Alberto João Jardim entra num filme, mas (pelo menos) não é porno

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Mesmo que a afirmação no título seja evidente e não exija desenvolvimento, não será isso a impedir-me. Insistir na inutilidade também pode ser uma virtude. Que o digam os chineses. Para que serviu construir uma muralha daquele tamanho? Conseguiu impedir invasões estrangeiras? Nem por isso. Mas ela lá está e, para quem acredita que a NASA não é uma entidade subsidiária de Hollywood, até é visível do espaço.

Não sei se o filme em que o antigo potentado madeirense participa será ou não visível do espaço. Arrisco mesmo esperar, sem grande empenho, que não seja visível na Terra. Com um pouco mais de convicção, espero que ninguém o veja fora da Madeira.

Trata-se de “Feiticeiro da Calheta” e, apesar do título ter elevado potencial para a rima brejeira, a Calheta será uma localidade muito digna, sem que os habitantes atuais possam ser culpados pela maldade de terceiros. Alheia a rimas, a obra é perfeitamente inocente, retratando o poeta popular responsável pela letra do Bailinho autóctone. Em nenhum momento, o enredo inclui a visita de um jovem e afoito condutor de carros de cesto a uma florista viçosa para, entre ponchas e bolos do caco, lhe cheirar a estrelícia. Quem quiser assistir a uma aproximação picante entre política e pornografia, deverá procurar noutro local a satisfação dos seus instintos porcalhões.

Por exemplo, na sex-tape protagonizada por Isaltino Morais, Fátima Felgueiras e Valentim Loureiro com divulgação prometida para breve (obrigado, Correio da Manhã). Ou no novo livro de José António Saraiva, que promete fazer revelações escabrosas sobre as preferências sexuais dos políticos. Pessoalmente, falando como pessoa que já viu outras pessoas nuas, tanto ao vivo como em diferido, não percebo o interesse. Explico-me melhor: não percebo o interesse que possa ter para mim ou para o cidadão comum a sexualidade dos políticos (abro uma exceção óbvia para Eurico Brilhante Dias e, depois de uns copos, também para Assunção Cristas).

Mas percebo porque interessará a José António Saraiva. Trata-se, afinal, de um homem que publicou em 2012, enquanto diretor do Sol (o jornal e não o astro), um artigo no qual confessava ter passado uma viagem de elevador a olhar fixamente para um adolescente, lendo nele traços de homossexualidade e discorrendo por extenso sobre a forma como a propaganda gay poderá perturbar jovens sem tendências reais para levar à letra o preceito moral que manda “amar o semelhante”, levando-os a enveredar por esse caminho sem regresso. O texto não deixa claro como terminou essa viagem de elevador. Não sabemos se foi ou não o início de uma bonita (ainda que provavelmente ilegal) amizade com o jovem em questão e será indelicado perguntar.

Felizmente, o autor não se deixou afetar pelos mesmos pruridos e perguntou mesmo. E é graças a esse arrojo que o público (o conjunto das pessoas e não o jornal) poderá ler em breve “Eu e os Políticos”. Porque, mesmo tratando-se de uma obra com revelações bombásticas sobre a frequência masturbatória de Narciso Miranda ou sobre os fetiches preferidos de Mota Amaral, o “eu” tinha de estar obrigatoriamente no título por ser a palavra preferida de José António Saraiva.

A minha é “cu”.

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