Era uma vez o Portugal

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Do que este país precisa é de uma narrativa. Não uma historieta vaga de pormenores parcialmente recordados com rigor oscilante. Precisamos de uma narrativa coerente e partilhada por todos. O conteúdo nem interessa muito. Muitos de nós ouvimos um daqueles discursos épicos de Obama e ficamos com a melancolia invejosa de quem queria ter um governante com aquela capacidade retórica e não pode. Nem sequer é porque os nossos políticos não têm capacidade para chegar a esse patamar. Teoricamente, muitos terão.

A lei das probabilidades dita que, numa população que passa os dez milhões, haverá pelo menos meia dúzia de pessoas que conjugue a prática da atividade política com a capacidade para fazer discursos comoventes, motivadores e memoráveis. Por enquanto, ainda não apareceu nenhum, mas, atrás de um Eurico Brilhante Dias ou de um Paulo Rangel, poderá muito bem esconder-se o Obama portuguê. Tenho esta esperança.

Para que isto aconteça, é essencial que encontremos a nossa narrativa. A narrativa dos Estados Unidos é clara, foi aprimorada ao longo de um par de séculos e não podia ser mais eficaz. Obama sobe ao palanque e fala do que os americanos são, daquilo em que acreditam, daquilo que torna a América grande. E nós? O que somos nós? Em que acreditamos? O que nos torna tão simpaticamente quase médios?

A narrativa americana é essencial num país que, basicamente, foi inventado à pressão. Portugal não foi inventado. Foi evoluindo naturalmente com o tempo, formando-se a partir de bocados de outras entidades e transformando-se com o passar dos séculos no que hoje é. Esta diferença compreende-se melhor se virmos as coisas em termos comparáveis aos da evolução animal. A galinha não precisa de narrativa. É aquilo que a evolução fez dela. E isso é suficientemente simples e evidente para ser aceite por todos. Mas, se um cientista criar em laboratório um animal que mistura traços de galináceo com patas de santola e asas de borboleta, é melhor que tenha uma justificação muito boa para dar ao mundo. Com os países é igual, só que diferente.

A essência

Começando pelo início, o que são os portugueses? Os americanos são os pobres e rejeitados do resto do mundo para lá enviados para construir um país. É o que está inscrito numa parte qualquer da Estátua da Liberdade (possivelmente a virilha). E continuam a acreditar que é isto o que são, na sua essência. Mesmo os que hoje são multimilionários e vivem em mansões feitas de tijolos de platina com vista para as crateras da Lua. Muitas vezes, os portugueses escolhem como sua essência aquela veia de intrépidos exploradores marítimos da propaganda salazarista que continua a ter clientes nos nossos dias. Seja. Como disse acima, o conteúdo das narrativas é completamente irrelevante. Se um pobre e rejeitado americano pode ser o Bill Gates, um intrépido explorador português também pode recusar-se a sair de casa para votar só porque o tempo está demasiado quente/frio/tépido.

A crença

Os americanos têm como valores fundamentais os que foram inscritos na sua declaração de independência: a igualdade entre os homens, o direito ao governo livre, etc. Sem contar com os acréscimos constitucionais posteriores sobre Deus e armas de fogo. Portugal não tem uma declaração de independência. A ter existido algum dia tal documento, as suas origens medievais tornariam inevitável que incluísse referências a Deus e à perseguição a grupos étnicos e religiosos em número suficiente para agradar a muitos americanos atuais. Precisamos de acreditar em alguma coisa enquanto nação. Em alguma coisa que una de forma unânime as pessoas de bem deste país. Por exemplo, podemos erigir em valor supremo a importância de não passar à frente de alguém numa fila. Se há instituição que os portugueses respeitam, é a fila (pelo menos a fila pedestre, na fila automobilizada, vale tudo). E todos os portugueses decentes aceitam sem questionar que o lugar ocupado numa fila é sagrado e que quem tenta passar à frente merece a morte ou destino pior.

O sonho

O célebre sonho americano sugere que qualquer pessoa, por mais humildes que sejam as suas origens, poderá, através do seu trabalho esforçado e honesto, alcançar uma posição de confortável abastança. Em Portugal, sabemos que isto é absurdo e que o trabalho esforçado e honesto só conduz a dores de costas e calos. O sonho português terá de se elevar acima de meras questões laborais. Precisa de ser algo superior a aspirações por uma vida melhor. Encontrar um bacalhau bem demolhado, por exemplo. Nem demasiado salgado, nem demasiado insosso. No ponto. Naquele ponto de perfeito equilíbrio gustativo que deleita qualquer português. Se há portugueses que não gostam de bacalhau? Não, não há. Ou, pelo menos, não deveria haver. Os campos de reeducação existem precisamente para lidar com essas questões. Quais campos de reeducação? Ah! Que ingenuidade.

E pronto. Com uma narrativa, Portugal pode tornar-se um canteiro de Obamas à beira-mar plantado. Berço de governantes capazes de empolgar e comover multidões lembrando-nos que somos gente capaz de dar novos mundos ao mundo (se não chover), que defenderá com afinco o direito que cada um tem de ocupar o lugar na fila que lhe pertence e que, todos juntos, mantemos vivo o sonho de encontrar a posta perfeita.

Deixarmos ficar as bandeiras nas varandas e janelas depois de eventos desportivos internacionais também ajuda. Mesmo aquelas com o escudo defeituoso ou as que dizem “PORTUGAL” em grandes letras amarelas de forma bastante vistosa e redundante.

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