O Ditador que o País Merece

Portugueses, vivemos um momento de viragem. A crise actual promete apenas intensificar-se e provocar a ruína das nossas estruturas sociais e do regime democrático em que temos vivido. Será apenas uma questão de tempo até as instituições políticas se desmoronarem e o país mergulhar numa ditadura. Há anos que número cada vez maior de portugueses vem recordando com saudade ditadores passados e referindo com admiração como este ou aquele ditador saberia governar melhor do que os representantes eleitos que hoje temos.

Mas os ditadores do passado estão mortos e nada os poderá trazer de volta. Por tudo isto, e também porque prefiro ser eu próprio o ditador em vez de me submeter a ditames despóticos alheios, tomei a iniciativa de me apresentar publicamente como candidato à posição de líder ditatorial absoluto e vitalício de Portugal. Faço-o, consciente dos sacrifícios que esta decisão implicará, não tanto para mim, mas para os portugueses comuns que viverão sob o meu jugo tirânico.

Não pretendo ser eleito. Como ditador, nunca conseguiria respeitar-me se tivesse de viver com o estigma do sufrágio universal. Governarei Portugal por aclamação. Não considero um golpe de estado indispensável, mas será simpático se acontecer.

Sei que será difícil. Habituados aos privilégios da democracia, os portugueses sentirão desconforto considerável durante o período de adaptação à nova realidade, com os decretos arbitrários e tresloucados, as decisões ruinosas, a total anulação dos direitos fundamentais e acessórios. Mas o povo é forte e conseguirá habituar-se a tudo com os incentivos certos.

Não prometerei que a situação melhore com o tempo. Não quero começar a nossa relação entre tirano e tiranizados com uma mentira (até porque terei tempo suficiente para mentir sempre que me convenha, depois da ascensão ao poder). O sofrimento manter-se-á por período indeterminado, possivelmente para sempre, mas será tudo para bem do país. Ou seja, do seu ditador, que incorporará todas as facetas da nacionalidade e se tornará Portugal em pessoa.

E o que me torna mais indicado para o cargo de ditador que os outros candidatos que não tardarão a perfilar-se? É muito simples. Os portugueses sabem que sou um deles, um homem simples, do povo, com aspirações iguais às suas e que nunca os trairá (a não ser por motivos de benefício próprio ou de benefício dos meus familiares e amigos).

Abaixo a incerteza da democracia!

Precisamos de um líder forte!

Viva Portugal! Viva eu próprio!

Renato Carreira (generalíssimo, líder infalível, guia esclarecido, luz da nação e chuchuzinho supremo)

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Compromissos:

-Aumento do horário de trabalho semanal para as 80 horas.

-Redução do salário mínimo para “aquilo que o patrão quiser dar”.

-As estátuas monumentais honrando o ditador não poderão exceder o dobro da altura do edifício mais alto de cada localidade.

-Mulheres e filhos passam a ser bens penhoráveis em caso de dívida.

-Reconhecimento do analfabetismo como nível académico e início do seu ensino nas escolas.

-Implementação de um Serviço Escravo Obrigatório de 4 meses para jovens que entrem na idade adulta.

-Pena de morte por decapitação para delitos graves. Prisão preventiva substituída por emparedamento.

-Liberdade de expressão sujeita à figura jurídica do “Parece Mal”.

-Proibição de toda e qualquer forma de malabarismo.

-Instalação de câmaras de videovigilância em todas as casas de banho do país.

-A ideologia oficial terá um cariz marcadamente autoritário, com culto de personalidade exacerbado e desprendimento da realidade. Não haverá qualquer discriminação de grupos. Todos os cidadãos serão oprimidos em igualdade.

-Levantamento de uma cerca electrificada sobre toda a extensão da fronteira.

-Liberdade de culto total (desde que se escolha o único culto verdadeiro).

-Fim do Serviço Nacional de Saúde e sua substituição por uma rede distrital de curandeiros.

-Extinção do cargo de juiz. A posição passa a ser ocupada pelos primeiros cidadãos que se apresentem à porta do tribunal no início de cada dia.

-Promoção das vantagens da eutanásia coerciva como política para o idoso.

-Divulgação das propriedades alimentares da cortiça.

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