Em que se explica porque a Playboy portuguesa condensa em si um dos grandes males do país

Com a nostalgia em alta, é cada vez mais comum termos pessoas a assumir publicamente que “antigamente é que era bom”, mesmo que o “antigamente” implicasse um regime político opressivo com um ditador em cada esquina e três informadores da PIDE por metro quadrado. Nenhum momento seria mais apropriado para recriar as Conversas em Família de Marcelo Caetano (conhecido entre os nostálgicos como “o outro ditador” ou “Salazar Júnior”). Não o faço levianamente, mas sim porque ainda sou aparentado com o tio-avô Marcelo (costumamos chamar-lhe “Ninocas Pirilau” por motivos que não deverão sair da esfera familiar). Posso não ter herdado a capacidade oratória ou mesmo os conhecimentos de Direito, mas, como compensação, também não herdei a calvície e fiquei com um par de óculos de aros grossos caraterísticos que costumo usar quando vou a festivais de cinema. E tenho-os postos neste preciso momento, não por ver mal, mas como objeto totémico.

As Conversas em Família originais versavam sobre temas que então eram relevantes. A revolta das Caldas. O futuro das colónias. A pressão internacional para a democratização. Os queixumes dos descontentes e dos subversivos. Honrando a tradição de elevação temática, esta nova Conversa em Família terá como assunto a ressurreição da edição portuguesa da revista Playboy.

Não pretendo alongar-me sobre o riquíssimo historial dessa publicação vetusta, nascida de um esforço do seu fundador para combinar a paixão pelo mundo editorial e o apreço por mamilos femininos numa instituição fiscalmente tributável. E muito menos sobre o conceito de revista de pessoas nuas (atualmente correndo risco de extinção por culpa da malvada internet, fonte de 50% dos males do mundo), das origens como catálogo anatómico para mostrar a nudez alheia a quem não lhe podia aceder por outros meios à decadência como instrumento para mostrar ao mundo formas corporais inexistentes na natureza. Interessa-me mais estabelecer um paralelismo preocupante entre a Playboy portuguesa e uma peculiaridade particularmente nefasta e seguramente inevitável deste povo à beira-mar plantado que somos nós.

Em todas as edições internacionais da revista, o formato é o mesmo. Uma celebridade deixa-se fotografar nua em troca de uma quantia considerável em dinheiro e adorna a capa, juntam-se uns quantos ensaios fotográficos de modelos menos célebres e completa-se o enchimento do molde com material de revista convencional, permitindo que clientes menos afoitos se convençam a si próprios ou a terceiros de que não houve qualquer intuito brejeiro na motivação da compra.

Mas esta fórmula, apesar da eficácia comprovada durante décadas, seria demasiado simples para o povo complicado que somos. Para começar, a Playboy portuguesa não oferece dinheiro para que sejam aceites os seus termos. A quantia parece ser avançada à partida e os termos são livremente ditados pela contemplada, não se esperando outra coisa de um país onde a filosofia do “parece mal” e a opinião dos vizinhos continua viva. Fulana quer despir-se apenas da cintura para cima? Vamos a isso. Sicrana quer ser fotografada apenas de costas e mostrando a mesma percentagem de nádegas que mostraria se fosse um canalizador agachando-se para chegar a um ralo de banheira? Muito bem. Beltrana quer ter sempre um anão à sua frente para lhe cobrir as vergonhas? É só estipular a altura desejada. Rita Pereira quer assumir a ousadia de posar para a Playboy sem sequer se despir? Quem não acreditar, dirija-se ao quiosque mais próximo.

A encarnação anterior foi suspensa pela bizarria de terem escolhido um homem para a capa de uma edição e de terem usado Jesus Cristo como adereço noutra. O primeiro tiro no pé equivale a destacar na capa da TV Guia uma entrevista de vinte páginas com Agustina Bessa-Luís. O segundo atentou contra a filosofia “somos brejeiros, mas não deixamos de respeitar as coisas da religião” tão tipicamente americana.

E é precisamente aqui que entronca o paralelo com um dos defeitos da portugalidade. Queremos ter uma revista ligeiramente badalhoca como os estrangeiros, mas vamos fazê-la à nossa maneira, de forma ainda menos badalhoca que o original. Tal como queremos inverter a crise, mas, em vez de o fazermos aplicando as medidas de austeridade obrigatórias, reduzindo despesas administrativas supérfluas e tentando revitalizar a economia com choques elétricos estrategicamente aplicados, fazemo-lo aplicando as medidas de austeridade obrigatórias e… aplicando austeridade adicional de forma completamente voluntária e só porque isto da austeridade parece ser muito bem-visto pelos nossos gurus económicos internacionais. Gostamos de seguir exemplos de fora e de fazer coisas para mostrar ao mundo que estamos aqui, atentos e prontos a agir, mas preferimos fazê-las não as fazendo e substituindo-as por outras coisas completamente diferentes e que permitam alimentar um farrapo de aparência. É mais simples. As pessoas chateiam-se menos. Menos gente ficará melindrada.

Cruza-se a Europa com comboios rápidos como foguetões. Por cá? Achamo-los caros e se calhar até são. Podíamos limitar-nos a não os fazer, mas assim pareceríamos desligados da atualidade e sem olhos postos no futuro. Não alinhamos no carrossel do TGV, mas planeamos uma linha não de alta velocidade, mas de velocidade assim-assim entre Sines e Badajoz. Só para mercadorias. E sem que os espanhóis pretendam dar-lhe continuidade do outro lado da fronteira. Para quê? Pergunta complicada. Também ninguém perguntou a Rita Pereira para que aceitou posar para a Playboy se não pretendia despir-se. Não terá sido por lhe faltarem outras oportunidades de embolsar cheques chorudos. Nem sequer pelo estigma (a cantora Rute Marlene não só deu o corpo ao manifesto como ainda convidou a irmã para a acompanhar e tudo por reles oitocentos euros; ninguém a crucificou por isso). Também não foi certamente por complexos com eventual feiura não disfarçável pelo Photoshop (Ana Malhoa não os teve quando provou que é possível que uma mama tenha ângulos retos) ou por recato (a avaliar pelo rácio “ascensão meteórica-talento dramático”, a percentagem de portugueses que conhecerão a nudez de Rita Pereira será considerável, sobretudo nas chefias do meio audiovisual). São perguntas que ficam por responder.

Pelo menos, até à próxima edição da Playboy, com um bonito desdobrável nas páginas centrais representando a variedade das aves da nossa fauna. E quem nunca viu um abelharuco em pelota, não sabe o que é viver.

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