Durão Barroso não é desonesto (mas a definição de desonestidade podia ser mais honesta)

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Quando um tubarão devora banhistas, arruinando-lhes as férias e causando uma longa sucessão de outros incómodos de maior ou menor dimensão, alguém dirá que se portou de forma digna de repreensão? Claro que não. O tubarão que devora banhistas não está a ser irrazoável. Está simplesmente, como diz o poeta, a ser tubarão. Apenas isso, sem ser preciso qualquer outro argumento acessório. Não é preciso, sequer, argumentar que o animal tinha fome, que se sentia um bocado deprimido e às avessas com o mundo, que tinha engolido, pouco antes, um saco de plástico que lhe estava a desvairar a paciência ou até que os banhistas teriam cometido o faux pas marítimo de vestirem trajes balneares feitos de bife do lombo.

É por isto que, ao contrário de muita gente, não me incomoda nada o novo biscate de Durão Barroso. Passei tempo suficiente a ver documentários sobre a vida selvagem para saber que só com grande condicionamento um animal conseguirá contrariar a sua natureza. E ninguém sugerirá que se ensine um antigo primeiro-ministro a saltar através de arcos em chamas ou a tocar uma corneta com o nariz quando lhe dão uma moeda. Seria indigno. Para o próprio, mas também para Portugal.

Quero deixar bem claro que não estou a sugerir que Durão Barroso será comparável a um tubarão. Falta-lhe a dignidade inerente a qualquer predador no topo da cadeia alimentar. A ser um animal, teria de ser obrigatoriamente um invertebrado. Não digo isto para ofender. Não estou aqui para ofender ninguém. Mas um esqueleto, apesar da solidez que oferece à constituição de qualquer criatura que o possua, rouba o tipo de maleabilidade que permitirá a um polvo, por exemplo, enfiar-se dentro de uma garrafa. Mais uma vez, quero deixar claro que também não comparo Durão Barroso ao inteligente cefalópode, um animal que, apesar de molusco, é capaz de encontrar a solução para problemas de complexidade média e que não passaria do MRPP à Goldman Sachs sem sentir algum remorso.

Para encontrar na fauna uma analogia mais adequada, é preciso um pouco mais de esforço. (Quem falar em cherne, levará imediatamente uma pedrada.) Imagine-se um mamífero de porte majestoso. Um elefante, por exemplo. Agora, imagine-se que, na orelha do paquiderme, habita um diminuto verme simbiótico que se alimenta de lascas de pele e que o elefante tolera porque lhe limpa o canal auditivo de acumulações de cera. Imagine-se, contudo, que este verme específico não é nada competente e que, em vez de cumprir a sua função de limpeza, bloqueia mais ainda o ouvido com a grande quantidade de excremento que produz. Ou seja, um verme incapaz de cumprir a única função que o salva da insignificância completa e que, ainda por cima, padece de soltura intestinal. Esta criatura fictícia, se conseguirmos imaginá-la, será o Durão Barroso do mundo animal.

Mas há uma verdade que não poderemos perder de vista. O homem que se tornou primeiro-ministro para salvar o país abandonado por um antecessor quando a situação começou a ficar feia e que, pouco depois, se foi também embora por perceber que honraria mais a pátria que o pariu em Bruxelas, não fez nada de mal. Não violou nenhuma regra. Não cometeu nenhum ato desonesto. E sabe muito bem que assim é porque é uma pessoa cuidadosa e compreende que precisa de conhecer as regras, respeitá-las e garantir que nenhum dos dedos que lhe forem apontados terá um par de algemas pendurado. Durão Barroso não é desonesto. A nossa definição de desonestidade é que é uma grandessíssima intrujona.

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