O Emmy de Diogo Morgado fará Jesus dizer palavrões

Fui acordado a meio da noite por uma visão. Era Jesus Cristo. Reconheci-o pelo intenso brilho sobrenatural que irradiava a sua (Sua?) pessoa e pela cruz de madeira que arrastava pelo chão atrás de si (Si?). Porque imagino que passar dois mil anos pregado àquilo acabe por enfadar. Parecia furioso e disse-me assim: “Esta história de o Diogo Morgado poder ganhar um Emmy por ter feito de mim num pastelão bíblico fode-me o juízo. Avisa aí que se ponham a pau. Adeus e SLB forever!”

Ainda achei que estivesse a sonhar, mas não. Os meus sonhos são sempre a preto e branco, com alguns sombreados azuis, e o Cristo surgiu-me em glorioso technicolor. Além disso, há sempre caniches e participações especiais da princesa Diana nos meus sonhos e não vi sinal de cães farfalhudos nem captei aquele perfume a bifana acabada de fazer que, por algum motivo que nunca descortinei, acompanha sempre as minhas manifestações oníricas da “Princesa do Povo”. Estranhei o palavrão e a referência clubística (sempre achei que a segunda pessoa da Santíssima Trindade fosse adepto do Belenenses) e pus-me a pensar.

Há tanta coisa séria e importante a acontecer no mundo e o Messias dá-se ao trabalho de me acordar para transmitir esta mensagem? Na Síria, o governo continua a tentar melhorar a qualidade de vida dos cidadãos com morteiros e gás sarin. Na Turquia, um protesto contra a demolição de um parque transforma-se em motins contra os tiques ditatoriais de um primeiro-ministro conservador. No Brasil, um aumento de 20 centavos no preço de um bilhete de ónibus (que é uma espécie de autocarro mas recheado com samba) evolui para protestos contra a corrupção e o dinheiro gasto na organização de eventos desportivos internacionais, enchendo as ruas como não se via desde as passeatas de júbilo pela atribuição da organização do Mundial de futebol ao Brasil e dos Jogos Olímpicos ao Rio de Janeiro.

Que importância poderá ter a inclusão de Diogo Morgado numa lista de pré-candidatos a um Emmy comparada com isto tudo? Confesso que simpatizo com o ator. Sobretudo desde que o vi dar vida a Salazar como o ditador seria se fosse um galã de telenovela atlético com o cabelo tingido de branco, rugas pintadas com caneta de feltro e falando “achim” à moda da Beira. Não gostei tanto de o ver na Bíblia em versão americana. Achei-o demasiado parecido com Salazar, apesar do aspeto mais desmazelado e do ângulo das sobrancelhas invertido, transformando a expressão sisuda de pessoa que sabe o que quer e para onde vai em bonomia transcendental de alminha tão bondosa que até mete nojo. Era, basicamente, o mesmo Diogo Morgado que, certo dia, estreou uma peça de sua autoria que seria cancelada dias depois por ser demasiado “parecida” com o argumento de um filme chamado “The Breakfast Club” (em português apenas “O Clube”, porque já se sabe que não nos revemos nesse conceito bizarro de iniciar o dia com uma refeição).

Mesmo assim, pareceu-me exagerada a ameaça da aparição de Cristo que pleonasticamente me apareceu. Quem teria de se “pôr a pau”? Os concidadãos de Diogo Morgado ou o mundo todo? Alguém que tem a sua vida e o seu futuro orientados por Vítor Gaspar, Christine Lagarde e Angela Merkel poderá recear destino ainda pior? E “pôr a pau” é a melhor escolha de palavras para alguém com uma relação tão dolorosa com grandes pedaços de madeira?

Passei alguns minutos acordado, dando voltas à cabeça para decidir o que fazer. Compreendi a relevância do momento e a responsabilidade que me tinha sido depositada sobre os ombros. Foi então, enquanto ponderava rumos a seguir, que vi um escaravelho curioso a subir a parede. Tinha reflexos dourados e pintas vermelhas. A seguir, sentei-me a ver pseudo-celebridades roncar num daqueles canais que transmitem imagens de reality-show vinte e quatro horas por dia e acabei por adormecer com o comando na não. Não voltei a sonhar e dormi como um parvalhão até raiar o dia. Quando acordei, percebi, algo perplexo, que o pijama me cheirava a bifanas.

Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *