Humorista que criou “Cavaco Silva” promete punchline para breve

Chama-se Francisco Gaudêncio, mas o seu nome será desconhecido para a maioria dos portugueses, acostumados a vê-lo interpretar a sua personagem de maior sucesso durante mais de trinta anos: Cavaco Silva, o algarvio seco de figura e de espírito que descobriu na política a forma ideal de converter o seu vazio mental e a total ausência de personalidade em “rigor” e “determinação”. Mas os anos já vão pesando e o humorista está cansado da sua criação, prometendo agora que não tardará a aposentá-la de forma permanente.

Para trás ficam momentos grandiosos do riso em português. Como, por exemplo, os dez anos como primeiro-ministro com governos de maioria absoluta, gerindo o desmantelamento das poucas estruturas produtivas que existiam no país em troca de fundos europeus esbanjados com autoestradas para ligar São Mamarracho do Monte a Penugens de Baixo. Ou a rábula do bolo rei, possivelmente um dos seus números mais emblemáticos a par com os tabus recorrentes.

Pessoalmente, confessa que o momento cuja interpretação lhe deu maior prazer nos últimos anos foi o comunicado importantíssimo à nação em que, depois de dias de suspense, proferiu um longo e incompreensível sermão sobre o estatuto jurídico dos Açores. “Até as melhores piadas acabam por perder a graça com o tempo”, confessa numa rara entrevista concedida sem interpretar Aníbal. “Acho que as pessoas já não se riem como dantes e eu próprio começo também a ficar um bocado enjoado.”

Como exemplo, cita o fastio sentido com um número recorrente ao longo dos últimos anos da temporada “Cavaco Presidente”. “Depois de ter promovido o abandono da agricultura, das pescas e da construção naval como primeiro-ministro” refere, “comecei a fazer discursos sobre a importância de nos voltarmos para a agricultura e para o mar. Ainda houve quem se risse, mas a maioria do público não achou piada nenhuma. E fiquei a pensar se não teria sido demasiado cruel.”

Os remorsos não são extensíveis às decisões tomadas no passado já que, apesar de resultados tantas vezes negativos para o país, afirma que fez tudo pela arte. É este desconforto e a ausência de ideias provocada pelo cansaço que justificam o seu silêncio recente e as piadas sofríveis que fez a esse respeito numa gala de prémios jornalísticos, mas admite estar a preparar uma despedida em grande para a sua criação mais famosa.

Não adianta pormenores, mas deixa pistas: a atriz Madalena Pisco, que interpretou Maria Cavaco Silva depois do falecimento da sua antecessora (a brasileira Fabiane Moretti) em 1994, terá papel preponderante e assistiremos ao regresso de personagens populares do passado como o hilariante Dias Loureiro (Álvaro Pascoal), Fernando Nogueira (Luís Sarmento) ou mesmo Sá Carneiro (Nádia Rodrigues).

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