Aquele dia estranho em que Cavaco teve razão

É mentira que os portugueses não se mobilizem pelas causas importantes. Basta ver como enchemos as varandas com bandeiras dos chineses no Euro 2004. Basta pensar nos quase seiscentos mil seguidores que tem a página oficial de Cristina Ferreira no facebook. Basta que nos lembremos da indignação generalizada pelo abate de Nelson Mandela, o pitbull que matou uma criança (e esta será uma das frases mais bizarras alguma vez escritas na língua portuguesa, juntamente com qualquer coisa que coloquem num teleponto diante de Teresa Guilherme).

Desta vez, voltámos a mobilizar-nos porque o Presidente da República usou o facebook presidencial para dar conta de uma mensagem de pêsames pela morte de António Borges, não tendo feito o mesmo pelos bombeiros mortos no combate aos incêndios. E, desta vez, enganámo-nos. Porque, segundo justificação posterior aos milhares de comentários enraivecidos, o Presidente também terá transmitido as suas condolências às corporações de bombeiros e famílias enlutadas, mas “com a discrição e a seriedade que a situação humanitária reclama”. Ou seja, as condolências a companheiros de partido e de ideologia que contribuíram para deixar Portugal no invejável estado de prosperidade em que se encontra são passíveis de divulgação pública, mas as condolências a cidadãos que deram a vida pelo país fazem-se em segredo.

É compreensível isto. Alguém que acaba de perder um familiar, colega ou amigo não precisará do estigma de ser alvo da atenção pública de Cavaco Silva. Tal como será compreensível que as condolências pela morte dos bombeiros sejam transmitidas indiretamente por intermédio de um assessor. Um pai que acaba de perder uma filha merece ser poupado à experiência penosa de ouvir pelo telefone um homem com coração tão preenchido como o cérebro debitar meia dúzia de alarvidades pausadas e pouco sinceras, esforçando-se para fingir que tem sentimentos.

Enganámo-nos, realmente. Mas, se a justificação deste protesto estava errada,  isso não significará que não fosse merecido. Qualquer protesto contra Cavaco Silva é, à partida, mais que merecido e todas as iniciativas semelhantes deverão ser incentivadas e acarinhadas pelos portugueses de bem. Os dez anos de gestão perdulária de fundos europeus que poderiam ter sido aplicados em prol do país justificam qualquer protesto que se faça. Os mandatos presidenciais sem tirar o cartão de militante do bolso também. Ou a campanha orquestrada para fazer circular o rumor paranoico de que alguém andaria a ler-lhe “os émeiles”. Ou o descaramento de chamar a atenção para a importância dos recursos marinhos depois de ter supervisionado a destruição da frota pesqueira. Ou o gosto com que vê gente importunada pela justiça por lhe chamar nomes muito mais suaves do que mereceria. Ou a insistência em comentar o envolvimento em negociatas financeiras dúbias com “não respondo”. Ou, muito simplesmente, por ter ido para as Ilhas Selvagens apoquentar animalejos remotos, vestindo camisa e calças de fato de treino.

Façam favor de continuar a protestar à vossa vontadinha.

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