Os portugueses: suas subespécies e costumes peculiares

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Nota prévia: Porque o autor conhece os portugueses de ginjeira, o que o habilita a escrever este texto, consegue também prever a reação suscitada pelo mesmo junto de uma parte considerável dos leitores pertencentes à espécie exótica em análise. Por isso, para poupar esforço neste período estival em que as temperaturas elevadas, os níveis altos de raios ultravioleta e a exaustão resultante da atividade balnear aconselham contenção, passa o autor a enumerar metodicamente todas as objeções, correções e impropérios que serão inevitavelmente avançados por quem ler estas palavras e não vir nelas o rigor expectável numa publicação científico-jornalística deste calibre.

O autor admite ser uma pessoa desprezível, cujo principal propósito na vida será vilipendiar os nativos desta ou daquela região, terras de incontornáveis méritos históricos/naturais/culturais/económicos, movido por um ódio mesquinho. O dito ódio foi motivado por um incidente ocorrido na região em causa quando o autor, completamente embriagado e desejoso de praticar atos contratura com pessoas do seu sexo/animais/legumes foi confrontado pela digníssima população local, sendo impedido de consumar os seus intuitos repelentes e expulso do território sob ameaça de corretivo físico.

De igual forma, o autor, descendendo como descende de uma longa linhagem de pessoas de estirpe retorcida, mostra-se consciente da sua natureza facilmente encaixável em todos os insultos atualmente existentes na língua portuguesa e nos que vierem a ser inventados e admite passar a movimentar-se em público sempre com atenção redobrada a pessoas que, com toda a justiça, entendam abordá-lo para lhe infligir dor e para lhe ensinarem que há coisas com que não se deve brincar.

Por fim, sendo sobejamente conhecido que o autor odeia o seu país e os seus concidadãos, alimentando um desejo muitas vezes frustrado de adquirir a nacionalidade maltesa, deverá acrescentar-se que o presente texto foi escrito com a motivação dupla de ofender e enganar, não tendo resultado de qualquer investigação válida. Significará isto que as afirmações feitas não podem ser efetivamente comprovadas por serem coisas que o autor inventou e decidiu, em má hora, fixar para a posteridade por não conseguir encontrar uma forma útil de ocupar o seu tempo.

Preâmbulo

O território habitado pelos portugueses encontra-se dividido em Norte, Centro, Sul e ilhas. Uma divisão alternativa seria: Bidé, Tartaruga, Horizontal e maionese. Ou mesmo: Tom Sawyer, Pelota Basca, Vítor Espadinha e robalo frito. Fiquemos pela primeira.

ILHAS

O açoriano

Subespécie remota e dada a migrações, o açoriano pode habitar encostas vulcânicas, prados verdejantes ou lagoas de água fervente. Alimenta-se de cetáceos e hortênsias e a inalação de enxofre pode motivar comportamentos bizarros como a decoração de dentes de cachalote. Quando migra, costuma fazê-lo para ocidente, aportando às costas da América do Norte e aí abrindo snack-bars com petiscos e casas do Benfica.

O madeirense

Todos os indivíduos desta subespécie partilham património genético, descendendo de uma criatura críptica a que os investigadores chamam “o madeirense matriz” ou, simplesmente, o “Alberto João Jardim”, cuja existência não se encontra ainda totalmente comprovada. Quando criado em cativeiro, o madeirense constrói tocas triangulares e emite chamamentos nostálgicos que, reza a lenda, transformam quem os ouve em primos de Cristiano Ronaldo.

O emigrante

A subespécie emigrante é endémica do arquipélago da Emigrância, no Índico Sul. Pensa-se que esta população tão distante do território de origem foi arrastada pelas correntes de fãs de um concerto de Tony Carreira. Anualmente, alguns indivíduos efetuam uma migração temporária em sentido inverso ao volante de carros de elevada cilindrada e, depois de ultrapassada a idade reprodutiva, podem mesmo fixar-se aí, habitando chalés suíços construídos com pequenos ramos e folhas secas.

SUL

O algarvio

Espécime anfíbio, o algarvio tem como habitat natural dunas, sapais e piscinas de hotel. Os outros portugueses invejam-lhe o bonito bronzeado, as vistas para um mar tranquilo e a dieta à base de marisco. Em contrapartida, o algarvio inveja aos outros portugueses a distância relativa de despedidas de solteira repletas de inglesas bardajonas.

O alentejano

O português alentejano divide-se em dois tipos: o alto-alentejano e o baixo-alentejano. A diferença entre os dois tipos não existe, mas há quem aponte aos alto-alentejanos uma tendência para possuírem pilas maiores. São criaturas solitárias, que aproveitam os raros momentos gregários para unirem as vozes em cantos harmónicos. Possuem glândulas que emitem um inconfundível odor a coentro quando se sentem ameaçados e alguns deles vivem dentro de anedotas.

O lisboeta

Esta subespécie encontra-se praticamente extinta. Os indivíduos que restam habitam edifícios degradados em bairros de ruas estreitas cheirando a urina e manjerico, de onde saem no início do verão para se enfrentarem em danças tribais pitorescas. A designação “lisboeta” foi apropriada ao longo dos anos por elementos pertencentes a todas as outras subespécies de português, que migram para a cidade e passam a acreditar ter uma identidade comum. Ocasionalmente, deslocam-se “à terra” para contactar as suas raízes, regressando invariavelmente desiludidos com a escassez de caixas multibanco e com o omnipresente cheiro a cocó de muitos animais diferentes.

CENTRO

O ribatejano

O ribatejano é um português facilmente reconhecível pelas suas patilhas felpudas e pela boina que protege a careca do sol da lezíria. Caça bovinos com mau feitio, perseguindo-os com paus afiados e pode enfeitar-se com barretes verdes, coletes encarnados e outras peças de roupa ridícula. Quando lhe criticam os hábitos, enrola-se em posição fetal e cantarola o fandango para não ouvir nada que lhe digam.

O beirão

Subespécie montanhosa, o beirão mantém hábitos pacatos, entretendo-se com o pastoreio e a produção queijeira até ser provocado. Quando finalmente acontece, transforma-se num turbilhão feroz de saudosismo salazarista que só pode ser acalmado com a exibição demorada de propaganda do PSD ou com missas consecutivas. Alguns beirões preferem salada de tomate, outros de alface. Geralmente, todos os beirões abominam o pepino.

O “beirão litoral”

Subespécie que não existe e é referida apenas por erro de catalogação. A região conhecida como “Beira Litoral” é desabitada.

O coimbrão

Os portugueses coimbrões vivem em simbiose com as criaturas ruidosas e de pelagem negra que invadem o seu habitat durante a maior parte do ano, oriundas de todo o território. A subespécie coimbrã subsiste fornecendo-lhes alojamento e cerveja barata e, em troca, beneficia de toda a música de tunas que consiga suportar. Nos meses de verão, quando os parasitas regressam aos seus locais de origem, os coimbrões hibernam dentro de grandes casulos feitos de massa folhada.

NORTE

O portuense

Subespécie aguerrida que vive em pequenos grupos familiares liderados por um cacique (a que podem chamar “senhor presidente”, “senhor engenheiro”, “senhor major” ou mesmo “senhor comendador”). Os seus gritos de guerra são ruidosos e podem afugentar indivíduos de outras subespécies mesmo que apenas queiram fazer novos amigos. Elegem os lisboetas como seus rivais porque, algures na Idade Média, um deles chegou ao Porto e começou a perguntar pelo metropolitano. Os principais triunfos da subespécie portuense são o seu vinho afamado, a Casa da Música e a coleção de raparigas de moral duvidosa que Pinto da Costa mantém numa estufa no quintal e que é única em todo o mundo.

O minhoto

O português minhoto habita romarias no noroeste verdejante do país e comunica através do seu canto tradicional. Por este motivo, são capturados com frequência e colocados em gaiolas para encantar com os seus melodiosos trinados. As fêmeas desenvolvem apêndices de ouro maciço nas orelhas e pescoço. Alguns minhotos são arcebispos, mas é uma caraterística muito rara.

O trasmontano

Trata-se de uma subespécie raramente avistada, visto que o seu habitat de eleição é remoto e de difícil acesso. O transmontano é um português de hábitos esquivos e pode tornar-se agressivo, motivo pelo qual não deverá ser acicatado. Quando assume a sua postura de ataque, poderá ser apaziguado com a promessa de autoestradas e com a oferta de pastéis de bacalhau.

Um comentário

  1. E vivam estes textos de antologia!

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