A última vez que a política me fez rir

Lembro-me de ser bastante miúdo e ouvir algures o nome de Mota Pinto. Nem sei grande coisa sobre o dono do nome além de ter sido primeiro-ministro nos anos que se seguiram à revolução, de ter sido uma figura relevante do PSD e de ter morrido. Consultando a wikipédia, fico a saber que foi um dos fundadores do seu partido, foi o proponente da designação “Assembleia da República” e o seu mandato como chefe do governo durou uns oito meses. Fico a saber também que morreu dias antes do congresso que entregou a liderança do PSD a Cavaco Silva. Não quero insinuar que a morte foi encomendada à máfia de Boliqueime, mas não gosto de descartar possibilidades.

Além disso, foi ministro do governo do Bloco Central presidido por Mário Soares. E terá sido por aqui que lhe ouvi o nome e o achei a coisa mais divertida que já tinha ouvido (convenhamos que não tinha tido tempo de ouvir muita coisa). Para o meu cérebro infantil, a conjugação dos dois apelidos era absolutamente hilariante e lembro-me de rir sem parar. Nunca antes me tinha apercebido de que muitos portugueses têm apelidos que designam coisas (podia ter olhado para o meu próprio apelido, por exemplo). O nome de Mota Pinto fazia-me imaginar crias galináceas praticando motociclismo e isso divertiu uma criança durante uma fração da primeira metade da década de oitenta.

Foi a última vez que a política me fez rir.

Não nego que ainda hoje há políticos com nomes que me provocam sorrisos. Vera Jardim, por exemplo. Eurico Brilhante Dias. E seria hipócrita se não admitisse que me diverte olhar as caras de Francisco Assis ou do atual secretário de Estado da Cultura. Ou que basta que Morais Sarmento abra a boca para quase voltar aos tempos saudosos de Mota Pinto. Quase.

É possível que o nome do malogrado fundador do PSD me tenha esgotado o “funny bone” como naquele episódio de South Park em que Eric Cartman conhece uma família de pessoas literalmente com “cara de cu” e perde a capacidade do riso. No meu caso, esta perda aplica-se apenas ao riso motivado pela política.

Só isso explicará que, por exemplo, tenha achado meramente infeliz o episódio “o PIB… ora… é fazer as contas” de António Guterres (entra aqui em ação a solidariedade entre pessoas que não sabem fazer contas de cabeça, mesmo que algumas sejam engenheiras e outras não). Ou o momento da sua demissão para nos livrar do pântano. Idem para a demissão de Durão Barroso quando lhe acenaram com um cargo europeu que mais ninguém queria (e que nem Guterres quis), para os meses que durou o governo assumidamente satírico de Santana Lopes (ninguém percebeu a intenção e levaram-no a sério durante demasiado tempo), para os constantes tropeções de Sócrates em Freeports, SCUTs, mãos estendidas ao vazio diante de líderes europeus ou arremedos de inglês (técnico) ou espanhol (artesanal) com que ia tentando entender-se por essa Europa fora.

Não me ri com a primeira eleição de Cavaco para Belém e muito menos com a segunda. Não me ri com as supostas escutas ao Presidente ou com a comunicação ao país sobre o estatuto dos Açores. A licenciatura de Relvas quase me fez rir, mas a piada arrastou-se durante tempo demais e perdeu a graça. Quando Paulo Portas revogou a sua demissão irrevogável, nem sequer pestanejei.

Não sei se terei recuperação possível. Não me surpreenderia se não tivesse. Mas, às vezes, olho para uma imagem de Cavaco Silva a esborrachar nas mãos uma pequena ave marinha com aquele riso babado que lhe é caraterístico ou leio que Isaltino Morais não vê no facto de estar preso impedimento para se candidatar a um cargo público qualquer e chego a ter esperança de voltar a ser a criança feliz que se ria com o nome de um ministro.

Deixem-me sonhar.

Um comentário

  1. Miguel Tavares diz:

    Foi um texto enternecedor, este. Mas agora há caras de cu por todo o lado. E caras de pila no meio deles. E são todos belfos e dão traques a cada passo. Não acalentes grande esperança.

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