A questão das papoilas

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Têm sido dias únicos. Primeiro, no domingo de Páscoa, chego a casa rouco e moído dos festejos do campeonato do meu clube de sempre e rabisco um texto chamado “Portugueses celebram o fim da crise“, que publico no dia seguinte.

Depois, descubro que o texto quase atingiu aquele patamar mítico das coisas que se enfiam na internet que é o “tornar-se viral”. Fiquei feliz até perceber o motivo.

Aparentemente, o texto foi partilhado e comentado por três tipos de pessoas.

Tipo 1: Benfiquistas indignados com a suposta crítica ao mérito da conquista, que decidiram chamar “aziado” ao autor e troçar da ineficácia do clube deste (não percebendo, desgraçadamente, que era o seu – as tentativas de imparcialidade têm destes males).

Tipo 2: Adeptos de outros clubes que se identificaram com a suposta mensagem anti-benfiquista e partilharam o texto como se não houvesse amanhã.

Tipo 3: Pessoas que não gostam de futebol e se orgulham disso e que viram no texto uma crítica aos que se emocionam tanto com uma “mera” vitória desportiva sem se empolgarem de igual forma por causas supostamente mais meritórias.

A mim, ao “aziado”, cabe-me dizer apenas isto:

Cada um é livre de interpretar um texto como bem entender, mesmo que a sua interpretação esteja errada e seja diametralmente oposta à intenção do autor (que, neste caso, era qualquer coisa como “uma vitória do Benfica no campeonato faz esquecer por uns momentos os problemas graves que temos e, se for preciso justificar que se torça por ela, aqui está”).

No entanto, talvez fosse aconselhável começarmos todos a comentar coisas que vemos na internet depois de lermos com um mínimo de atenção o que lá está escrito até ao fim. A indignação (ou mesmo a concordância) motivada por um olhar a uma fotografia e pela leitura de um título não dizem grande coisa dos portugueses como povo alfabetizado.

Despeço-me com um muito humilde “E Pluribus Unum”. Porque a figura que faz alguém que não compreende o que lê acaba por ser a figura que fazemos todos, enquanto país. É o contrário da frase em latim, mas concentremo-nos para já na compreensão do português e deixemos as línguas mortas para outra ocasião.

3 Comentários

  1. Parabens, gostei dos dois textos…
    Só vi o outro hoje, e antes de ler este comentei-o assim: “podes crer que naquelas horas nao se pensou em crise, nem em problemas… foi uma coisa que só nós sabemos”

    Já agora, respondendo ao Sr R.M., eu estava no Marquês, sempre votei com consciencia…

  2. Olha Renato curto mto o que lês, e apesar de ser do eterno rival do teu clube partilhei o texto pela questão política, que não está presente neste teu texto.
    Apostaria que 99,9% das pessoas nos festejos mais o anão que não conta bem não vão com regularidade às urnas.
    Aquele velhote que deu nome à ponte para a costa da caparica tinha razão – fado, fátima e futebol

    • R. Carreira diz:

      Não sei se a percentagem será essa, mas dou-te razão. Uma parte demasiado alta não vota ou vota neste ou naquele partido só porque sim. Mas isso aplica-se ao país todo e não só às pessoas que estavam nos festejos.

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