Betos, metaleiros e outras tribos da nossa juventude

“Os jovens são o futuro mascarado de presente e agasalhado com um edredom de possibilidade,” disse ninguém além de mim em nenhum momento anterior a este. Mas não deixa de ser verdade. Quem já foi jovem, saberá o que custa e o bom que é. Quem nunca foi jovem, terá muitas explicações a dar. Mas os jovens não são todos iguais. Dividem-se em tribos. Conhecemo-las na nossa adolescência. Alguns de nós terão mesmo feito parte de uma ou de várias. Enumeremos algumas das mais comuns e relevantes. Por Júpiter!

Os betos

Os betos vestem roupas de marca e podem chamar-se Diogo, Gonçalo e Mariana, mas isto não é obrigatório. Podem ser ricos, remediados ou pobres, mas gostam sempre de fingir que têm brasão. Às vezes, têm mesmo porque os seus pais compraram um numa loja especializada em peneiras. Podem tratar por “tio” pessoas que não são irmãs dos pais e calçam sapatos de vela mesmo que não pratiquem desportos náuticos. O pulôver do beto está sempre sobre os ombros ou atado à cintura e nunca vestido, mesmo que faça frio. Isto é obrigatório.

Os metaleiros

Os metaleiros têm cabelo comprido e ouvem música que deixa preocupados os seus pais e que incomoda os vizinhos. Frequentam concertos onde abanam muito a cabeça, onde dão empurrões uns aos outros ao ritmo da música e onde levantam as mãos só com o indicador e o dedo mindinho esticados. Vestem calças de ganga muito justas e qualquer peça de roupa passível de embelezamento com remendos alusivos às suas bandas preferidas. Por baixo de tudo isto, são gente pacata e inofensiva. Ave Satanás.

Os surfistas

Os surfistas são alourados, mesmo que não sejam, e conquistam as ondas, mesmo que não conquistem. Alguns deles vivem em Trancoso e nunca viram o mar. A prancha do surfista pode ser curta ou comprida, mas não é o tamanho da prancha que importa e sim a intensidade dos tubos. Às vezes, o mar está flat. Noutras, está-se na Nazaré, onde o Garrett McNamara é deus. Todos os surfistas calçam botas presas com tiras de velcro por não saberem atar os sapatos. Quando um surfista equipa a prancha com rodas, transforma-se num skater.

Os góticos

Os góticos vestem-se de preto e apreciam folhos, cartolas e mortalhas de veludo roxo. O ideal de beleza gótico é pálido. Quando um gótico não é suficientemente pálido, recorre à maquilhagem ou contrai tuberculose. Passam tempo em cemitérios, a refletir sobre a efemeridade da vida, a arquitetar incursões contra o império romano ou a construir catedrais. Muitos góticos apreciam bolos e alguns gostavam de ser vampiros. Poucos conseguem. Não é fácil usar sangue como ingrediente de pastelaria devido à coagulação.

Os marrões

Os marrões têm boas notas e poucos amigos. Vestem coisas que as suas mães compraram na feira, veem mal e têm cheiros esquisitos. Passam demasiado tempo a falar sobre passatempos que mais ninguém percebe, como os jogos de tabuleiro, a banda desenhada ou a pesca desportiva (nas luas de Saturno). São todos do mesmo sexo, mesmo quando não são, e permanecem virgens até muito tarde, frequentemente até ao nascimento do terceiro filho. Alguns marrões aprenderam a respirar debaixo de água.

Os cineastas da Nouvelle Vague

Os cineastas da Nouvelle Vague são franceses e fazem filmes. Alguns chamam-se Truffaut e Godard. Outros não. Têm dispensa permanente das aulas de educação física porque precisam de muito tempo para polir os enquadramentos. O seu habitat natural é a parte de trás dos pavilhões da escola ou Paris em 1965. Alguns fumam, outros também.

Os banqueiros

Os banqueiros andam sempre de fato e emprestam dinheiro a juros. Alguns dominam os câmbios bolsistas enquanto outros negoceiam ativos de risco. No geral, todos apreciam o lucro e a salada de frutas. Podem ser mais ou menos implacáveis na cobrança, mas o mais frequente é que nem as próprias mães gostem deles. Isto deixa os banqueiros tristes e muitos adormecem a chorar enquanto abraçam a almofada e são sodomizados por campeões de halterofilismo que importam por um preço exorbitante de países do Cáucaso.

Os zulos

Os zulos atacam com noite alta e capturam território às outras tribos. A maior batalha escolar de que há memória ocorreu em 1988, quando um batalhão de zulos conquistou a cantina (até então dominada pelos betos) e forçou a inclusão de carne de hiena crua em todos os pratos servidos a partir dessa data. Alguns zulos enfeitam-se com penas, pelagens, ossos e dentes de vários animais. Outros vestem bermudas e camisolas tingidas à mão, por uma questão de preferência. O zulo mais famoso chama-se Shaka e deu na televisão. O zulo menos famoso chama-se Hipólito e é exímio a virar frangos.

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