Vítor Gaspar: De Prodígio Juvenil a Génio do Percentil

Corria o ano de 1960 quando Vítor Louçã Rabaça Gaspar escolheu vir ao mundo num dia nublado de novembro, filho de um ábaco e de uma senhora que gostava de cortar coisas com uma tesoura aparentada com Francisco Louçã (a senhora, não a tesoura). O pai não era aparentado com ninguém porque o conceito de família não se aplica aos instrumentos rudimentares de contabilidade, mas, com imaginação, talvez se possa considerar que os restantes ábacos saídos da mesma fábrica na China e integrados no mesmo lote seriam todos seus irmãos, o que tornaria Vítor Gaspar primo em segundo grau de um brinquedo sexual feito de plástico reciclado e moldado com forma muito marota.

O talento para a finança manifestou-se em tenra idade. Aos cinco anos, o pequeno Vítor convocou uma conferência de imprensa onde apresentou gráficos rigorosos traçados com lápis de cera e convenceu os pais de que, com o pai tornado obsoleto pela generalização das calculadoras eletrónicas e com o parco rendimento que a mãe obtinha a cortar barbatanas a bacalhaus numa mercearia, era absolutamente insustentável manter uma família de cinco elementos. Inicialmente contrariados, o senhor e a senhora Gaspar acabaram por confiar que o pequeno sabia o que dizia e aceitaram vender os dois filhos mais velhos para reduzir despesas futuras do agregado e arrecadar receita extraordinária.

Foi assim que Ludovico Gaspar acabou coberto de bronze e colocado numa rotunda em Viseu como monumento à “Prosperidade”, onde ainda hoje se encontra, cabendo a Peixoto Gaspar, o irmão do meio, ser vendido primeiro ao Sport Grupo Sacavenense, onde se destacou como defesa central e responsável por combater a praga do chulé de chuteira, sendo posteriormente cedido à fábrica de carnes Sicasal, onde o seu rasto se perdeu.

Já na década de oitenta, após percurso escolar assombrado pela tortura de colegas que lhe invejavam a correção orçamental e lhe escondiam a tabuada de bolso, o jovem Vítor matricula-se na licenciatura em Economia da Universidade Católica, onde, meses depois, conheceria a sua primeira namorada: uma trasmontana alta e curvilínea, que se apaixonou pelo seu olhar penetrante e dicção sedutora. Abalado pelos calores da paixão, o namorado decidiu que o envolvimento com a rapariga (Carminda de seu nome) lhe provocaria um défice académico no fim do ano e, duas semanas depois de iniciado o namoro, decidiu decretar um corte de 75% na sua atividade amorosa e trocou Carminda por uma anã moçambicana que só se babava e gania.

Fez-se doutor em Economia com a entrega à Universidade Nova de um relatório genial em que explicava que as despesas de iluminação da instituição poderiam ser substituídas por velas sujeitas a racionamento. Iniciou logo a seguir a sua carreira profissional, chegando a membro suplente do Comité Monetário Europeu (entrou em campo durante apenas dois minutos num desafio em que o CME perdia com o FMI por 3-1) e integrando a representação portuguesa na elaboração do Tratado de Maastricht, cabendo-lhe o mérito de atrasar a aprovação do mesmo por insistir em ler a totalidade do documento em voz alta, terminando dois dias e meio depois de ter começado. Publicou também artigos científicos versando sobre matérias da sua área, entre os quais merecerá destaque “The Socioeconomic Importance of Significantly Reducing the Percentage of One’s Pubic Hair in Favour of an Exponential Growth in a Country’s National Pillow-Stuffing Industrial Sector”, publicado em 1997 na conceituada revista “Economy for Retards”.

A relação com Passos Coelho é recente. Conheceram-se num restaurante de Lisboa, ficando o atual primeiro-ministro maravilhado com a forma hábil como Vítor Gaspar lhe trocou uma nota de vinte por uma de dez, outra de cinco, três moedas de um euro, duas de cinquenta cêntimos, três de vinte e oito de cinco. A hábil manobra permitiu ao então candidato a líder do PSD pagar com dinheiro trocado os trinta almoços que Miguel Relvas se esquecera de pagar porque, sempre que entregavam a conta, precisava de sair para fazer um telefonema muito urgente e esquecia-se de voltar a entrar. O convite para integrar o governo como titular da importantíssima pasta das Finanças em período de crise extrema foi inevitável.

Depois de um mandato memorável e de pôr ordem nas contas públicas com mérito indiscutível, Vítor Gaspar seria atropelado por um cortejo de quatro camiões, dezoito viaturas ligeiras, cinco tratores, um cavalo, duas juntas de bois e vinte mil populares que se manifestavam contra a austeridade e não o viram atravessar a rua. Na unidade de cuidados intensivos do hospital a que foi conduzido (temporariamente instalada numa casa de banho por não ter sido concedida à administração hospitalar a necessária autorização para pagar a reparação de uma dobradiça que não dobrava), a sua condição exigia que permanecesse ligado a uma máquina que lhe mantinha os pulmões em funcionamento. Viria a falecer quando uma enfermeira recém-despedida lhe cortou o tubo com uma tesoura reaproveitada. A causa do óbito foi registada como “ironia fulminante”.

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