História do Mundo – Director’s Cut: Uga buga

Criaturas rudes e toscas, com corpos cobertos de pêlo, movimentos bruscos e comunicando por meio de grunhidos animalescos. Cérebros grandes, mas incapazes de pensamento racional complexo e limitando o seu escasso intelecto à compreensão rudimentar de um sistema de interacções sociais primitivas. Mas o homem moderno nem sempre foi o paradigma de perfeição acima descrito e precisámos de evoluir durante milhões de anos para chegar até aqui.

Entre os primeiros hominídeos (criaturas que eram quase humanas, mas que nunca conseguiriam atar os próprios sapatos mesmo após anos de prática e postulando que existiriam sapatos no período remoto em que viveram ou até a necessidade de uma qualquer forma de calçado), o mais charmoso foi o australopiteco, que evoluiu no continente africano há quatro milhões de anos, mais minuto menos minuto, e que se tornaria extinto num piscar de olhos, dois singelos milhões de anos mais tarde. O seu nome, atribuído por paleontólogos na primeira metade do século XX, deriva de uma aglutinação de “australo”, termo relativo à localização austral dos primeiros fósseis, e “piteco”, da expressão latina para “macacão cabeludo”.

Particularmente relevante foi a descoberta em 1974, na Etiópia, de fragmentos do esqueleto de uma fêmea de australopiteco a que se chamou “Lucy”. A disposição dos fragmentos indicou que “Lucy” se encontrava ajoelhada quando morreu, tendo a seu lado outra fêmea de menores dimensões, a que se chamou “Hyacinth”, e um macho juvenil, “Francis”. Por motivos desconhecidos, os três indivíduos prostravam-se em adoração diante de um objecto de grandes dimensões que os arqueólogos descrevem como “um grande monólito negro outrora colocado em posição vertical”.

No início do Plistoceno, o Homo Habilis (“Homem Jeitosinho de Mãos” em latim), destacou-se pela enorme sofisticação no fabrico de ferramentas de pedra, que, após um par de milhões de anos para que assentasse a consciência de que as “ferramentas sofisticadas” eram, na verdade, apenas “calhaus sem jeito nenhum”, se deixou extinguir cheio de vergonha. Mesmo assim, as ferramentas de pedra perduraram e continuaram a evoluir até, finalmente, alguém decidir que bastava de pedra lascada quando se poderia usar algo mais moderno e elegante como, por exemplo, um maxilar de zebra preso a um pau.

O Homo Erectus teve a sua origem também em África e migrou até à Ásia, vivendo do fim do Plioceno até ao Plistoceno tardio. Foi baptizado por Inácio Gonçalves, castiço paleontólogo popular português, tendo sido o único nome de sua autoria a perdurar, tornando-se obsoletas as designações Homo Testiculus e Homo Cunnilingus, que atribuiu a outras espécies de homem primitivo. Malogrado o esforço para se tornar um cientista conceituado, Inácio Gonçalves dedicou-se à imprensa, tendo editado a revista erótica Australopitecas Desvairadas durante alguns anos, até à sua morte trágica envolvendo um barril de ginjinha e um par de chinelos por estrear.

Acredita-se que terá sido o Homo Erectus o primeiro antepassado do homem actual a dominar o uso do fogo, que permitiu grande avanço evolutivo pelas suas inúmeras aplicações, incluindo a possibilidade de cozinhar os alimentos para os tornar mais fáceis de mastigar e diminuir a necessidade de dentuças inestéticas e maxilares de quebra-nozes. Não se tratou do primeiro método de preparação alimentar, apesar de ter sido o mais eficaz, já que o método usado até então (envolvendo a passagem dos alimentos pelo tracto digestivo de um mamute) era gastronomicamente limitado, apesar de produzir ocasionalmente resultados bem saborosos.

Há cerca de centro e trinta mil anos, o Homem de Neandertal decidiu que a melhor forma de celebrar o seu corpo relativamente desprovido de pêlos seria cobrindo-o com peles de animais. Este clamoroso tropeção estético foi compensado pelas aplicações práticas do vestuário durante glaciações que faziam o clima oscilar entre aprazíveis verões de borrasca nevada constante e invernos em que era possível enfiar o nariz fora do abrigo sem o perder para o gelo ou para um tigre dentes-de-sabre mais faminto.

Estes colossos (parece que eram encorpados) habitaram uma área desde a Europa à Ásia Central e, apesar de brutos, tinham também um lado sensível, decorando cavernas com pinturas intrincadas, dedicando-se a ritos religiosos complexos e aprimorando as primeiras formas de dança interpretativa.

Foi durante um recital subordinado ao tema “O Grande Urso Castanho e a Angústia Existencial do Caçador Perante o Alce Acobardado” que o Homo Sapiens (“Homem Com a Puta da Mania” em latim) chegou à Europa, passando os seus primeiros momentos no novo continente considerando que Grog, o intérprete do Alce Acobardado, era medíocre e que a encenação de Barg era banal e derivativa.

Existem várias teorias acerca das origens do homem moderno. Uma delas, a teoria dominante na actualidade, argumenta que o Homo Sapiens terá evoluído num período relativamente recente, entre duzentos e cento e cinquenta mil anos antes dos nossos dias, migrando das suas origens africanas para a Europa entre cento e vinte e cinco e sessenta mil anos atrás, acabando por substituir as populações locais de Homem de Neandertal por vestir melhor, conseguir articular palavras difíceis e atingir níveis de crueldade na crítica artística que mantiveram os Neandertais num constante estado de insegurança performativa.

Outra teoria, menos difundida, defende que o Homo Sapiens apenas chegou à Europa há cerca de vinte mil anos, após alguns milhares de anos confortavelmente instalado nos frondosos bosques da Antárctida, apanhando pinhas e cogumelos. Esta segunda teoria tem merecido interesse limitado da comunidade científica, sendo conhecida como “Teoria Bucólica Polar da Evolução Humana” ou, simplesmente, “Teoria Completamente Idiota”.

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