5 formas erradas de ser ateu

Olá. Sou ateu. Podem constatar isso mesmo porque estou a usar o meu chapéu oficial de ateu (azul, pontiagudo e com uma borla amarela na ponta), porque tenho um cartão da Sociedade Internacional de Ateus e também pela forma afoita como dependuro sem medo a minha alma imortal sobre as chamas eternas como se… bom… como se não acreditasse realmente na existência de qualquer um destes elementos. Estas palavras são dirigidas a outros ateus, com ou sem chapéu oficial e cartão de membro. Quem não for ateu, fica dispensado de ler, incluindo agnósticos e pessoas que não sabem muito bem qual é a diferença entre uma coisa e outra. Obrigado pela atenção.

Caro ateu:

1-Para de falar na ciência.

A não ser que sejas um cientista tão apaixonado pelo trabalho que não consegues deixar de falar no assunto a toda a gente que te aparece pela frente. Qualquer outro ateu deverá fazer um esforço para não falar em ciência sempre que lhe falam em religião. A ciência não é o oposto da religião. A ciência existe na esfera da experimentação e da prova e a religião existe na esfera do simbolismo e da crença. São conceitos tão diferentes que não é possível compará-los e decidir qual é o mais meritório. Levámos alguns milénios a perceber isto, mas chegámos lá e voltar atrás seria idiota. Equiparar as duas coisas é como tentar decidir se o Usain Bolt é mais ou menos meritório que a Tina Turner. É verdade que muita gente no mundo pode continuar a ver a religião como uma forma válida de explicar o mundo, mas, a não ser que tentem impor essa convicção a quem não a partilha, devem ser livres de acreditar no que quiserem sem que alguém tente bombardeá-los com argumentos científicos para forçar uma mudança de ideias. Porque uma corrida entre o Usain Bolt e a Tina Turner seria uma coisa muito triste de ver. É igualmente negativo que um ateu tente impor a sua forma de ver o mundo a alguém. O que nos remete para o ponto seguinte.

2-Para de tentar converter as pessoas.

O ateísmo é a ausência de crença, não é uma crença alternativa. E é absurdo fazer proselitismo quando não se tem nada para… proselitar(?). Ser ateu não é pertencer a uma religião alternativa em que Deus é substituído pela ciência. É como quando nos perguntam de que clube somos. Ser ateu é dizer que não somos de clube nenhum. Não é dizer que somos da Académica porque os outros clubes não conseguem apresentar evidências matematicamente constatáveis para provar a afirmação de que são os maiores. O Neil deGrasse Tyson e o Stephen Hawking não são alternativas a Jesus ou Maomé. A não ser que o primeiro vá à montanha e o segundo se levante e comece a dançar a Macarena. Aí, teríamos de pensar melhor nisto.

3-A religião não é necessariamente má.

Tal como a ciência não é necessariamente boa. Sim, eu sei. A inquisição, os apedrejamentos e a obrigação de comer cocos com casca imposta por alguns cultos animistas do Pacífico. Mas as religiões não são só o seu registo de atrocidades e estragos dentários. O catolicismo tem um historial de perseguição a grupos minoritários, mas também patrocinou o teto da Capela Sistina. O islão discrimina a mulher, mas construiu o Alhambra. O zoroastrismo pode ter tendências incendiárias, mas gerou o Freddie Mercury. E, saindo das enciclopédias de arte e passando para um registo mais individual, por cada maluco religioso que comete atrocidades ou que profere barbaridades, existirão mil pessoas que tentam ser mais decentes por acreditarem que a religião lho exige. Esta proporção não está estatisticamente provada. É só uma crença pessoal. Porque os ateus também estão autorizados a tê-las.

4-É inútil (e estúpido) manifestar desprezo por locais de culto religioso.

O ateu sério entra numa igreja, templo ou mesquita, tem a consciência do sítio onde está a entrar e percebe que demonstrar um mínimo de respeito não é submissão a crenças a alheias e sim empatia para com outros humanos que acreditam em coisas em que o próprio não acreditará. O ateu menos sério entra numa igreja, templo ou mesquita e pode sentir-se obrigado a ser iconoclasta. Haverá mérito na… (pausa para ir ao dicionário) iconoclastia, mas o sítio mais adequado para a praticar não será no Santuário de Fátima no 13 de maio. Que figura faz alguém com um cartaz dizendo “A MÃE DE CRISTO NÃO PODIA SER VIRGEM PORQUE A MEDICINA NÃO CONSIDERA POSSÍVEL QUE UMA CRIANÇA SEJA GERADA SEM CONTACTO SEXUAL E, SEJA COMO FOR, A VIRGINDADE É TOTALMENTE DESPROVIDA DE QUALQUER CARGA MORAL” em plena procissão das velas? Faz a mesma figura de alguém exigindo que o Génesis bíblico seja interpretado de forma literal numa convenção de paleontólogos. Mas leva uma abada na capacidade de síntese.

5-A pena é um sentimento feio. Se tens pena de alguém que consegue ser feliz sentindo que ocupa da melhor forma o seu lugar no mundo graças à religião, talvez seja mais produtivo olhares para a tua própria vida e tentares encontrar uma maneira de sentires as mesmas coisas com as tuas convicções. Não é tão fácil como parece.

Era só isto. Ide em paz e que o Monstro de Esparguete Voador vos acompanhe.

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