O governante enquanto urinol

#LM Miguel Manso -  Entrevista do primeiro ministro pedro passos coelho a rtp- Lisboa, 20 de setembro de 2011

Há pessoas a quem só apetece mijar em cima. Não sei se esta frase fará sentido para mais alguém. Nem mesmo para mim fará sentido fora de um contexto muito específico. Este: sempre que vejo imagens de Passos Coelho, especialmente imagens em movimento e sobretudo quando vêm acompanhadas pelo som da sua voz, sinto a bexiga a dar sinal. Talvez seja uma forma bizarra de incontinência ativada por um mecanismo de reflexo ou outra coisa qualquer. A ciência talvez consiga explicar. Eu não.

A única coisa que sei é que não é sexual. Sou crente convicto nas liberdades individuais e considero que o cidadão que aprecia e pratica a chuva dourada deve ser acarinhado e protegido pelo seu esforço incrivelmente meritório na reciclagem de líquidos, mas não sou um deles. Pode ser ignorância ou estrangulamento de horizontes, mas não consigo deixar de sentir que ter alguém a urinar-me em cima seria um incómodo. E é essa convicção que origina o meu reflexo urinário com o ex-primeiro-ministro. Quero urinar-lhe em cima por acreditar que isso o incomodaria e isso entusiasma-me. Percebo que, descrevendo isto assim, parecerá perverso, mas insisto que não é sexual. Se fosse, admitiria sem grandes pruridos. Como admito que, de vez em quando, tenho sonhos interessantes envolvendo o casal Eanes, o elenco da telenovela Vila Faia e uma pilha de pepinos.

Outra particularidade interessante é que não me lembro de ter sentido isto alguma vez antes de Passos Coelho ter adquirido a sua maior qualidade humana: as duas letras que antecedem as palavras “primeiro-ministro” na construção “ex-primeiro-ministro”. Sentia outras coisas. Diversão, quando o via tentar justificar os seus piores atos governativos como algo doloroso mas necessário, feito para salvaguardar o bem-estar futuro dos portugueses e não apenas para lhe valer umas palmadinhas nas costas durante as reuniões do Eurogrupo. Admiração, pelo reconhecimento do seu extenso talento dramático na negação de desonestidades passadas com a simplicidade de um “não me lembro” ou de um “esse não era eu e sim uma pessoa muito parecida com o mesmo nome”. Confusão, ao perceber como é possível que consiga subsistir sem qualquer vestígio de lábios. Mas nunca este apelo quase irreprimível do chichi.

Quero aliviar a bexiga em cima de Passos Coelho. Mirando o alfinete patriótico na lapela, talvez. Possivelmente, equipando-o com um daqueles cones invertidos que se põem nos cães enfermos, impedindo assim que escape qualquer gotinha.

Para terminar, gostava de deixar claro que não se trata de facciosismo. Não me apetece mijar sobre qualquer outra figura do PSD, por mais odiável que seja. O próprio Cavaco Silva, por quem sinto um nojo incapacitante, não desperta em mim qualquer vontade de satisfazer necessidades fisiológicas. Nem mesmo a número dois, apesar de ver sempre com bons olhos a sua submersão em fezes, qual Biff Tannen no “Regresso ao Futuro”. E é igualmente verdade que alguns militantes destacados do PS me provocam gases, que altos dirigentes do CDS me dão vontade de lhes atirar milho e que um número considerável de figuras do PCP e do Bloco despertam em mim um impulso para cantarolar velhos jingles comerciais. Até ao deputado do PAN me apetece fazer festas.

Só aos Verdes sou completamente indiferente. Desculpa, Heloísa.

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