3 Comentários

  1. Peuga Velha diz:

    Mas… mas… onde é que estão as afoitas salamandras comedoras de estrume de diplodoco?…
    Sei que a gosma primordial aparentada de alguns humanos também é gira, mas… as aslamandras afoitas?… onde estão, by God??!!

    • R. Carreira diz:

      As salamandras foram tão afoitas que rastejaram por ali sem ninguém dar por elas.

  2. Luísa S. diz:

    Está brutal!

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