A linha que vai da frigideira à peneira

12set2012-a-atriz-norte-americana-angelina-jolie-e-o-alto-comissario-da-onu-para-os-refugiados-antonio-guterres-se-reunem-nesta-quarta-feira-12-com-o-primeiro-ministro-libanes-najib-mikati-em-134746

Não me apetece participar no processo de canonização de António Guterres e sua confirmação como MAIOR PORTUGUÊS DE SEMPRE (desculpa, Salazar, mas vais passar a ser só “o outro António”). Em vez disso, decidi partilhar uma história da minha vida. O relato do momento em que me apercebi de uma ligação mais coisal do que causal entre a frigideira e a peneira. Esta peneira de que falo é a tendência que todos demonstramos em maior ou menor grau, ocasional ou permanentemente, para querermos parecer mais do que somos. Mais inteligentes, mais ricos, mais influentes, mais conhecedores do mundo e das suas coisas. Mais importantes do que os outros mortais e, talvez, mais merecedores de escapar ao triste destino que espera todos os humanos no fim da sua existência. Não me refiro à peneira real, o objeto usado para (pausa para pesquisar na internet para que serve uma peneira) tornar a farinha ainda mais enfarinhada. Quanto à frigideira, é mesmo uma frigideira.

Antes de exercer a minha atual ocupação como agente secreto filantropo e mecenas da cultura, tive uma ocupação comum, semelhante à que permitirá a subsistência de muitos de vós. Sim, é verdade. Também eu trabalhei num escritório das nove às seis e tinha colegas com quem ia almoçar e falar mal do patrão (que estava sempre enganado e, além disso, era uma pessoa feia). Estes meus colegas tinham, cada um, as suas particularidades, mas havia uma que partilhavam. Sempre que, a caminho do restaurante da esquina, passávamos por uma tasca mais humilde que ali havia, encolhiam-se e produziam esgares, exclamando que era horrível o cheiro a frito que saía pela porta do estabelecimento e demonstrando repulsa digna de vampiros que, de repente, se tivessem materializado em plena Feira Nacional do Alho e da Arte Sacra.

Notando a minha estranheza, explicavam que o cheiro a fritos era o pior cheiro entre todos os que a atmosfera permitia e diziam que agiam daquela forma, chegando a caminhar pelo meio da rua e arriscando o atropelamento, num esforço para evitar que o referido odor se colasse às suas pessoas. Devo explicar que nenhuma destas pessoas se mostrava particularmente avessa a trincar um rissol ou um croquete. Apenas não queriam ter o cheiro do processo de fritura a poluir-lhes as narinas ou, pior ainda, a entranhar-se nas suas roupas, peles e cabelos.

O que demonstravam, concluí, não era tanto uma repulsa olfativa real, mas sim a pretensão de não serem confundidos com as pessoas reles que não vivem em mansões com cozinhas instaladas nas profundezas e batalhões de criados para lidarem com os cheiros da confeção alimentar, residindo, ao invés, em apartamentos onde são obrigados a cozinhar e onde, muitas vezes, o cheiro da comida se recusa a ficar confinado às paredes da cozinha, entranhando-se em tudo e em todos. Não queriam, portanto, ser confundidos com eles próprios…

Já não está ninguém a ler? Ótimo.

Porque o que quero realmente dizer, sem que me apontem o dedo por excesso de mau feitio ou por alimentar ódios injustificáveis contra pessoas de fofura unânime é isto: Portugal está de parabéns por ter um dos seus filhos num cargo tão ilustre, juntando-se por isso à lista de países igualmente inofensivos que tiveram o mesmo privilégio (a Coreia do Sul, o Gana, o Peru ou a Birmânia, por exemplo).

Porque não gosto do distinguido? Por nenhum motivo válido. Posso dizer que me parecerá ser um engenheiro mau de contas, um socialista beato e adepto de fazer caras tristes em momentos de comoção que, pessoalmente, nunca me convenceram. Posso dizer que tem um nome demasiado parecido com “Gondomar” (pobre Valentim Loureiro…). E que lembro bem o seu jeitinho para abandonar o barco num momento em que as ratazanas mais afoitas tinham apenas começado a pensar: “Ei. O porão não parece ligeiramente mais húmido assim de repente?” Posso dar-lhe parabéns a pingar um sarcasmo desagradável e desejar que Angelina Jolie, sua colega na causa dos refugiados, perceba o seu potencial como parceiro romântico e de caridade e que, juntos, adotem um órfão de cada país do Terceiro Mundo. Nada disto é uma verdadeira justificação. Limito-me a exercer o meu direito constitucional ao fel, tal como qualquer outro português terá o direito de festejar como se fosse a conquista do segundo Europeu de futebol num ano. Tão simples como isso.

Agora, se não se importam, vou passar o resto do dia a fritar pastéis de bacalhau e a esfregá-los na cara.

Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *