Quem matou Mário Soares?

Há quem lhe chame “pai da liberdade”, “inventor da democracia” ou simplesmente “Mário”, mas a verdade é que o antigo presidente e primeiro-ministro deu um contributo crucial para a existência do Portugal democrático, moderno e fofinho em que hoje vivemos. Era também um homem muito vigoroso, apesar da idade avançada, e a comunidade médica era unânime na crença de que facilmente poderia chegar aos cento e cinquenta anos em plena forma.

A sua partida inesperada deste mundo não escapará às inevitáveis suspeitas de mão criminosa e, por isso mesmo, já se encontram no nosso país em processo de recolha de pistas os melhores detetives do mundo, tanto os reais (Sam Spade, Sherlock Holmes, Miss Marple), como os fictícios (Hercule Poirot, Francisco Moita Flores). Depois de desvendado este caso, talvez tenham tempo para investigar outro caso notável do panorama criminal português, descobrindo finalmente a identidade do famigerado Entornador de Serpa, o indivíduo que, há décadas, despeja pela calada da noite todos os recipientes contendo líquidos na notável cidade alentejana.

Na presente fase de investigação, existe apenas uma lista de suspeitos, sem que haja provas que permitam fazer uma acusação formal. Mas, porque o público precisa de saber e, se não for por aqui, será pelo Correio da Manhã, aqui ficam os suspeitos e a motivação provável de cada um.

Suspeito nº1: Freitas do Amaral

O ódio por ser ultrapassado nas presidenciais de 86 nunca foi esquecido, por mais combalido que o antigo rival se mostrasse em visitas hospitalares. Numa delas, depois de chorar diante das câmaras, Freitas foi visto a esfregar as mãos com um sorriso maquiavélico enquanto murmurava: “Afinal quem é que se lixou, sacana?”

Suspeito nº 2: Cavaco Silva

Outro ódio antigo. Cavaco nunca perdoou Soares por lhe ter dificultado a vida quando era primeiro-ministro. E também pela facilidade com que conseguia parecer mamífero, algo que sempre escapou ao Colosso de Boliqueime.

Suspeito nº 3: Manuel Alegre

Às vezes, os grandes companheirismos resultam em sangrentos homicídios. A inusitada candidatura presidencial do seu velho companheiro de luta política em 2006 pode ter roubado ao poeta d’Abril a glória de ficar um bocado mais perto da segunda volta com Cavaco. A questão poderá ter ficado resolvida com um simples poema de escárnio anónimo distribuído nas vielas atrás do Largo do Rato ou com uma almofada asfixiante nas trombas.

Suspeito nº 4: A tartaruga das Seicheles

Depois de montada por soares em 95, durante visita de estado que muito fez pelo aprofundar das relações entre os dois países (os portugueses aprenderam que as Seicheles existiam e os seichelenses terão aprendido o mesmo acerca de Portugal, apesar de os termos usado como estação de serviço em muitas viagens à Índia), o réptil venerando nunca recuperou da humilhação. O coco que Soares recebeu no seu quarto no hospital, enviado por um “admirador”, poderia estar envenenado.

Suspeito nº 5: Alípio de Oliveira Salazar

O filho secreto do antigo ditador jurou vingança pelo papel desempenhado por Soares na luta contra o Estado Novo. Não ajudará o rumor que diz que Salazar não terá caído de uma cadeira ou escorregado na banheira e sim na casca de uma banana que Soares lhe enviou do degredo em São Tomé.

Suspeito nº 6: Joaquim Barrocas

O sargento da GNR integrava a escolta designada para o autocarro em que seguia Soares numa das suas presidências abertas e ouviu o presidencial passageiro ordenar-lhe que desaparecesse. O militar deixou o autocarro afastar-se e passou longas horas a chorar na berma da estrada, caído em desgraça. Nunca recuperou e desenvolveu um pavor debilitante de autocarros turísticos.

Suspeito nº 7: O socialismo

Tantos anos fechado numa gaveta só poderiam gerar um rancor cego e homicida.

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