Carta aberta a Vítor Gaspar

Prezado senhor ministro,

Dê-me só um segundo para conferir o significado de “prezado” no dicionário e ver se é mesmo o que lhe quero chamar… Não é, mas não faz mal. Não sejamos picuinhas. Até porque, nesta altura, já não se deve importar com o que as pessoas lhe chamam. Qual foi a pior coisa que ouviu? Já lhe atribuíram hábitos sexuais peculiares? Já aludiram à solidez moral da senhora sua mãe? Talvez do senhor seu pai? Talvez dos dois juntos, aliados a um tio e a um vendedor ambulante com o seu burro, após serão bem bebido? E algum meliante sem respeito tentou ser criativo com o seu apelido embaraçoso?

Não falo de Louçã, mas do outro ainda mais embaraçoso: Rabaça. Imagine a tragédia se os populares perdessem o pouco respeito que ainda lhe têm (e que já era muito pouco antes do anúncio das medidas de austeridade por inerência do cargo que ocupa) e deixassem de lhe chamar coloquialmente “o Gaspar” para passarem a chamar-lhe “o Rabaça”. Alguns até poderiam fazer rimas. Já se sabe que o povo tem veia poética. Felizmente, não me ocorre nenhuma palavra rude com terminação em “aça”, mas há “potassa”, “arregaça”, “caraça”…

Lembrei-me agora mesmo de uma bastante rude. Até corei. Imagine que, certo dia, a caminho do parlamento com o seu habitual passo decidido para anunciar um imposto especial sobre alívios da tripa, ouve um popular sem escrúpulos nem educação gritar-lhe do fundo da escadaria: “Ó Rabaça, vai levar na…” É melhor não dizer. Não quero que me acusem de fomentar desrespeito às instituições.

Contrariamente ao que possa esperar, não lhe venho falar das inúmeras medidas pelas quais tem dado a cara. E até compreendo que o país tenha as finanças num estado calamitoso e que seja preciso fazer sacrifícios. Não percebo como é que vamos conseguir relançar a economia quando estivermos todos na fila para a ração quinzenal de pão, mas isso é porque, manifestamente, não percebo nada de economia. E quando digo “todos”, não é bem a todos que me refiro. Hã, hã? (piscadela de olho).

Do que quero mesmo falar-lhe é da sua forma de expressão verbal porque é algo que me afecta quase tanto como os impostos extraordinários e o aumento do IVA. Um destes dias, via-o sendo entrevistado na televisão quando, de repente e sem pensar, peguei numa caneta. Enquanto o ouvia explicar da forma que lhe é característica a necessidade de roubar subsídios de Natal (disse “roubar” por lapso; queria dizer “furtar”) a trabalhadores com rendimentos banais, fui erguendo lentamente o braço e só percebi o que fazia quando tinha o bico afiado da caneta muito perto do globo ocular.

Pergunto: precisa mesmo de fazer pausas de trinta segundos a cada duas palavras? Isso é premeditado, para deixar claro que é diferente dos políticos profissionais e da sua retórica demasiado fácil ou há outro motivo? Responda-me só se quiser, pois não é da minha conta. Tem moluscos na família? Talvez um bisavô caracol ou mesmo um tio lesma? (Não, o primo Francisco Louçã não conta.) Ou talvez seja algum atraso e, se for, peço desculpa por puxar o assunto. Continue a falar como bem lhe apetecer e celebraremos o seu direito a ser diferente.

Outra coisa. Precisa mesmo de dizer tantas vezes frases como “gostava de responder à sua pergunta, se me permite” ou “considero essa pergunta muito relevante”? É que, se já estamos a perder dezassete minutos das nossas vidas para o ouvir dizer oito palavras, talvez fosse menos penoso ir directo ao assunto. E aposto que nunca lhe ocorreu como parece um cabeçudo insuportável quando responde a afirmações contrárias com “não concordo consigo”, sem acrescentar qualquer justificação. Do olhar de carneiro mal morto que fixa nos seus interlocutores, não falo porque cada qual sabe de si.

Também lhe queria perguntar se isso que traz na cabeça é mesmo cabelo ou algum barrete de cobrador medieval em pêlo de urso, mas já me alonguei demasiado e terá de ficar para uma próxima oportunidade.

Despeço-me com a amizade possível e desejo-lhe a maior sorte na sua carreira política e na sua vida pessoal.

Renato Carreira

PS: A parte de “desejar a maior sorte” era a brincar.

9 Comentários

  1. Só estou a ver 3 respostas. Onde estão as outras 4?

  2. Eu acho que de qualquer forma, as coisas são assim tão coiso. O melhor é depois. A vida tem…eu é que me lembro como foram aqueles dias. Vocês não sabem o que dizer, e escrever. Eu sei. Tiva lá e vivi.

    (Isto sim é um comentário)

  3. Esta carta não acrescenta nada. É só uma tentativa ridícula e frustrada de insulto fácil. Torna-se insuportável quando se imagina o sorriso vitorioso de quem a escreveu, convencido de que fez uma brilhante análise sobre o ministro, em tom de gozo e estilo trágico-cómico. Triste é que nem para o humor tem jeito. Concorde-se ou não com as medidas, não li aqui as alternativas. No fundo perdi o meu tempo. Muito Obrigado por nada.

  4. Melhor que a carta, só mesmo a resposta ao carlos vieira!

  5. carlos vieira diz:

    Acho relativamente deselegante a forma como o prezado se refere ao membro de governo que tão e também contribuiu para eleger. Trata-se de uma simples questão de querer fazer melhor – não diferente – e tentar por si pensar qual seria seriamente a forma de resolver o actual problema. Sem demagogias e sem culpar os outros qua lá estiveram. Posso afirmar que tenho feito esse esforço de pensar – se fosse eu o que faria?
    Devo confessar que só sei trabalhar na minha área e tenho muitas dificuldades em ajudar mais do que a pagar mais impostos. Agora, tenho algum dinheiro e valores que não hipotequei, sítios que não conheci e carros que não comprei – devem dar para ir comendo e pagar as despesas médicas enquanto pagamos o que devemos. Não sejamos hipócritas e demagogicos que já há demasiados – emitir opiniões só deveria ser reservado a quem souber demonstrar ser capaz de fazer melhor. Desculpe o atrevimento mas irrita muito quando só se ouve falar alto.

    • R. Carreira diz:

      Espero que seja coerente com essa filosofia e nunca mais emita opinião sobre um filme, um livro, uma peça de roupa, um carro ou um jogador de futebol. Abraços.

    • António Nónimo diz:

      És tu, Passos?

      Não te imaginava por aqui, pá!

  6. Muito bom mesmo! :D

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