A metamorfose de Miguel Macedo

Quando Miguel Macedo despertou, certa manhã, de sonhos inquietos, descobriu que fora transformado durante a noite numa enorme cigarra. Um pouco atarantado, levantou-se e foi lavar a cara, alimentando esperanças de que fosse só um pesadelo. Os problemas começaram logo aí. Em vez de um único par de braços, percebeu que lhe tinha crescido outro e só não se magoou com os membros excedentários porque a carapaça dura que lhe cobria o corpo era resistente ao choque. Tentou inspirar fundo, o que era muito difícil sem pulmões, e olhou o retrato grotesco que o espelho lhe mostrava. Pousou a escova já com o dentífrico aplicado porque dos dentes não havia sinal e a escova não teria grande efeito nas duas tenazes que ocupavam o espaço onde antes se situara a boca. O pente seria igualmente inútil para pentear as antenas que se lhe projetavam de algo a que poderia ainda, com considerável esforço de imaginação, chamar “testa”. Só os olhos se mantinham iguais, tão esbugalhados como sempre.

Fiel aos seus compromissos, pôs-se a caminho do trabalho. Era dia de conselho de ministros. Deixou à hora certa a sua casa de Algés, de consciência tranquila por já não receber o subsídio de deslocação atribuído a membros do governo sem casa em Lisboa depois de ter abdicado dele em tempo adequado (ou seja, quando os jornais começaram a falar no assunto). Quando o viu, o motorista ainda procurou uma lata de inseticida que usava para repelir manifestantes, mas reconheceu-o pela forma como enfiava a probóscide num copo de seiva de eucalipto.

No conselho dos ministros do governo de Portugal, era um dia comum e os ministros iam-se ocupando da forma costumeira. O ministro da Educação, Nuno Crato, estudava a viabilidade de turmas com duzentos alunos e preparava a transformação de todas as faculdades de Letras em oficinas de serralheiro. Vítor Gaspar, o ministro das Finanças, improvisava orçamentos num ábaco infantil com os ouvidos atentos ao pequeno transístor sintonizado na frequência Bruxelas-Frankfurt-FMI. O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, fazia sudokus à espera da remodelação governamental. E Paulo Portas, ministro dos Negócios Estrangeiros, mantinha-se escondido no buraco onde se enfiara quando as coisas começaram a dar para o torto.

De repente, pela janela aberta para arejar, entra voando a cigarra em que se transformara Miguel Macedo, ministro da Administração Interna. O susto foi grande. Assunção Cristas, ministra da Agricultura, e Pedro Mota Soares, ministro da Segurança Social, saltaram para cima da mesa, dando gritinhos agudos. Para que a questão não ficasse limitada ao CDS, o ministro da Defesa, Aguiar Branco, fez o mesmo, arregaçando as calças e berrando que lhe acertassem com um obus.

Foi o chefe do executivo, Passos Coelho, o primeiro a perceber a identidade do recém-chegado. Exigiu explicações ao homem (à cigarra, portanto) a quem confiara a sensível pasta das polícias e não conteve a repreensão. Era inaceitável que um membro do governo se transformasse assim, de repente e sem motivo válido, num grande inseto. Mais ainda num período de crise como o que país atravessava. Miguel Macedo bem quis explicar, mas a voz fora-se com a sua humanidade e apenas lhe saiu um “cri-cri-cri-cri” miserável.

Os ministros acalmaram e uniram esforços para encontrar uma explicação. A situação era grave. Quando aquilo se soubesse (e tudo se sabia, mais tarde ou mais cedo), o alvoroço na opinião pública seria grande. Seria um embaraço escusado para um governo que não precisava de se embaraçar ainda mais. E, pensando isto, todos se voltaram em uníssono para o canto da mesa, onde Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares, se sentava amordaçado e coberto por um lençol.

Ouviu-se a voz de Paulo Portas, do fundo do seu buraco, dizendo que estudaria o assunto e responderia em tempo útil através de um comunicado de dirigente partidário, explicando que sabia que um dos seus colegas do PSD se transformara numa cigarra, que não aprovou a transformação e que só por não querer empurrar o país para uma crise política não vetou o fenómeno. Paulo Macedo, ministro da Saúde, interrompeu o delicado processo de encher cápsulas de antibiótico com farinha de trigo usando um pequeno funil para sugerir que se aplicasse uma taxa moderadora de transformações a todas as metamorfoses futuras.

Mas foi só Robalo Mendes da Costa, ministro do Bom Senso e dos Assuntos da Prudência, a oferecer uma explicação que o conselho ponderou em silêncio. Disse o ministro que talvez a transformação do colega numa cigarra gigante fosse castigo por declarações estouvadas comparando os portugueses a tipos diferentes de inseto de fábula e que, no futuro, talvez fosse boa política começarem todos a medir muito bem as palavras porque, do outro lado dos microfones e das câmaras, havia pessoas reais, com problemas reais que poderiam ficar muito melindradas, tristes, revoltadas ou agoniadas com o que ouviam da boca de quem supostamente deveria governá-las.

O primeiro-ministro olhou-o durante o instante necessário a confirmar a sua primeira suspeita. Nunca nomeara um ministro do Bom Senso e dos Assuntos da Prudência. Aquele sujeito era um impostor! Chamou os seguranças e mandou que o levassem dali e o atirassem contra a parede de um centro de emprego. A seguir, enquanto a cigarra ia entoando a sua canção empoleirada no suporte de tachos que a ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, trazia sempre consigo, o conselho de ministros aprovou por unanimidade (as antenas erguidas de Miguel Macedo contaram como voto a favor) que encomendassem frango assado para o almoço.

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