O amor bovino também é amor

Edouard_Manet_073_(Toter_Torero)

Sempre que se noticia a morte de um toureiro, acontece a mesma coisa. As notícias sobre mortes de toureiros, não sendo frequentes, também não são propriamente achados raros na escala de interesse jornalístico que tem “homem morde cão” como ideal a alcançar. Nem se percebe muito bem porque continua a ser notícia a morte de alguém que ganha a vida vestindo um fato bizarro e fazendo parvoíces para arreliar um animal potencialmente perigoso e facilmente irritável que, por acaso, até está a ter um dia chato (toda a questão de ser arrancado à sua pastagem confortável e ao seu harém de vacas para ser transportado num camião e libertado num círculo de areia rodeado por macacos barulhentos). Espantoso é quando acontece o contrário. Mas nem homens que mordem cães continuariam a ser notícia se acontecesse em 99.999% das ocorrências de proximidade entre humanos e canídeos. Deixaria de ser um acontecimento e passaria a ser simplesmente opção gastronómica.

Adiante. A coisa que acontece sempre, dizia eu, é a sucessão obrigatória de comentários de pessoas que ficam felizes com o sucedido e que alertam para a reposição de algum equilíbrio na balança da justiça porque, ao contrário do que costuma acontecer, é o toureiro e não o touro a morrer. Isto é mentira. Quando há uma injustiça e o resultado supostamente injusto ocorre dez em cada dez vezes, verificando-se o resultado inverso, o supostamente justo, numa fração tão ínfima da décima vez que nem chega para melindrar o pleno, não há equilíbrio nenhum.

Mas, mesmo que o equilíbrio fosse real, de que forma é que isso seria positivo? Claro que falamos de alguém que ganha a vida a fazer mal a animais inocentes, mas não há assim tanta gente a deleitar-se publicamente quando um funcionário de matadouro é estripado pela vaca que deveria matar. Nem sequer entre os vegetarianos mais radicais esta postura é comum. Poderá dizer-se: “ah, mas o funcionário do matadouro faz mal a animais inocentes por um motivo válido”. Sim. Claro. Por um motivo válido para nós, criaturas desprezíveis que apreciam ingerir animais inocentes e que preferem fazê-lo quando os mesmos se encontram mortos, por motivos sobretudo logísticos. Para o animal que morre, tanto se lhe dá que a sua morte cumpra um propósito alimentar ou apenas lúdico.

A verdade dolorosa é que o ativismo animal é um bocado inútil. Tratar os animais de forma decente (onde se inclui matá-los de forma decente porque somos uma espécie muitas vezes incompreensível) é uma coisa tão evidente e automática em qualquer pessoa moderadamente normal que não se percebe muito bem a quem a mensagem é dirigida. Às pessoas que acham o contrário? Sejamos realistas. Alguém que acredite que os animais não devem ser tratados de forma decente vai mudar de ideias porque lhe explicam que o seu desodorizante é testado nos olhos de coelhos para garantir que não deixa manchas na roupa? Seria um esforço tão inglório como pregar os direitos da criança à porta de uma convenção de pedófilos.

No fundo, nem é essa a questão fulcral. A questão fulcral é esta: quem exprime o seu regozijo com a morte de um toureiro até pode estar a ser um excelente ativista dos direitos animais. Mas está a falhar horrivelmente como ser humano.

Os comentários sucumbiram a uma epidemia de peste suína.