“Do you mean it? If you Brexit!”

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Com um pedido de desculpas aos milhares de pessoas que fabricaram antes de mim a pérola de humor referencial no título.

Olá. Ninguém gosta realmente dos ingleses. Para começar, são feios. Depois, quando conseguimos passar além da aparência (e não é fácil), percebemos o resto. Pendem para a indelicadeza sobranceira quando estão sóbrios, o que raramente acontece, e tornam-se umas bestas violentas e incontroláveis quando estão bêbados, o que acontece com frequência porque passam 89% do seu tempo a beber. Comportam-se como se o mundo inteiro lhes pertencesse, vendo como nos esforçamos para falar a língua deles e interpretando isso como demonstração de subserviência. Olham para as pessoas dos países onde passam férias baratas em turbas alcoolizadas, escaldadas e insuportáveis e conseguem ver duas categorias: os empregados de restaurante e os empregados de hotel, mesmo que as pessoas em questão tenham outra profissão qualquer. Acham-nos preguiçosos e incapazes só porque nascemos num país com sol. Na cabeça deles, passamos metade do dia a dormir e a outra metade a engendrar estratagemas para não trabalhar e viver à custa deles, que enriqueceram com o seu trabalho diligente e conseguem pagar voos de 6 euros para Faro e alojamento de meia bagatela com pensão completa num sítio qualquer cujo nome não conseguem pronunciar em condições. Além disso, cheiram muitas vezes mal. E todos os ingleses são vândalos, tal como todas as inglesas são umas badalhocas.

Isto chama-se xenofobia. Se alguém chegou até aqui a acenar com a cabeça e a concordar com o que escrevi acima, parabéns. É xenófobo/a. A xenofobia é ligeiramente mais desagradável que o racismo apenas por uma questão de abrangência. O racista despreza toda a gente que tenha uma cor de pele diferente e o xenófobo consegue ir mais longe, odiando toda a gente que tenha nascido noutro país, mesmo que tenha uma cara muito parecida com a sua. Ou até quem nasceu no mesmo país, filho ou neto de alguém que veio de fora.

Ultimamente, parece que gravidade da xenofobia enquanto problema aumentou. É mentira. Não existe mais xenofobia agora do que existiu em qualquer outro momento. É um traço constante da existência humana e a única coisa que se altera é a frequência e a intensidade da sua exteriorização. Posso achar que os eslovenos são desprezíveis, mas guardo isso para mim até um dia em que me acontece um azar qualquer e, à falta de melhor alvo para culpar, decido culpar os cidadãos da Eslovénia que residem e trabalham no meu país, essa ralé pestilenta.

Também se diz que um problema derivado deste hipotético aumento da xenofobia é a ascensão dos movimentos políticos de extrema direita no mundo em geral e na Europa em particular. Outra mentira. O aumento da visibilidade dos partidos de extrema direita e o aumento do poder que a democracia lhes permite não é um problema. O problema surge quando políticos de áreas mais convencionais começam a adotar ideais extremistas por oportunismo, achando que é isso o que as pessoas querem ouvir, ou como tentativa de mitigação de males maiores, ou seja: se o povo apoia um partido que defende que todos os árabes deviam ser enrolados em arame farpado, será melhor que eu, um democrata, proponha que os árabes sejam envoltos em celofane. E quem diz “celofane”, diz “folha de alumínio”. Um democrata consegue ser flexível nas suas propostas.

No meio de tudo isto, os portugueses têm duas vantagens. Em primeiro lugar, somos historicamente pacatos. Os nossos emigrantes e turistas insultados e espancados no estrangeiro conseguirão não reagir muito e os insultadores/espancadores acabarão por se aborrecer por falta de estímulo, passando à nacionalidade seguinte. Em segundo lugar, somos governados por uma pessoa que pertence a uma minoria étnica. Isto torna menos provável que lhe ouçamos tão cedo frases como “a culpa é desses indianos que vêm para aí roubar emprego aos portugueses que querem abrir os seus próprios restaurantes de kebab”. Quanto ao resto, quem nunca achou que os polacos estão sempre a congeminar malfeitorias, que atire o primeiro cocktail molotov. Adeus.

Um comentário

  1. Genial! Há muito tempo que não vinha aqui mas vou tentar passar mais vezes.

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